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Notas sobre a Aceitação

Este mês, junho de 2018, completo 4 anos em salas anônimas do programa de doze passos para reabilitação de uma depressão que sofri no ano de 2014. Logo que comecei a frequentar o programa algumas coisas que me iam sendo apresentadas me chocavam profundamente:

  • Porque EU estava ali? Eu sempre havia sido uma pessoa certinha e seguido as regras sociais. Tudo o que fiz e realizei na vida era muito similar ao que a maioria das outras pessoas ao meu redor também haviam feito e realizado. Por que afinal meus resultados eram tão diferentes e desastrosos? Porque semeei “igual” na vida e agora colhia tão diferente, meu Deus?
  • Pesquisei sobre uma determinada sala anônima e comecei a frequentá-la por livre e espontâneo desespero de não saber bem o que fazer mas reconhecer que precisava de alguma ajuda.
  • Me lembro do choque inicial de começar a ouvir tantas expressões e jargões aos quais nunca havia ouvido falar. “Onde essa gente se esconde quando não está aqui”, eu pensava. Durante a vida eu havia lido tantos livros e revistas, assistido tanta tv e filmes, como eu podia não conhecer nada daquilo?
  • Mas nada me fazia ferver mais de ódio e indignação do que cada companheir@ que se aproximava amorosamente de mim e tentava me falar algo sobre “aceitação”. “Quem quer saber desse lixo de aceitação” eu pensava. Era algo impossível, muito além de minha compreensão. “Se fosse pra ter aceitação eu nem teria saído de casa”.
  • Mas como continuava sem saber que fazer e querendo melhorar, continuei voltando.

Site de NA: “A nossa experiência com a adicção é que, quando aceitamos que ela é uma doença sobre a qual somos impotentes, tal aceitação fornece uma base para a recuperação através dos Doze Passos. A quantidade de membros de NA vivendo livres da adicção activa mostra que esta filosofia tem funcionado para nós”. [http://www.na-pt.org/recurso/adicao1.php]

Bill (William Griffith Wilson): “A aceitação e a fé são capazes de produzir cem por cento de sobriedade. De fato, elas geralmente conseguem; e assim deve ser, caso contrário, não poderíamos viver. Mas a partir do momento em que transferimos essas atitudes para nossos problemas emocionais, descobrimos que só é possível obter resultados relativos. Ninguém pode por exemplo, se livrar completamente do medo, da raiva e do orgulho. Conseqüentemente, nesta vida não atingiremos uma total humildade nem amor. Assim, vamos ter que nos conformar, com referência à maioria de nossos problemas, pois um progresso muito gradual, às vezes é interrompido por grandes retrocessos. Nossa antiga atitude de “tudo ou nada” terá que ser abandonada”. [NA OPINIÃO DO BILL 6, Tudo ou nada? Grapevine de março de 1962]

Melody Beattie: “O que precisamos para nos entregar e para deixar correr? De nosso passado, presente e futuro. De nossa raiva, ressentimentos, medos, esperanças e sonhos. De nossos fracassos, sucessos, ódio, amor e desejos. Deixamos livres nossas urgências, nossos desejos, tristezas e alegrias. Deixamos livres nossas antigas mensagens, nossas novas mensagens, nossos defeitos de caráter e nossas qualidades. Deixamos livres as pessoas, as coisas e, às vezes, à nós mesmos. Precisamos deixar livres as mudanças, mudando; a natureza cíclica do amor, recuperando-se; e a própria vida”. [Livro Para além da codependência, página 130]

Site de JA: “Hoje, tentarei aceitar menos do que achava ser possível, ficando disposto não somente a aceitar, mas também a apreciar. Hoje, não vou esperar demasiado de alguém – muito menos de mim. Vou tentar lembrar que a satisfação vem de aceitar graciosamente as coisas boas que recebemos, e não ficar furioso com a vida porque ela não é melhor. Já entendi a diferença entre resignação e aceitação realista”? [https://sites.google.com/site/jaumdiadecadavez/julho]

Robin Norwood: “É a aceitação do outro exatamente como realmente ele é que permite a ele mudar se assim desejar”. [Livro Meditações diárias…, 17 de outubro]

Site de AA: “A aceitação libera a iniciativa, aliviando-a das “cargas impossíveis”, transferindo o foco da ação para o “possível”. A ACEITAÇÃO é um ato do LIVRE ARBÍTRIO, mas, para ser eficaz, requer a CORAGEM moral de se persistir apesar do problema imutável. A aceitação liberta o aceitante, rompendo-lhe as cadeias da autopiedade. Uma vez que aceitamos o que não pode ser modificado, ficamos livres emocionalmente e psicologicamente para nos empenhar em novas atividades. Foi dito que uma mente imatura procura um mundo idealístico. Queiramos ou não, precisamos encarar o mundo da realidade e aceitar a vida tal qual ela é, com todas as suas crueldades e inconsistências”. [http://www.aa.org.br/serenidade]

Site de CCA: “O que você VAI encontrar nas reuniões é o seguinte: Aceitação de você como você é agora, como você era, como você vai estar”. [http://www.comedorescompulsivosrs.com.br/como-e-uma-reuniao]

Patrick Carnes: “Quando chega a aceitação final e o dependente sente que é vulnerável, humano, comum, igual aos outros, pode iniciar-se uma mudança notável. Como parte da aceitação, os dependentes precisam admitir claramente a extensão do comportamento compulsivo. A consciência da dependência irá se expandindo e aprofundando por muitos anos, mas nesse primeiro estágio é importante que eles percebam as linhas gerais do comportamento e saibam que a compulsão não atua apenas nisso. Precisam entender que ela envolve crenças, atitudes e pensamentos distorcidos que preservam a negação e a ilusão. Com essa aceitação crescente, os dependentes entram na fase de reparação”. [Livro Isto não é amor, página 198]

Entrei em uma sala de doze passos, aos 33 anos de idade, muito mal e com muita vergonha. Celebro agora meus 37 anos de vida tendo com resultado dos 4 anos de recuperação: a conclusão de duas graduações e ainda fiz outros cursos relevantes, incluindo um mestrado. Expandi minha atuação no meu emprego (eu quase o havia perdido). Adotei o budismo, vegetarianismo e ateísmo, algo realmente radical para quem eu costumava ser. Escrevi uns oito e-books além de poemas, músicas, ter 4 artigos acadêmicos publicados e blogs. Esse próprio blog, em seis meses, já ultrapassou 20 mil visualizações vindas de países de todo o mundo. Se comparo os 4 anos de recuperação atuais com meus 33 anos de vida anterior, parece que havia só um nada absoluto por mais de três décadas. Hoje frequento menos as irmandades anônimas mas permaneço na terapia individual regular. Mas foi somente há pouco mais seis meses que tive um sentimento e aceitei tudo o que havia vivido COM ALEGRIA. Em meus passos, já não acredito que a aceitação conduza até a serenidade mas que aceitação é a própria serenidade. Se a “aceitação” parece impossível para você, do fundo do coração, só posso lhe dizer que ainda assim ela é possível de ser alcançada.

Sexto Passo – Junho

Sexto Passo do programa de recuperação de AA –  “6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter”.

O Sexto Passo se assemelha ao Segundo Passo por ambos serem decisões de fé. Se no 2º Passo entregamos nossas decisões a um Poder Superior a nós mesmos, no 6º Passo reconhecemos nossas limitações em agir sobre nosso próprio comportamento e pedimos a um Poder Superior que aja sobre nós:

  • Pois aprendemos pela observação de nossa situação atual o quanto nossas ações ”conscientes” do passado e presente nos conduziram aos problemas com os quais temos agora que lidar.
  • Pois muitos daqueles que nos aconselharam (família, amigos, conceitos culturais, ditados populares, livros…) não nos conduziram ao sucesso esperado.
  • Pois defeitos de caráter normalmente são muito óbvios quando observados nas outras pessoas – e mais obviamente ainda se não possuímos nenhum tipo de laço com elas – mas totalmente invisíveis em nós mesmos. Lembra-se do Quarto Passo?

No Primeiro Passo admitimos precisar de ajuda para tornar nossas vidas controláveis. No Segundo Passo assumimos em nome de nossa recuperação espiritual  a crença em um PS. No Terceiro Passo declaramos nossa intenção ativa em entregar nossas vidas e vontades a esse PS. No Sexto Passo, assim como no 2º, enfatizamos que as origens de tal necessidade precisam ser renovadas em uma fonte além de nossa compreensão atual ou convencional para que consigamos finalmente obter resultados diferentes (e positivos) de nossas ações em nossa rotina. Precisamos (re)aprender a viver com a ajuda de um PS seja ele qual for.

Essa nova abordagem de buscar orientações ao nosso sentido de viver baseado em serenidade requer muito de nossa aceitação do porquê o Programa de Anônimos ser organizado em diversos passos. Aceitação porque certamente ao longo da vida desejamos muito para nós que nos foi tirado ou nem sequer realizado. Provavelmente estamos sentindo vergonha e com uma grande pressa em reverter nossa realidade atual. Mas assim como o evidenciado pelo 4º Passo de que grandes questões em nossa vida dependeram talvez de décadas de nossas ações ou opções igualmente nossa franca recuperação também dependerá de nossa perseverança em gerar novas ações positivas que se desdobrem no tempo. Algumas pessoas espiritualizadas chamam isso de encerrar o samsara (ciclo de sofrimento) pela interrupção do karma (ações negativas). Faz sentido a analogia.

Tal empreitada irá exigir de nós tempo e perseverança em busca dessa nova vida que ainda não conhecemos mas sabemos que podemos alcançar se nos dedicarmos a isso: o Programa de Anônimos nos prometeu. Os companheiros de recuperação nos contam suas experiências, desafios e sucessos nas partilhas dentro das salas de irmandades a cada reunião frequentada. As literaturas endossadas nos esclarecem. Nós mesmos já passamos por muitos Passos até chegarmos aqui; e temos decidido prosseguir porque tem valido a pena.

Mostramos que estamos juntos com um Poder Superior e esse Poder Superior mostra que está conosco!

Dependência Emocional & Prejuízos

REPORTAGEM DO JORNAL O GLOBO – POR PAULA FERREIRA – 15/05/2018

Dependência emocional pode prejudicar denúncias de abuso
Especialistas apontam gravidade de fatores como baixa autoestima

RIO — Foram 13 anos até que Michella Marys Pereira, ex-mulher do juiz Roberto Caldas, decidisse se separar e denunciar o marido pelas agressões que diz ter sofrido. O longo tempo de permanência em uma relação tóxica chamou a atenção de muita gente, mas, segundo especialistas, a dificuldade em romper a estrutura é mais frequente do que se imagina. Além do medo, outros fatores psicológicos podem estar em jogo, como dependência, baixa autoestima e sensação de desamparo.

Na semana passada, a revista “Veja” revelou que o juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos (agora afastado do cargo) foi alvo de denúncia de sua ex-mulher por tê-la espancado e assediado funcionárias que trabalhavam para o casal. Caldas nega as acusações. Em entrevista ao GLOBO publicada ontem, Michella detalhou os episódios de violência e disse ter sido estuprada pelo marido, em noites em que tomava remédios pesados para dormir. Como resposta, o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que defendia Caldas, negou os espancamentos e disse que “isso está longe de qualquer definição de estupro”.

Ontem, Kakay anunciou ter deixado a defesa do “amigo”, a quem teria ajudado em uma situação emergencial, em uma área que não atua, o direito de família.

A submissão de Michella a uma história como essa durante tantos anos, na opinião da psicanalista Sônia Bromberger, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio, tem raízes profundas:

— Há aspectos da personalidade como um ego que não é suficientemente consistente para se dar conta da situação e acaba se recusando a sair. É algo que não depende do nível de instrução, da classe social. Dentro do espectro da dependência, a pessoa se vê precária e desmunida de qualquer coisa. Ela tem uma fantasia de que será desapropriada de tudo, dos filhos, dos bens. É uma fantasia absoluta de submissão, como se fosse uma criança que não tem autonomia sobre nada.

GUARDA DOS FILHOS

O medo de perder os filhos foi um dos principais motivos apontados por Michella para evitar a separação. No entanto, a advogada e mediadora Samantha Pelajo, presidente da Comissão de Mediação de Conflitos da OAB-RJ, destaca que a situação conjugal e a relação com os filhos são campos analisados separadamente pela Justiça, seja considerando a ótica da agredida ou do agressor.

— O juiz vai se pautar em uma perícia técnica, que leva em conta um estudo social e psicológico. Normalmente se separa a conjugalidade da parentalidade. O fato de a relação conjugal não ter sido funcional, e em alguma medida ter sido tóxica, não quer dizer que a relação de parentalidade também vá ser ruim. Se o relacionamento entre marido e mulher foi ruim, mas entre pais e filhos é saudável, não vejo como o juiz misturar as coisas.

Fora os filhos, a dependência emocional e até mesmo financeira reforça a manutenção de um vínculo. Aline Silveira, uma das criadoras do aplicativo Mete a Colher — que tem o propósito de auxiliar mulheres que sofrem violência doméstica —, destaca que é muito frequente o contato de vítimas que têm consciência de que estão em um relacionamento abusivo, mas não conseguem sair dele.

— Há tanto casos de mulheres que terminam e voltam com o agressor, quanto aqueles dos quais elas não conseguem sair por conta de dependência financeira. Mas os mais comuns são casos nos quais há uma dependência emocional muito forte. E a nossa sociedade diz que é melhor estar mal acompanhada que só. As mulheres se sentem muito julgadas. Quando ela fica na relação, ela é culpada. Quando sai, também é culpada porque está abandonando a família.

https://oglobo.globo.com/sociedade/dependencia-emocional-pode-prejudicar-denuncias-de-abuso-22682990

QUINTO PASSO – MAIO

Quinto Passo do programa de recuperação de AA –  “5. Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas”.

Depois do quarto passo, em que fixamos num papel nossa história de vida que nos conduziu à nossa situação atual que necessitou o auxílio de um programa de recuperação (nesse caso, baseado em AA como célula-mãe) seguimos com nosso processo de reprogramação pessoal com foco na serenidade atuando com o Quinto Passo.

No 5º passo, já cientes de nosso próprio papel e responsabilidade sobre nossa biografia, nos direcionamos à tarefa de aprender a conviver com aquele passado de forma digna e harmoniosa. E como fazemos isso? Conversando sobre nossas descobertas registradas no Quarto Passo com uma outra pessoa.

Falar quase sempre é libertador. É comum falarmos com líderes espirituais sobre o que nos aflige. Falamos quando partilhamos nas reuniões de salas anônimas. Falamos quando desabafamos pelo telefone com um amigo de confiança ou familiar em um momento difícil. Falamos nas psicoterapias com profissionais de saúde especializados. Se falamos espontaneamente ou em consultas, não importa, conhecemos e sentimos uma certa melhora seja no curto ou longo prazo. Falar acalma.

Porém, conversar sobre assuntos pessoais delicados requer cautela para que recebamos a serenidade e cura interior almejada ao invés de criarmos ainda mais problemas a serem somados como vergonha, arrependimento ou exposição à chantagens. Por isso, os diversos tipos de Programas de Doze Passos ofertam algumas sugestões de modo geral:

  • Ler seu quarto passo para um padrinho ou madrinha de programação com quem já conviva e confie.
  • Ler com um@ companheir@ de programação em um quinto passo em dupla (prática também conhecida como co-apadrinhamento).
  • Ler para um psicoterapeuta.
  • Ler para um líder religioso de sua escolha que tradicionalmente já possua tal prática.
  • NUNCA LER para familiares e amigos de fora da programação anônima para evitar os chamados “retornos” (pitacos, palpites, opiniões, censuras) em uma hora tão vulnerável para quem lê o 4º passo que possa vir a se sentir constrangid@ e pense em desistir de prosseguir com a reabilitação (seja ela química, emocional ou comportamental).
  • NUNCA LER para cônjuges, namorad@s, casos ou amantes pois o amor pode um dia acabar, o amor pode ser unilateral, o amor pode talvez já ter até saído de cena sem que o confessor tenha notado em seu processo de confusão de vida momentâneo e deixar em mãos alheias uma artilharia emocional fatal a ser utilizada contra o confessor em futuros e inesperados escândalos familiares ou públicos além de poder ser levado à justiça contra pedidos de guarda de filhos, por exemplo. APRENDER A SE POUPAR FAZ PARTE DO PROCESSO DE RECUPERAÇÃO. Além do mais, confessar segredos íntimos para alguém na esperança de reforço ou criação de laços afetivos constitui comportamento manipulador o que está longe de ser uma atitude amorosa com @ outr@.

Bem, escrevemos o Quarto Passo. Escolhemos alguém de confiança que nos ouça abertamente. Elegemos um dia e hora para realizar nosso Quinto Passo de recuperação – seja ela qual for. Então que tipo de resultado talvez encontremos de nossa ação em relação ao Quinto Passo que talvez possa nos ajudar?

  • Ouvimos nós mesmos contando nossa própria história o que reafirma nossa responsabilização pelo surgimento dos problemas atuais e reforça a necessidade de que os atos de cura e reparação também partam de nós.
  • Encerra a estratégia comum de tentar sufocar o que nos aflige através da negação e do silêncio; o que alimenta as brasas de nossos problemas subconscientes que poderão emergir como ações de auto sabotagens às quais nos prejudicarão ainda mais. Encerra muito da ansiedade e comportamentos hipócritas que adotamos para agir em relação aos outros quando não estamos em paz com nós mesmos.
  • A velha estratégia do “guardar segredos para si”, em algum momento pode nos derrubar ao sermos emocionalmente fragilizados por alguma razão e desabafarmos inesperadamente com desconhecidos, com patrões ou colegas de trabalho ou pessoas que não partilham de um respeito sincero por nós e nos oferecem em momentos críticos um “ombro amigo” em troca da satisfação da própria curiosidade. Isso representa somar mais auto sabotagem contra nós mesmos agravando problemas pessoais com fofocas e críticas ao invés de saná-los. Quando esse tipo de coisa acontece é quase como se a pessoa “vomitasse” um quinto passo de um quarto passo não escrito nos ouvidos de qualquer oportunista. O resultado só pode ser um desastre! Melhor encarar a programação honesta e seriamente e aprender a gerir os próprios medos e realizar ações capazes de equilibrar os sentimentos de uma vez preservando sua imagem pessoal e melhorando a imagem social. Nossa autoestima depende de cuidados como esse também.
  • Se no Quarto Passo ficamos nus, no Quinto Passo nos olhamos de frente no espelho.
  • Em programação de doze passos nossos “espelhos” são os outros companheiros, daí a necessidade lógica da partilha com outra pessoa de confiança.

“O remédio sai pela boca e entra pelo ouvido” – frase popular em salas de doze passos.

Desejo, Vontade, Controle

Trecho do e-book de Roberto Goldkorn, “Como derreter a solidão em 7 passos, páginas 124 a 126.

“Desejo versus Vontade como funcionam essas forças? Existe um conhecimento secreto de alguns Yogas indianos que distinguem Desejo de Vontade como formas distintas de energia. Os sadhus (sábios místicos) indianos dizem que o Desejo se origina na região genital, sua cor é avermelhada, sua vibração é intensa, como as notas mais graves do piano ou da batida dos tambores, gera calor e seu único fim é buscar a saciedade- o alivio da tensão. Dai temos dois Desejos básicos: A fome e o sexo (orgasmo). Dentro desses dois originais vamos ter milhares de outros filhotes, que vão desde o desejo de tomar um refrigerante gelado num dia de calor, até fazer cessar uma dor ou um incômodo (tirar um sapato apertado, ou esfregar uma parte do corpo que está “coçando”, por exemplo). De qualquer ângulo que se veja o Desejo ele é criado e se realiza no âmbito CORPORAL, somático, orgânico. Não há dúvida de que o Desejo é uma força poderosa, que moveu a humanidade por milhões de anos até chegar a seu estágio atual. Os Desejos são os cavalos impetuosos que sustentaram homens e mulheres em sua longa caminhada, comer e fazer sexo são suas marcas registradas da nossa sobrevivência como espécie. E a Vontade? A Vontade é um produto da mente, se origina no cérebro, é fruto do pensamento, do raciocínio, de áreas mais nobres e mais jovens, do nosso cérebro. A Vontade cria o impulso para ações mais refinadas, para as invenções, para as sofisticações e inovações que fizeram da humanidade uma civilização.

Sua cor é azulada/dourada, e a vibração é mais sutil, como as cordas mais finas de um violino. Tanto Desejos quanto Vontades em geral possuem algum grau de energia Magnética. A diferença é que a energia Magnética gerada pelo desejo é muito intensa, mas se esvai assim que consegue sua saciedade. O Desejo por água pode nos manter caminhando mesmo quando nossas pernas não suportam mais, pode nos tornar ferozes e nos dar uma força que nem conhecíamos, mas quando saciado ele se esgota, simplesmente some, deixando um “saco vazio” no lugar. Já a Vontade é mais lenta em sua construção, menos intensa, dura mais tempo, gera um quantum bem menor, porém mais estruturado e duradouro de energia magnética. O que os Iogues nos ensinam para criar um super magnetismo? Fazer a transmutação dos Desejos em Vontades! Teoricamente o processo é simples: 1-Identificamos o Desejo que vamos chamar de força-desejo. 2-Depois decidimos (uma prerrogativa da mente) que não vamos satisfazer aquele desejo no momento que normalmente iríamos fazê-lo. Exemplo: Identifiquei que estou com desejo de fazer xixi. Ao invés de ir em direção ao banheiro mais próximo para satisfazer esse desejo, eu o bloqueio. Nesse instante começo a exercer um controle mental sobre as energias, digamos animais. 3-O terceiro passo dessa transmutação é determinar (atributo da mente) quando a satisfação desse desejo será realizada. O método que uso é o seguinte: Detecto a força-desejo. Bloqueio a sua satisfação imediata. Determino quando vou satisfazê-la. Digo em voz baixa: “Esse desejo de fazer xixi está contido pelo poder da minha vontade, e só vou satisfaze-lo dentro de tanto tempo.” O uso do relógio aqui é de grande ajuda.

O que vai acontecer é que aquela força desejo que se originou em geral no baixo ventre vai subir aos poucos pela coluna vertebral até chegar a cabeça onde foi exercido o controle. Isso obviamente cria uma “combustão” interna e gera um Magnetismo primário que já começa a atrair a atenção de outras pessoas. Ao não satisfazer a força desejo, não geramos o “alívio” e ela continua pulsando. Porém quando determinamos um ponto futuro para a sua satisfação ela vai “subindo” em direção a cabeça que passou a controlar o processo. Sua cor se modifica em direção ao espectro das cores frias, mas continuando a conter a energia quente do desejo original. O nome disso é CONTROLE. Controlar as forças desejos é o começo do processo de tornar-se mestre de suas emoções. Esta força sob controle se torna poderosa aliada na geração do Magnetismo. Isso não precisa ser feito sempre que qualquer desejo surge. Afinal não queremos uma neurose. Quando decidimos criar musculatura tonificada, vamos a uma academia, mas não ficamos puxando ferro toda hora durante todo o dia. Devemos começar com pequenos desejos, quer seja de satisfação sensorial ou de alívio de incômodos, como de comer doce, fazer xixi, beber refrigerante, olhar pelo buraco da fechadura etc. Investir contra os grandes desejos, aqueles que foram plantados por comportamentos compulsivos ou vícios, deve ser feito mais tarde porque sem experiência a derrota inicial é praticamente certa. Investir contra o desejo de fumar, de beber bebida alcóolica (quando isso se tornou vício), ou droga, ou retardamento do orgasmo, é só para gente grande. Treine pelo menos 1 ano com pequenos para depois desafiar os grandes. Esse exercício é a base para controlar e energia fugidia dos desejos e aumentar seu Magnetismo”.

Trecho do e-book de Roberto Goldkorn, “Como derreter a solidão em 7 passos, páginas 124 a 126.

Amor de somar, amor de dividir

Para Além da Codependência, Melody Beattie: “Se estamos infelizes sem um amor, provavelmente também estaremos infelizes se tivermos um. Um relacionamento não começa nossa vida; um relacionamento não se transforma em nossa vida. Um relacionamento é a continuação da vida”.

Amor de Dividir – do que estamos falando?
Amor de dividir é o amor romântico, inventado lá pelo século dezoito. Ainda nos obrigamos a iniciar relacionamentos com aquela mentalidade antiga, porém, vivendo com os dois pés no século vinte e um, não tem como funcionar generalizadamente bem mesmo. Pode haver exceções pontuais quando olhamos à nossa volta, mas não mais do que isso. E na vida de quem tem uma auto-estima bem cuidada, a busca é por relacionamentos com grandes chances de serenidade e prosperidade. Chega a ser ingenuidade observar adultos ampararem o sucesso um relacionamento em frases tolas como:

  • “Preciso de você” ou “Oi, você quer que eu me apaixone por você para que eu lhe entregue a resolução de meus problemas por mim, de tudo aquilo que preciso na vida, mas não não tenho conseguido?”
  • “Sem você não vivo” ou “Olá, você gostaria que eu @ ame loucamente enquanto @ acuso de tudo aquilo que você não fizer bem feito em função dos meus interesses?”
  • … e outros clichês que analisando com calma também não passam de umas arapucas bonitinhas.
  • Releia as “traduções” acima e perceba uma agressividade velada daquel@ quem depende contra @ outr@ na forma de muita expectativa e pouco amor de fato. Uma face do romantismo que pouco se comenta.

Quando estamos curados das enganações românticas o primeiro sinal de saúde emocional são quase todas as músicas de amor se tornarem insuportáveis, pois esse mal nos é transmitido geração após geração principalmente por nossa cultura.

O Amor de Dividir na Prática
Um belo dia ou uma bela noite pegamos toda nossa humanidade cheia de qualidades e falhas disfarçadas em um corpo sensual e boas roupas e escolhemos um alguém na multidão – também cheio de qualidades e falhas disfarçadas em um corpo sensual e boas roupas –  para dividir: o amor, o desejo, a fidelidade, a companhia, o preenchimento do vazio da solidão, as famílias, o fazer e criar filhos, as frustrações de infância, os problemas de cotidiano, as variações de humor, o salário e a comida, as experiências, a coragem (de matar baratas, de assumir decisões, andar na rua à noite), os sonhos, o seguro de vida e o plano de saúde e o de previdência, as viagens, a capacidade intelectual, os projetos profissionais e pessoais, os animais de estimação, a paciência (de dirigir em engarrafamento, aguentar choro de bebê e pirraça de crianças, enfrentar fila em banco), o carro, a vontade de votar na esquerda ou na direita, o imóvel e as posses, a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza…

Na verdade, dividir tudo de tudo em um relacionamento significa muito mais ser iludido por uma falsa solução e ver multiplicar os problemas, pois muito antes que qualquer eventualidade possa ocorrer ambos já iniciam a relação possuindo um conjunto de incompletudes para as quais passam a contar que a outra pessoa resolva para elas. Mas a outra pessoa… talvez só tenha as incompletudes dela a oferecer também.  Torna-se um espaço tão inflacionado de expectativas que acabam se tornando irreais para ambos os lados que assim que o século vinte inventou o acesso em massa ao divórcio essa estatística não parou de crescer em quase todos os países.

O Amor de Dividir e as Mulheres (principalmente)
Amor de dividir, simplificando, é um relacionamento em que ambos são dependentes um do outro e pactuam a permanecer dependentes um do outro: chega a ser maldoso. Fazendo uma analogia disso com a criação dos filhos, até para estes estabelecemos um prazo (18, 21, 25, 30 anos) para que se tornem independentes dos pais provedores e abandonem o ninho como expressão de sua saúde e realização na vida. Mas enquanto isso, de maneira geral, as mulheres ainda EXIGEM ser dependentes integrais de seus homens até que a morte os separem. Resultado disso nos dias em que vivemos: cada vez mais homens preferindo acessar o Tinder e cia e cada vez mais mulheres sozinhas. E ambos se queixando um do outro e fazendo terapia. Elogio ao Tinder. O pretexto do amor não pode mais ser uma cilada para ninguém.

Não é difícil de perceber que quando uma mulher faz de alguém o destinatário de “preciso de você” ou “sem você não vivo” produz para si mesma uma vulnerabilidade enorme. Essa é a outra face do romantismo também pouco “agradável” que os comportamentos românticos acabam permitindo vir à tona. O amor romântico nos entorpece com tantas promessas de felicidade futuras que às vezes fica difícil perceber os problemas que cria em maior número, velocidade e imediatismo. A mulher (geralmente) se diminui aos próprios olhos enquanto engrandece artificialmente o outro dentro de seu psicológico se tornando um alvo cada vez mais conveniente a ataques de violência física e psicológica; afinal ela começa a conversar – consigo em seus pensamentos e diálogos sociais – que “precisa” e “não vive sem” e a cada vez conta a si e aos outros que não é capaz de cuidar de si mesma e gradualmente acaba se permitindo não ser capaz mesmo. “Nossas palavras criam o nosso mundo” é uma declaração que está presente em diversas religiões e crenças – incluindo na Lei da Atração – porque de fato é o que acontece.

[Se você é uma mulher que vive essa realidade, se ajude: disque 180 e vá a uma sala de MADA]

O Amor de Somar
Bem, e quanto ao amor de somar? Acredito que já tenha se auto-explicado: é claro que alguns aspectos da vida serão divididos, mas ambos se entregam à relação como laranjas completas. Ficar na relação é uma opção de puro amor porque ambos poderiam estar fora se assim quisessem. Resumidamente, no amor de somar ambos participam da relação possuindo simultaneamente estruturas para a vida independente enquanto partilham a vida como opção e jamais por “precisar” ou ” ter necessidade”. E por que fariam isso? Por auto-estima, respeito mútuo e amor.

Meditações para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood, 16 de fevereiro: ”Muitas mulheres cometem o erro de procurar um homem com quem possam se relacionar antes de começarem a se relacionar consigo mesmas; elas passam de homem para homem, sem saber o que está faltando. A busca deve iniciar em casa, com seu próprio eu. Ninguém pode nos amar o suficiente para nos completar se não amarmos a nós mesmas, porque, quando procuramos pelo amor nesse enorme vazio, achamos somente mais vazio”.

Quarto Passo – Abril

Quarto Passo do programa de recuperação de AA – “4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”.

“Pegamos os olhos de outra pessoa e olhamos para nós mesmos. Enxergamos apenas aquilo que estamos trabalhando, como temos sido afetados, o que estamos fazendo, quais são nossas características, e escrevemos num pedaço de papel o que vemos” Melody Beattie, Codependência Nunca Mais, pg 222.

Iniciados os três primeiros passos (admissão, entrega e confiança em um Poder Superior), começasse a vislumbrar a realização do Quarto Passo. São comuns nessa fase reações do tipo:

  • Uns se assustam e simplesmente não o fazem. Diria até que muitos!
  • Outros o fazem correndo logo ao chegar nas salas ”pra ver se resolve logo”.
  • Há quem o faça com o auxílio de um padrinho ou madrinha. Ou um terapeuta.
  • E sempre tem aqueles que ”é claro que irão fazer” – mas, passadas muitas 24 horas, nunca fizeram.

Seja qual for a atitude diante do 4º passo, algo é certo: não é um passo tranquilo para quase todo mundo que segue o programa de doze passos.

  • Nossa cultura não nos estimula a ler, muito menos a escrever. ”Vou fazer redação com essa idade?”
  • Parece que iremos produzir provas contra nós mesmos em momentos delicados da vida em que só queríamos ser amparados.
  • Como colocar décadas de acúmulo de problemas pessoais em um pedaço de papel? Por onde começar?
  • Convence-se de que vai ser demorado de fazer, ”estou sem tempo para isso”… aí, a pessoa lê sobre o 4º passo, partilha sobre o 4º passo, ouve falar do 4° passo sem nunca o fazer de realmente.

O quarto passo desperta tanta controvérsia nas pessoas que é comum que cada irmandade anônima disponha de literatura endossada de auxílio aos seus participantes. Também há publicações independentes de auxílio ao Quarto Passo:

Minha visão é a de que ninguém “faz um quarto passo”. Ao aderirmos de boa vontade ao programa de recuperação de dependências baseado em AA, nos tornamos pessoas que “praticam o quarto passo” assim como se pratica yoga ou caminhada, ou seja, de forma regular.

  • A primeira vez que se escreve um quarto passo podemos ficar extremamente focados no problema do momento –  e não em nós mesmos holisticamente.
  • A primeira vez que se escreve um quarto passo podemos ficar extremamente focados em acusar outras pessoas  –  e não em nós mesmos holisticamente.
  • A prática regular de escrita reflexiva pode ajudar a superar velhas mentiras que nos acostumamos a contar a nosso respeito.
  • A prática regular de escrita reflexiva pode nos estimular a realizar “quartos passos específicos” observando nosso próprio histórico, comportamentos e pensamentos diante de relacionamentos, adicções, no ambiente de trabalho e familiar e outras situações pertinentes.

Leve uma caneta e um caderno a um local tranquilo (em casa sozinh@, biblioteca, parque) e… comece!

“NA OPINIÃO DO BILL 173, As raízes da realidade: “Iniciemos um inventário pessoal, o Quarto Passo. Sem fazer um inventário periódico, um negócio geralmente vai à falência. Fazer um inventário comercial é um processo que consiste em conhecer e enfrentar os fatos. É um esforço para se descobrir a verdade sobre a mercadoria em estoque. Um dos objetivos é revelar os bens danificados ou que não têm condições de serem vendidos, de desfazer-se deles logo, sem pesar. Para que o dono do negócio seja bem-sucedido, ele não pode se enganar a respeito dos valores. Tínhamos que fazer exatamente a mesma coisa com nossas vidas. Tínhamos que fazer um inventário com honestidade”, “Tenho excelentes razões para saber como os momentos de percepção podem construir uma vida inteira de serenidade espiritual. As raízes da realidade, suplantando as ervas daninhas neuróticas, vão promover uma base firme, apesar do furacão das forças que nos destruiriam ou que usaríamos para nos destruir”. 1 – Alcoólicos Anônimos, pág. 78, 2 – Carta de 1949