Ciclos Viciosos

Aqueles que participam ativamente do Programa de Doze Passos possuem a consciência de estar aderindo a um novo modo de sentir, pensar e agir capaz de transformar positivamente seu viver visando a superação de problemas de dependência e emocionais. Em contrapartida, existe a percepçāo de já existir dentro de cada um uma “velha” programação a ser descartada; gerada ao longo da vida pela vivência de traumas, estresses, famílias disfuncionais e outros fatores. Realizar a transcendência de uma programação pela outra constitui um desafio e tanto. Abaixo, algumas das armadilhas – as indesejadas recaídas – que costumam surgir durante cada passo dessa – às vezes longa – jornada chamada recuperação.

Auto sabotagem

A auto sabotagem são os ‘presentes de grego’ de nosso inconsciente em que os azares/circunstâncias/pessoas /sociedade nos deprimirão ao ponto de somente obtermos alívio de uma fonte específica: o vício/compulsão adotado.Não é o acaso que nos conduz à recaída emocional/adicção mas a busca de uma justificativa ‘honesta’ à prática da adicção que nos desgoverna em incidentes conscientemente indesejáveis, porém, inconscientemente planejados por nossas almas.Jamais praticamos nossas adicções por uma razão inesperada mas certo é que semeamos razões suficientes para que a colheita da adicção/compulsão ocorra com alguma regularidade capaz em atender a nossos anseios inconscientes.

Padrões

Exemplo simplificado: qualquer pessoa pode encontrar em textos jornalísticos coisas do tipo: ”Chegue cedo a seus compromissos e assim evitará censuras sociais e perda de confiança.” A pessoa lê. Entende. Quer isso para si. Até pode exigir tal comportamento dos outros.Passam-se anos, décadas, uma vida talvez. E a pessoa é a ‘atrasilda’. Sofre censuras e ninguém confia nela.Melhor seria reposicionar causa e consequência: a pessoa, seja por trauma de infância/família disfuncional/etc não consegue inconscientemente permitir que os outros depositem nela confiança (o que quase sempre acarreta responsabilidades maiores) ou se ver como merecedora de elogios.Conscientemente todos queremos isso: confiança e elogios. Mas somos governados, segundo o próprio pai da psicanálise, por nossos ‘90%’ inconsciente que nos auto sabotarão – no caso desse pequeno exemplo – com atrasos e mais atrasos aos quais culparemos o trânsito, o azar, etc e etc nos fornecendo através dos ”julgamentos e injustiças alheias” todo o afastamento de compromissos sérios e expectativas a nosso respeito aos quais temos pavor e nem sequer podemos nos dar conta.

Histórias Pais e Filhos

Se um pai ou mãe adota um comportamento indevido não é difícil que seus filhos conscientemente o identifiquem. Porém, inconscientemente registra-se o indesejado aprendizado como uma forma automática de agir. Filhos adotam involuntariamente formas alteradas dos comportamentos familiares similares. O que aos seus próprios olhos parece ser opção e identidade própria, outras pessoas rapidamente são capazes de afirmar que ”quem sai aos seus não degenera”. Lembrando a velha canção, ”você diz que seus pais não entendem mas você não entende seus pais”. E nem mesmo a si, em nível profundo.

Dores de Processo

Cada um nasce com algumas bagagens, como a genética, emocional e ambiental. Cada pessoa teria ‘uma dose de dor’ a ser vencida ao longo de sua existência, tão necessária, pessoal e insubstituível como respirar. Saída generalizada? Vícios prazerosos ou de fuga. Porém, o que são as adicções em prazer na vida de uma pessoa sofrida senão um catalisador de piora? Por exemplo, a mesma dose de droga que uma pessoa usa recreativamente conduzirá outro à desgraça e assim sucessivamente em relação a fumar, brigar, se exibir, comer, controlar, adoecer, se alcolizar, amar, se drogar, transar, se entreter, mentir, trabalhar, se exercitar, sofrer, jogar, ajudar, se isolar, comprar e seus inúmeros eteceteras e variações. A ‘adicção de escolha prazerosa ou de fuga’ normalmente não destrói e nem é capaz de matar quem não a utiliza como ‘amortecedor de dores de processo individual’ mas para aqueles que inconscientemente a elegem dessa maneira podem estar fatalmente vulneráveis às mesmas. Poucos nascem, vivem e morrem em satisfação nata. É fácil associar tal pensamento ao ‘Karma’ budista em que tudo o que se faz cria uma consequência negativa em um ciclo contínuo de sofrimento próprio e que impacta as pessoas ao redor. ‘Samsara’. Se dores de processo são quase impossíveis de se curar puramente, gratidão aos vícios que nos levem ao paraíso da paz, superando as dores próprias intransponíveis através dos conflitos adicionais capazes de orientar e purificar. Isso, apenas caso aceitemos que a prática insistente da compulsão prazerosa é igualmente a rota e rotina de nossos infernos e de nossos amados que nos cercam. Em que parte da viagem na estrada de nosso viver o contato com a dor original conduz à pista da dependência de adicção (em que a degradação lenta do ‘veículo’ se acelera continuamente arriscando a vida do condutor, eventuais ‘passageiros’ e dos outros viajantes ao redor) se dirigindo à bifurcação que oferta duas pistas como opções sendo um lado a que manterá a vivência sofrida nas escolhas dependentes ou o outro lado que conduzirá à mudança total? Um propósito de vida seria a placa rodoviária com uma seta apontando para a pista rumo à alegria pessoal? Talvez.Nascemos com dores, elegemos vícios diversos ( ”que não viciam nada” em nossas negações), sejam legais ou ilegais, e assim recebemos a grande chance da vida de nos elevarmos pelo descarte da dor e pelo descarte simultâneo da dependência de tal prática ou prazer. Ou o viver perecerá gradualmente de modo diário, talvez abrupto. Porém, nossos nascimentos e vivências guardam dentro de nossas almas mapinhas semelhantes aos quadradinhos de um jogo de batalha naval. Quem nasça, hipoteticamente, com fragilidades em 3F Drogas + 9B Álcool+ 7D Jogo talvez veja sua vida sair razoavelmente ilesa de opções como Afetos co-dependentes + Brigas + Comilança. Porém, provavelmente sem chances de evolução devido a falta de desafios interiores. Outro, com apenas uma fragilidade em 5C Competir poderá encontrar a ruína na prática obsessiva de algum esporte que cause lesões físicas constantes, absorva seu tempo atenção recursos e exponha seus limites à alguma situação letal. Aí, observamos a segunda ‘pista’ condutora à chance de transformação. É quando encaramos nosso passado e a nós mesmos após certo tempo que temos alguma chance de identificar onde pisamos em falso e de onde saímos ilesos em situações em que outros se perderam.

Auto sabotagem, padrões, história de pais e filhos, dores de processo são os enredos sinceros de um diário do tipo ‘Mentiras que invento para mim’.

OBS Autoria leiga em ‘psis’, mas a cada passo mais experiente em um rumo melhor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s