Hábitos, Compulsões e Vícios

Por Flávio Gikovate

Falta muito para que possamos dizer que conhecemos os detalhes do funcionamento do psiquismo humano. O que é fato é que uma boa parte das nossas ações parecem governadas por um “piloto automático”: em muitos casos, agimos de forma automática; e reagimos a determinadas situações sem que necessitemos pensar acerca do que fazer.

Os movimentos que fazemos ao dirigir o carro são todos sincronizados e não exigem reflexão, assim como as reações que temos diante de um problema inesperado no meio do percurso que estamos realizando. Muitas vezes só nos conscientizamos de algo depois do ocorrido, como se, diante do susto, o piloto automático tivesse se desligado! Fazemos o mesmo ao escovar os dentes, ao nos movimentarmos durante o banho, nos enxugarmos, assim como em tantas outras condições que se repetem com regularidade em nossas vidas

Chamamos de hábitos aos comportamentos, não inatos, que se tornam repetitivos e fixos. Ao que tudo indica, eles se consolidam na nossa memória, criando um caminho sólido no sistema nervoso, de modo que, em cada dada situação, respondemos do modo que foi padronizado.

Uma vez criado um hábito, que é um tipo de reflexo condicionado que se estabelece em função das repetições, fica muito difícil desfazê-lo. Temos facilidade para associar (condicionar) e enorme dificuldade para dissociar, desfazer essas conexões cerebrais que se fixam com vigor.

Se um dia nos habituamos a comer depressa, temos enorme dificuldade de reaprender e passar a comer mais devagar, mastigando bem os alimentos. Se um dia nos habituamos a cruzar as pernas ao sentar, o movimento nos chega automaticamente mesmo quando já sabemos da necessidade de nos livrarmos dele por força de algum problema de postura. Precisamos de atenção redobrada, de enorme empenho constante e prolongado, para conseguirmos nos livrar de nossos condicionamentos.

As compulsões correspondem a hábitos específicos que se perpetuam apesar de terem um caráter frequentemente inconveniente ou mesmo nocivo. São exemplos de compulsões o ato de roer as unhas, os variados tipos de automutilação, como por exemplo se ferir com as próprias unhas, assim como os transtornos obsessivo-compulsivos (TOC).

O que os caracteriza, a meu ver, é uma propriedade muitas vezes difícil de ser detectada, qual seja, a de que provocam uma redução de ansiedade: se alguém está muito nervoso e desenvolveu a compulsão de roer as unhas, será nessa hora que o fará, posto que isso provocará uma melhora do estado emocional.

Em uma frase: as compulsões provocam um tipo especial de prazer, chamado por Schopenhauer de “prazer negativo”, que se caracteriza pela existência de um desconforto inicial que se atenua através da realização do ato compulsivo; ele provoca um tipo de prazer parecido com o que nós sentimos quando, com frio, nos agasalhamos, com sede, bebemos água…

Os rituais repetitivos do portador de TOC aliviam uma ansiedade que só se esvai por esse meio. A compulsão por arrancar os cabelos (tricotilomania) só se perpetua por ter se transformado em “remédio” para a ansiedade que acompanha aquela pessoa em determinadas situações.

As compulsões alimentares ligadas à ingestão exagerada de comida (ou de certos doces) seguem o mesmo trajeto: apaziguam a sensação de desamparo que nos maltrata em determinados momentos do dia ou da semana.

Aquelas ligadas à recusa em se alimentar (anorexia) parecem relacionadas inicialmente ao prazer de se ver magra, que depois se transforma em algo mais complicado, onde o ato de comer aparece como a quebra de um ritual que alivia certas tensões, além de fazer bem à vaidade.

As compulsões alimentares são mais complexas porque, além do alívio da sensação dolorosa de desamparo, trazem consigo também um “prazer positivo”, sensação agradável que não depende da presença de um desconforto prévio.

O doce ou o chocolate são experiências agradáveis mesmo na ausência de qualquer desconforto! Esse tipo de compulsão já tem um pé naquilo que se chama de vício.

O vício costuma estar ligado a um fortalecimento ainda maior das conexões neuronais típicas dos hábitos, pois, no cérebro, se estabelecem outros trajetos típicos da dependência química.

Desnecessário dizer das dificuldades das pessoas para se livrar deles, posto que, ao menos numa primeira fase, provocam enorme prazer, sendo que os efeitos nocivos só costumam aparecer depois de muito tempo.

Nem todos os vícios implicam dependência química, porém todos têm a ver com a presença de um prazer positivo, um bem-estar inicial: consumismo desvairado, excesso de trabalho… É preciso cautela, pois não é difícil nos vermos enredados em algumas dessas situações. E, para sairmos, necessitamos, na maior parte das vezes, de uma força hercúlea!

Original: http://flaviogikovate.com.br/habitos-compulsoes-e-vicios/

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Décimo Segundo Passo – Dezembro

Décimo Segundo Passo do programa de recuperação de AA –  “12. Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.”.

O Programa de Doze Passos nos promete que ao seguirmos compromissadamente, encontraremos a serenidade. Nada mais. E justamente porque tantas pessoas realizam esse propósito, a programação de AA é considerada mundialmente como uma boa opção para a recuperação de diversos tipos de dependência química, emocional e comportamental.

As pessoas que entram em uma sala de doze passos NUNCA entram porque estão felizes demais, realizadas demais. As pessoas chegam nesses locais porque seus problemas alcançaram níveis tão alarmantes que não sabendo mais o que fazer; até mesmo aceitar ir até lá. E por que esses problemas são revertidos ao longo do tempo e muita dedicação é que se passa a frequentar a sala com alegria. Como não desejar compartilhar seu sucesso com os companheiros mais novos, recém-ingressados? É um comportamento que se torna natural.

Algumas formas de praticar o 12º Passo:

  • Simplesmente ir a uma reunião e partilhar como o programa influenciou positivamente sua vida e incentivar os companheiros a retornarem sempre;
  • Trabalhar voluntariamente nas reuniões;
  • Trabalhar voluntariamente nas reuniões de intergrupo;
  • Distribuir materiais de divulgação e participar dos comitês de informação ao público;
  • Participar dos outros possíveis comitês (literatura, eventos, etc);
  • Participar das ações externas promovidas pelo grupo (visitas a presídios, visitas a eventos de SIPAT em empresas, depoimentos a programas de rádio e tv, etc);
  • Contribuir com a 7ª tradição quando a sacolinha passar durante a reunião para ajudar a sala a ser manter aberta e em bom funcionamento;
  • Criar e participar de blogs, listas de Whatsapp e páginas de redes sociais.

Nessa fase, em gratidão a tudo o que recebemos gratuitamente da programação de AA, passamos a doar nossas experiências voluntariamente às outras pessoas e essas atitudes nos retornam positivamente com o sentimento do propósito anterior de nossos problemas: nos conduzir a uma vida melhor e ajudar os outros a conseguir o mesmos aos sermos nós os espelhos dos novos que entram sofrendo nas Salas. A cada 24 horas, a programação funciona para alguém.

Legenda: na mente quieta a intuição encontra voz.

NA OPINIÃO DO BILL 29, A gratidão deveria ir à frente: “A gratidão deveria ir para frente, nunca para trás”.”Em outras palavras, se você levar a mensagem a outros, estará pagando da melhor maneira possível a ajuda que lhe foi prestada”.”Nenhuma satisfação tem sido mais profunda e nenhuma alegria maior do que um trabalho do Décimo Segundo Passo bem feito. Contemplar os olhos de homens e mulheres se abrirem maravilhados, à medida que passam da escuridão para a luz, ver suas vidas se encherem rapidamente de um novo propósito e significado, e acima de tudo vê-los despertados para a presença de um Deus amoroso em suas vidas – essas coisas constituem a essência do que recebemos, quando levamos a mensagem de A.A”.

Décimo Primeiro Passo – Novembro

Décimo Primeiro Passo do programa de recuperação de AA –  “11. Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade.”.

Esse penúltimo passo nos solicita direcionar nossa atenção e atitudes à prece e à meditação. Prece, normalmente entendida como “falar com Deus/Vida”. Meditação, “ouvir à Deus/Vida”.

A realização dessa etapa compreende que já agimos em nossa recuperação no tocante a:

  • assumir nossos problemas e nos decidir a resolvê-los com o apoio de nossa consciência orientada por um Poder Superior (Passos 1, 2, 3);
  • reorganizar nossas vidas segundo o programa baseado em AA como célula-mãe (Passos 4, 5, 6, 7 e 10);
  • nos harmonizar em nossos relacionamentos passados e presentes em um processo de desligamento emocional que contribua à nossa serenidade diária (Passos 8 e 9);
  • assim se torna claro o quanto evitar problemas torna-se quase uma meta diária. E em muitas 24 horas podemos perceber o quanto essa estratégia funciona! O Passo 11 nos propõe a acrescentar em nossa rotina um espaço de tempo que sirva como ferramenta de recuperação. Dispor um período do dia em que possamos rogar o que necessitamos e agradecer em forma de prece assim como nos disponibilizarmos a reflexão sobre o que nossas vidas necessitam ou o que o momento nos solicita de um modo que conserve nossa dignidade e serenidade.

PRECE

  • Rezar as orações de uma determinada religião em cerimônia em templo religioso;
  • Rezar as orações de uma determinada religião a sós em templo religioso;
  • Rezar as orações de uma determinada religião a sós em casa;
  • Adorar/Louvar a Deus;
  • Confessar a Deus;
  • Agradecer a Deus (por sua vida, saúde, condição material, oportunidades, laços familiares e de amizade, vizinhança, trabalho, talento, moradia, serenidade…)
  • Suplicar a Deus;
  • Pedir que Deus possa interceder e ajudar aos outros.
  • Ler atentamente um texto religioso especial ao momento ao qual está passando;
  • Conversar com Deus; dizer diretamente o que pensa e necessita;
  • Conversar consigo/com a Vida; dizer diretamente o que pensa e necessita – para ateus.

MEDITAÇÃO

  • Fazer curso ou participar de evento para meditadores;
  • Meditar regularmente em casa, igreja vazia ou em algum outro local tranquilo;
  • Escrever um texto pessoal sobre algum problema que @aflija; então destruir ou guardar em local reservado;

Se for para resumir ao máximo o décimo primeiro passo do programa de recuperação de dependências, trataria-se de disponibilizar na rotina um tempo de qualidade para a saúde mental. Grátis e infalível.

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