4º Passo

“4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.”

Ao longo da vida, de certas maneiras, somos sistematicamente “treinados” a observar os defeitos dos outros, culpar os outros por aquilo que não funcionou ou deu errado em nossas vidas, a discutir relacionamentos para que a outra pessoa entenda o nosso ponto de vista e por aí vai…

Nesse processo doentio (pois tudo o que costuma trazer são conflitos interpessoais e consequências emocionais) nossa atenção se torna praticamente adestrada a focalizar o outro, os outros, o mundo. Viramos especialistas em gerar “inventário morais” daqueles que conhecemos e até mesmo de quem não conhecemos, de pensamento em pensamento, de conversa em conversa. No entanto, nada surpreendentemente, a vida que perdeu domínio e sanidade não foi a dos outros, mas a nossa.

O quarto passo é um grande ponto de inflexão. Paramos de acusar aos outros e verificamos porque aceitamos determinadas condições. Paramos de culpar as pessoas e refletimos nossos próprios defeitos. Observamos nossas qualidades e nos perguntamos se as mesmas estavam encontrando real espaço de manifestação em nossas atitudes cotidianas. Entre outros questionamentos.

Voltamos no tempo e recuperamos mentalmente nossas lembranças de infância, as etapas de crescimento, os sucessos, os fracassos, as situações de amadurecimento (ou não), a adolescência, os episódios marcantes, as amizades e relacionamentos familiares, a forma como fomos tratados por nossos pais ou responsáveis, crenças sociais e familiares marcantes, nossas qualidades e pontos fortes, a circunstâncias, as paixões, os acidentes, o início da vida adulta, as conquistas, as perdas, as primeiras manifestações da dependência, consequências, padrões em relacionamentos afetivos, enfim, repassamos nossa vida a limpo. Nos perguntamos como nós mesmos contribuímos para o quadro atual de nossas vidas e substituímos o lastimável “por quê isso aconteceu comigo” por um assertivo “para quê isso aconteceu comigo”.

Se todo esse trabalho ficasse restrito à especulação da memória, nos perderíamos. Por isso escrevemos, colocamos no papel. No papel, de maneira fixada, aparecem os conflitos de declarações. O papel guarda o relato sem “esquecimentos” futuros. No papel, nos organizamos. No papel, nos revelamos e descobrimos como os outros, na verdade, tiveram menos impacto sobre os resultados de nossas vidas do que poderíamos supor.

Escrevemos, apagamos, reescrevemos, rasgamos a folha, escrevemos novamente, rasgamos outras folhas e retornamos a escrever. A escrita de um Quarto Passo não é uma redação escolar; mas um processo de autoconhecimento. Justamente, enquanto processo, pode levar horas ou ser feito ao longo de vários dias. Não há problema algum, descubra seu próprio jeito. Pode-se esboçar um desenho ou mesmo organizar as etapas da vida em forma de tabela ou gráfico se for mais fácil. Mas será preciso escrever também. O que importa será fazê-lo e fazê-lo bem-feito, fazê-lo com toda a humildade e consciência possível. Esta etapa tem por consequência rasgar camadas e mais camadas de negação e minimização acumuladas sobre nossas responsabilidades pessoais.

O Quarto Passo, sem dúvida, é algo doloroso e vexatório de se fazer. Faça sozinh@ e se permita chorar se acontecer. Mas encará-lo, entre todos os passos, será certamente o mais importante passo após a admissão do Primeiro Passo. Este será o início de um relacionamento mais honesto conosco. Descobriremos nossa capacidade ou incapacidade em receber e proporcionar afeto e amor genuíno assim como nossos medos de sucessos e de fracasso; sucessivamente. Descobriremos quase sempre que estamos longe de sermos terríveis ou maravilhosos. Somos apenas seres-humanos, pessoas, indivíduos.

No Quarto Passo, deslocamos o foco de nosso olhar para nós mesmos e não o tiramos de lá até nos conhecermos realmente. E abrimos o espaço emocional para libertar os outros para que sejam quem são independentemente de quem sejam. O respeito que passamos a ter por nossas dores podem começar a passar a ser compartilhados com os demais relacionamentos de nossas vidas. Buscamos a independência.

Neste Passo, colocamos a atual verdade de nossa história no papel para superar a negação e a vitimização passadas em prol de um futuro bom.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Caderno e caneta em um local tranquilo.

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