A espiral da recuperação – Parte 2

“Há anos observo as pessoas usarem várias ilustrações para representar a recuperação ou o processo de crescimento … Já vi a recuperação ser retratada como um zigue-zague para cima e para baixo, formando picos cada vez maiores … como uma espiral de fora para dentro em círculos menores até formar um centro de estabilidade … como uma linha se movendo para cima e para baixo, formando círculos repetitivos e ascendentes… O que ainda não vi … é uma figura formada por uma linha reta e ascendente. Porque a recuperação não é assim.” Melody Beattie, Para além da codependência, página 58

No post anterior, A espiral da recuperação – Parte 1, foi explorada ideia de um progresso da serenidade espiritual em espiral. Agora, aquela mesma espiral do processo de desenvolvimento será agora analisada pela perspectiva que lhe confere suas curvas, desvios e inclinações: as recaídas.

Recaída em começo de recuperação: indesejável, imprevisível e certeira
As primeiras vezes que se ouve falar em recaídas em reuniões de grupos de doze passos percebe-se algo de misterioso no ar: alguém pode não estar presente à reunião por que recaiu. Alguém está mais tenso ou deprimido por que reconheceu ter recaído. Há uma certa tensão quase constante entre as pessoas em recair. E o que se trata de “recair”, afinal nos perguntamos em nossas mentes. Recair é um jargão das salas de irmandades anônimas para a reincidência em alguma prática que supostamente estaria sendo superada pela terapia de mútua ajuda.

  • Se um adicto começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua compulsão por certa substância (seja álcool, narcótico, remédio, cigarro, etc) e em certo momento a usa novamente; diz-se que “recaiu”.
  • Se um adicto comportamental começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua compulsão por certas atitudes (seja comportamento sexual compulsivo, jogar, compras, comer em excesso, etc) e em certo momento pratica ou retoma a ativa; diz-se que “recaiu”.
  • Se um dependente emocional começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua interação dependente e compulsiva com determinadas pessoas (seja parceria sexo-afetiva real ou platônica, pais, filhos, outras pessoas) e em certo momento age inadequadamente novamente; talvez na forma de perseguição (física, telefônica ou eletrônica) ou agressividade (violência, assédio, ameaça) ou tentativas desesperadas de salvamento (dar dinheiro, ceder moradia inadequadamente, outros), diz-se que “recaiu”.
  • Se um codependente começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua interação compulsiva com determinadas pessoas cujas atividades lhe são alvo de controle (seja parceria sexo-afetiva real ou platônica, pais, filhos, outras pessoas) e em certo momento age inadequadamente novamente; talvez na forma de perseguição (física, telefônica ou eletrônica) ou agressividade (violência, assédio, ameaça) ou tentativas desesperadas de salvamento (dar dinheiro, ceder moradia inadequadamente, outros), diz-se que “recaiu”.


Recaídas durante a recuperação: porquê?
Ao começar a frequentar um programa de Doze Passos, o indivíduo é surpreendido com muitas novidades em sua vida: o novo compromisso pessoal de ir até ao grupo escolhido em certo dia e horário, a gradual formação de um grupo de conhecidos sobre os quais vai conhecendo aos poucos, as informações novas, a vontade inicial de “mudar”, enfim; o horizonte daquele que adere ao Programa de Anônimos se enche de novidades muito rapidamente. É razoavelmente fácil de sentir melhor em um primeiro momento.

É aí onde reside a confusão. Se sentir melhor não é sinônimo de serenidade assim como estar abstêmio não é sinônimo de sobriedade. Toda essa nova vontade em mudar algum aspecto de si e todas essas novidades da Programação estão chegando e se instalando na vida de alguém que necessariamente ainda estará de algum modo vivendo como estabelecido pela “programação” de seu antigo modo de viver que potencialmente o conduziu à adicção ou dependências:

  • uma história de vida pregressa que ainda está se desenvolvendo da forma como foi estabelecida por diversos fatores não necessariamente benéficos ao sujeito;
  • com uma família ou um relacionamento sexo-afetivo disfuncional que ainda exercerá influência sobre o mesmo;
  • adquirindo produtos de mídia e culturais que o entretém enquanto lhe comunicam as mesmas velhas mensagens comerciais distorcidas de um real modo positivo de viver;
  • se a pessoa não construiu um estrutura material ao longo de sua vida (formação, carreira profissional, moradia, amparo social e financeiro, círculo social e networking, prática de hobbies e lazer, definição ou realização de sonhos, etc) ela pode ainda está à mercê de viver de maneiro errática e desestruturada;
  • Muitos outros fatores, tão relevantes quanto os citados e com relevância suficiente para até agir como “gatilhos” de compulsão.

 

Recaídas em recuperação: existe um Programa para isso!
O Programa de recuperação baseado nos Doze Passos de Alcoólicos Anônimos não é um remédio que compra, não é um evento que se vai em um final de semana e não se concretiza segundo “a vontade do freguês”. Uma boa analogia ao Programa de AA seria compreendê-lo como um aplicativo de computador ou celular. Sabe-se que a adoção estruturada de uma série de instruções descritas segundo um código de programação computacional é capaz de realizar um determinado resultado, como uma aplicativo de celular ou computador. Adotar a programação de anônimos na vida, ao final, é reprogramar a vida estruturalmente para obter como resultado específico serenidade espiritual, física e mental. Costumo estender essa definição também aos campos social, ambiental, financeiro e familiar; pois são aspectos inteiramente interdependentes se repararmos bem.

Enquanto um programador de computador elabora seus conhecimentos para gerar os algorítimos de um código de programação visando obter como resultado as tarefas de um aplicativo; aos poucos ele encontrará situações em que seu conhecimento não será suficiente e precisará aprender algo novo, aos poucos surgirão os bugs (ou falhas de programação) que também irão testar suas habilidades de trabalho individual e em equipe e o aplicativo finalizado realizará funções conforme viabilizado pelos conhecimentos – ou falta de – da parte de seus criadores.

Analogamente, o participante de grupo de mútua ajuda está obtendo novos conhecimentos nas irmandades, para gerar habilidades pessoais objetivando uma nova “programação de vida” visando obter como resultado uma vida serena distante de comportamentos de adicção e dependências. Enquanto isso acontece, aos poucos ele encontrará situações em que seu conhecimento não será suficiente e precisará aprender algo novo afim de se afastar de situações e pessoas ligadas à dependência/adicção, aos poucos ocorrerão recaídas (ou falhas em sua “programação”, literalmente!) que também irão testar suas habilidades de recuperação individual e ao lado de seus companheiros, coordenadores e padrinho/madrinha de grupo de anônimos e sua vida após certo tempo de frequência ao programa será tão diferente do modo de vida anterior conforme viabilizado pelos conhecimentos e adesão às ferramentas de recuperação – ou falta de – de seu integrante.

O importante de tudo isso é a percepção de que ninguém que frequente uma sala de terapia de grupo estará imune a recaídas, mas que elas também não irão ocorrer para todo o sempre. Confie em si e no Programa e os (bons) resultados virão a seu tempo.

“As recaídas acontecem com muitos de nós. Acontecem com pessoas que estão se recuperando há dez meses ou há dez anos. Acontecem não porque somos deficientes ou relaxados, e sim porque são uma parte normal do processo de recuperação.” Melody Beattie, Para além da codependência, página 60.

Uma consideração sobre “A espiral da recuperação – Parte 2”

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