A espiral da recuperação – Parte 1

NA OPINIÃO DO BILL 1, Mudança de personalidade, “Com freqüência se tem dito a respeito de A.A., que somente estamos interessados no alcoolismo*. Isso não é verdade. Temos que vencer a bebida para continuarmos vivos. Mas quem quer que conheça a personalidade do alcoólico, através do contato mais direto, sabe que nenhum alcoólico verdadeiro pára completamente de beber sem sofrer uma profunda mudança de personalidade”.
*Ou outras adicções e dependências

A recuperação de uma adicção ou processo de dependência, seja ela qual for, é um processo, pois ocorrerá progressivamente, incluindo conquistas e recaídas, aos poucos enquanto o indivíduo aceita ser mudado, se torna capaz de mudar e se finalmente se torna agente de mudança – voluntariamente ou não – dos demais ao seu redor. Porque quando alguém muda, as outras circunstâncias e pessoas próximas a ele também mudarão em algum nível, é certo.

O Programa de Doze Passos inclui para esta finalidade um grande conjunto conceitual e material de uso em suas reuniões e fora delas: os doze passos, conceitos e tradições; lemas e ferramentas de recuperação, adoção de padrinho ou madrinha de recuperação, reuniões constantes e eventos esporádicos, literatura endossada e materiais de uso em sala, prestação de serviço dentro de sala e fora dela, participação em encontros de comitês de organização interna dos grupos e muito mais. Não será algo que praticaremos ou obteremos integralmente em um único dia e nem mesmo, provavelmente, adotaremos tudo; mas quanto o mais permitirmos adotar em nossa recuperação mais nos beneficiaremos. Sendo flexíveis, sem nos sobrecarregar, atingiremos aspectos mais saudáveis e serenos em nossas vidas. Os grupos baseados no anonimato de seus membros costumam ter ou realizar:

  • Os doze passos: A relação de passos de alcoólicos anônimos – célula mãe dos grupos de mútua ajuda – ilustra as etapas a ser realizadas pelos ingressantes no Programa de recuperação baseado no modelo de AA.
  • Os doze conceitos: São doze regras simples que visam manter a prestação de serviços de cada grupo organizada e harmoniosa.
  • As doze tradições: São doze regras de conduta interpessoal e organização interna de grupos anônimos que visam manter o funcionamentos das salas com harmonia, alternância de participantes em sua organização e não-acumulação de poder sobre determinados indivíduos.
  • As doze promessas: São um conjunto de doze afirmações positivas relacionadas à meta de recuperação de determinado grupo anônimo.
  • As doze diretrizes: São orientação ao modo como o grupo se reportará à situações de exposição na mídia, evitando controvérsias e garantindo o anonimato dos envolvidos.
  • Partilha: O ato de falar durante a reunião em uma sala de mútua ajuda. Normalmente começa com “Sou fulano, um participante em busca de recuperação…” e todos respondem juntos “Oi, Fulano!!!”. Ao final, quem partilhou costuma agradecer dizendo “Obrigada por me ouvirem”.
  • Lemas: São pequenas frases, fáceis de memorizar, que os praticantes de irmandades anônimas costumas adotar pessoalmente em seu processo de recuperação ou como metas do grupo durante certo período.
  • Ferramentas de recuperação: Telefones de outros membros do grupo (atualmente incrementados com listas de Whatsapp e grupos de redes sociais) a quem se possa entrar livremente em contato em momentos de crise para buscar orientação e companhia. Adoção de padrinho ou madrinha de recuperação e manter contato com ele ou ela. 
  • Reuniões constantes: Há uma dia e um horário propício em algum Grupo esperando por você. A ida a um Grupo de maneira nenhuma o vincula a ele. É possível ir participando de reunião em reunião até adotar o Grupo com mais afinidade temática e de companheiros. Também é comum a adesão simultânea a mais de um tipo de sala. Por exemplo, frequentar AA e NA, frequentar Nar-Anon e Coda e CCA, etc.
  • Anonimato dos participantes: “Quem você viu aqui, o que você ouviu aqui, ao sair daqui, deixe que fique aqui”
  • Orações: da Serenidade, da Irmandade e do Grupo.
  • Fitas, fichas ou cartões de tempo de adesão ao programa: São pequenas lembranças de vitórias pessoais e de persistência.
  • Eventos esporádicos: Palestras com participantes mais experientes, palestras com profissionais de terapia, finais de semana de eventos de recuperação em hotéis…
  • Literatura endossada: Os livros e apostilas que seu grupo elegeu como representantes de sua proposta de recuperação. Alguns podem ser adquiridos em livrarias comuns e outros são comprados diretamente nas salas durante as reuniões.
  • Materiais de uso em sala: Cartões para leitura durante a reunião, banners e quadros nas paredes, lenços para quem se emociona durante sua partilha, apostila que orienta a coordenação da sala, lanche para a hora do café e outros materiais para organização e realização do encontro.
  • Prestação de serviço dentro de sala: Ajudar a arrumar a sala antes e depois do encontro, fazer e ajudar a servir o café, verificar pendências, avisar temas importantes aos demais participantes para manter a sala em condições de realizar suas reuniões com eficiência entre os presentes. Prestar serviço eventualmente ou ser coordenador, tesoureiro ou representante do grupo junto ao evento de intergrupo.
  • Prestação de serviço dentro de sala fora dela: Visitar como voluntário empresas, eventos, escolas, presídios, hospitais e outros espaços apresentando a proposta de recuperação de sua sala. Faz parte de “levar a mensagem”.
  • Participação em encontros de comitês de organização interna dos grupos: Participar ativamente da gestão do Grupo de sua cidade colaborando para a existência e continuidade do mesmo. Normalmente acontece na forma de uma reunião de intergrupo com cada sala da cidade enviando um representante que relate a situação de sua sala e juntos adquiram materiais de apoio e informações relevantes a serem repassadas no retorno às suas reuniões. Conhecer as Doze Tradições ajuda bastante.


O começo da espiral da recuperação

Eleger um grupo de apoio e começar a frequentá-lo regularmente, conhecer suas propostas e participantes, conhecer os recursos do programa de Doze Passos, tudo isso, enquanto se está vivendo um quadro ainda de mal-estar devido a uma adicção ou dependência não é fácil e requer um esforço para a manutenção das novas práticas e obtenção dos primeiros sinais de alívio e bem-estar. O Programa de recuperação baseado em AA é acessível, mas requer empenho de seus integrantes. Dia após dias, passo a passo, a vida vai mudando em um processo de desenvolvimento que propõe a geração de novas bases para um novo modo de viver.

Melhorar como um processo de curar
A “cura”, seja para qual problema de adicção ou dependência for, não vem quando pedimos, mas chega durante o tempo a que entregamos o nosso processo de curar. Talvez trocar “cura”  por “melhoria” seja uma melhor visão para o processo. Melhoramos dia após dia, melhoramos compreendendo nossas histórias pessoais, melhoramos junto a outros que também estão melhorando de problemas semelhantes, melhoramos porque passamos a nos autoconhecer.

Falhamos e recaímos bem no meio disso tudo?

A espiral da recuperação – Parte 2

Mas observe a vitória do quanto já melhoramos. A ideia de uma recuperação em espirais ou zigue-zagues ascendentes ou da forma como melhor compreender pessoalmente, de algum modo, estará relacionado à noção de que os progressos estão sujeitos a altos e baixos e que o controle individual não será tão efetivo quanto ao controle pessoal orientado pelos companheiros de programação. Minha visão sobre minha própria recuperação se tornou mais positiva quando elaborei minha própria meta de recuperação e passei a enxergá-la como um gráfico de rendimentos do Bovespa: não importaria observar diversos picos descendentes, eles não significariam prejuízos para mim, eu não iria ficar me recriminando, desde que a grande ascendente sobre a qual se apoiassem continuasse subindo de maneira exponencial em realizações e transformações individuais. Interpretação pessoal, bem pessoal, elabore uma para si também.

E a cada problema superado, não duvide, a vida trará novos. Porém, com uma diferença: os desafios crescerão, pois estaremos vivendo níveis mais conscientes de sentimentos, pensamentos e comportamentos. Não retornaremos a comportamentos antigos para lidar com novas situações cobradas pela sobriedade, mas será que já desenvolvemos a habilidade de tais novas atitudes? Manter uma visão de recuperação como um processo em espiral também incluirá essa mudança progressiva dos desafios que chegarão e dos recursos que abandonaremos ou passaremos a adotar para lidar com os mesmos. São muitos passos nessa nova jornada de (re)construção pessoal. Vale a pena continuar voltando ao Programa!


“NA OPINIÃO DO BILL 331, A grande realidade, “Para o recém-chegado: Entregue-se a Deus, como você O concebe. Admita suas faltas a Ele e a seus semelhantes. Desfaça-se das ruínas de seu passado. Dê livremente aquilo que você receber e junte-se a nós. Estaremos com você na irmandade do espírito e, você certamente se encontrará com alguns de nós, quando trilhar o caminho do destino feliz. Que Deus o abençoe e o proteja! – até lá.”

 

2 comentários em “A espiral da recuperação – Parte 1”

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