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Prestar Serviço e os Conceitos

“Bons líderes de serviço, bem como métodos sólidos e adequados para a sua escolha são, em todos os níveis, indispensáveis para o nosso funcionamento e segurança no futuro”.
9º Conceito de AA

Como modelos de conceitos para grupos anônimos brasileiros disponíveis na internet hoje encontramos dois modelos bastante distintos: os Conceitos de Alcoólicos Anônimos que apresenta a complexidade de uma estrutura que expandiu mundialmente de uma forma muito ampla e os Conceitos de MADA RJ que ainda estão em uma fase inicial de elaboração.

Explica-se que essas diferenças, inclusive da maioria das irmandades anônimas nem sequer possuírem uniformemente todo o conjunto de normativas e ferramentas de recuperação, não devem ser confundidas como “desorganização” das mesmas; mas explicadas que alguns grupos são muito mais recentes em relação à célula-mãe que é AA – com seus mais de 80 anos de atuação – e também pelo respeito à 4ª Tradição sobre a autonomia de cada grupo em se auto-organizar a seu tempo e critérios.

Ilustraremos com os Conceitos de MADA RJ por sua simplicidade em relação à definição a respeito da prestação de serviço nos grupos.

OS DOZE CONCEITOS DE MADA
01. Para cumprir o propósito primordial da nossa Irmandade, os Grupos de MADA se juntaram para criar uma estrutura que desenvolve, coordena e mantém serviços por MADA como um todo.
02. A responsabilidade final e autoridade sobre os serviços em MADA permanecem com os Grupos de MADA.
03. Os Grupos de MADA delegam à estrutura de serviço a autoridade necessária para cumprir as responsabilidades a ela atribuídas.
04. A liderança efetiva é altamente valorizada em MADA. As qualidades de liderança devem ser cuidadosamente consideradas ao selecionar servidoras de confiança.
05. Para cada responsabilidade atribuída à estrutura de serviço, deve ser claramente definido um único ponto de decisão e prestação de contas.
06. A consciência coletiva é o meio espiritual, pelo qual convidamos um Deus amantíssimo a influenciar nossas decisões.
07. Todos os membros de um corpo de serviço arcam com responsabilidade substancial pelas decisões deste corpo e devem poder participar plenamente no seu processo de tomada de decisão.
08. A nossa estrutura de serviço depende da integridade e eficiência de nossas comunicações.
09. Todos os elementos da nossa estrutura de serviço têm a responsabilidade de considerar cuidadosamente todos os pontos de vista nos seus processos de tomada de decisão.
10. Qualquer membro de um corpo de serviço pode requerer deste corpo a retratação por ofensa pessoal, sem medo de represália.
11. Os recursos de MADA devem ser usados para promover nosso propósito primordial e devem ser administrados com responsabilidade.
12. De acordo com a natureza espiritual de MADA nossa estrutura deve ser sempre de serviço, nunca de governo.

“Como indivíduos e como irmandade, vamos certamente sofrer se deixarmos toda a tarefa do planejamento para o amanhã, nas mãos da Providência. A verdadeira Providência Divina foi dar a nós, seres humanos, uma considerável capacidade de antevisão e Ela evidentemente espera que a usemos. Naturalmente, podemos muitas vezes cometer erros de cálculo quanto ao futuro, no todo ou em parte, mas o pior é recusar-se a pensar nele.” Doze Conceitos para Serviços Mundiais, pág. 44

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Prestar Serviço e as Tradições

 

NA OPINIÃO DO BILL 155, Construído por um e por muitos, “Damos graças a nosso Pai Celestial que, através de tantos amigos e através de tantos meios e canais tem nos permitido construir esse maravilhoso edifício do espírito, no qual estamos agora residindo – essa catedral, cujos fundamentos já repousam nos quatro cantos do mundo.

Em sua enorme edificação inscrevemos nossos Doze Passos de recuperação. Nas paredes laterais, os esteios das Tradições de A.A. foram colocados para nos manter em unidade até quando Deus quiser. Ansiosos corações e mãos levantaram o espiral de nossa catedral em seu devido lugar. Esse espiral leva o nome de Serviço. Que ele possa sempre estar apontado em direção a Deus”.

Quando chegamos a uma sala de reunião em que se pratica dos Doze Passos de forma anônima, logo vamos tomando conhecimento dos “Passos” em si. Porém, em dado momento é falado sobre a 7ª Tradição. O que é isso? podemos nos perguntar. Logo após, ouvimos falar sobre a 12ª Tradição? Além de Passos também tem essa Tradição? é um possível pensamento.

Nos Doze Passos conhecemos uma maneira estruturada e sucessiva de se buscar a serenidade espiritual – em nossas vidas, relacionamentos e circunstâncias. As Doze Tradições nos apresentarão uma forma harmoniosa de sustentar os relacionamentos dentro do grupo visando e viabilizando a sobrevivência do próprio grupo. Se os membros de uma irmandade anônima irão prestar serviço voluntariamente é necessário que exista uma diretriz elementar sobre a maneira como essa prestação de serviço se desenvolverá. Afinal, são pessoas de origens diferentes, até então desconhecidas, vivendo algum sofrimento pessoal interagindo por um propósito específico da manutenção funcional do grupo. É preciso uma norma de conduta que simplifique o processo e é para isso que as Tradições foram pensadas.

São elas:

AS DOZE TRADIÇÕES DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS 
 1. Nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; a recuperação individual depende da unidade de A.A.
2. Para nosso propósito de grupo, há somente uma autoridade suprema, um Deus amantíssimo que Se manifesta em nossa consciência grupo. Nossos líderes são apenas servidores de confiança; não governam.
3. O único requisito para ser membro de A.A é o desejo de parar de beber.
4. Cada Grupo deve ser autônomo, salvo em assuntos que digam respeito a outros Grupos ou a A.A. em seu conjunto.
5. Cada Grupo é animado por um único propósito primordial – o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre.
6. Nenhum Grupo de A.A. deverá jamais emprestar o nome de A.A. endossar ou financiar qualquer sociedade ou empreendimento alheio à Irmandade, a fim de que problemas de dinheiro, propriedade e prestígio não nos afastem do nosso objetivo primordial.
7. Todos os Grupos de A.A. deverão ser totalmente autossuficientes, rejeitando quaisquer doações de fora.
8. Alcoólicos Anônimos deverá manter-se sempre não-profissional, embora nossos centros de serviços possam contratar funcionários especializados.
9. A.A. como tal jamais deverá ser organizado podemos, porém, criar juntas ou comitês de serviço diretamente responsáveis perante aqueles a quem prestam serviços.
10. Alcoólicos Anônimos não opina sobre questões que lhe são alheias; portanto, A.A. jamais deverá aparecer em controvérsias públicas.
11. Nossa política de relações públicas baseiam-se na atração em vez da promoção; precisamos sempre manter o anonimato pessoal na imprensa, no rádio e em filmes.
12. O anonimato é o alicerce espiritual de todas as nossas Tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades.
 (Direitos autorais de The A.A. Grapevine, Inc; como publicado em aa.org.br)
Observando a união e continuidade do grupo acima dos interesses individuais. Esclarecendo preferência pela organização interna baseada na prestação de serviço voluntário temporariamente alternado e a tomada de decisão baseada em votações que permitam que o Poder Superior se manifeste. Isentando de regras de admissão e controle de seus membros e assim viabilizando a permanência de seus participantes. Esclarecendo a autonomia dos grupos e seu único papel de prestar mútua ajuda ao participante que ainda sofre. Solicitando doações exclusivamente entre seus membros e – ainda assim – limitadas às possibilidades de cada um. Determinando o anonimato como alicerce espiritual do programa e de conduta geral.
A existência e respeito às Tradições garantem a perpetuação de nosso Programa. As Doze tradições talvez não se assemelhem a uma ferramenta de recuperação, mas são elas o fundamento para que tudo o mais ocorra apropriadamente: para o grupo, para a reunião, para cada um; em todas 24 horas.
“Não é somente a alguns que devemos o notável desenvolvimento de nossa unidade e de nossa capacidade de levar a mensagem de A.A. a todos os lugares. Devemos a muitos; na verdade, é ao trabalho de todos nós que devemos essas maravilhosas bênçãos”.
1 – A.A. Atinge a Maioridade, pág. 209, 2 – Palestra de 1959

O Triângulo de Karpman

“30 de janeiro – Para muitas de nós, o tratamento de recuperação consiste em aprender a fazer exatamente o oposto do que sempre fizemos.” – Meditações Diárias para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood

O programa de recuperação de dependências baseado em Doze Passos é realizado por leigos dispostos a colaborar entre si. É gratuito, exige anonimato de seus participantes e é um local onde evita-se dar conselhos (mais conhecidos como o jargão “dar retorno”). Basicamente, um grupo de mútua ajuda anônima é o avesso do que a psicoterapia normalmente oferta.

Então, porque abordar o Triângulo de Karpman (TK) neste site? Pois a princípio o TK seria de interesse de terapias individuais tradicionais. Vamos deixar essa explicação por conta da autora norte-americana Melody Beattie em seu livro “Codependência Nunca Mais” que faz parte de literaturas endossadas de diversos grupos anônimos.

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Uma representação bastante básica e clássica de como se desenvolve um diálogo típico entre pessoas que – inadvertidamente, é claro – estejam praticando o jogo envolvido no Triângulo de Karpman (perseguidor-salvador-vítima alternadamente) foi bem representada pela psicóloga norte-americana Robin Norwood em seu livro “Mulheres que amam demais” que inspirou a criação da irmandade MADA – Mulheres que Amam Demais Anônimas:

 

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Quanto mais se participa de reuniões de irmandades anônimas e se estuda suas literaturas endossadas mais se destaca o valor de se conhecer e evitar de praticar as representações indicadas no TK. Na verdade, o ato de conversar após se “apertar a tecla stop” da prática do jogo ou TK na vida diária significa que dialogar perde tanta carga de drama e a vida se torna tão mais simples que causa até mesmo um certo estranhamento. Que absurdo! Viver uma vida simples e sem praticar ou sofrer manipulação ser incômodo de se acostumar! É para isso e muito mais que continuamos voltando. O segredo sempre está na próxima reunião.

“É nos relacionamentos que demonstramos nossa recuperação. Cuidar bem de nós mesmos não significa evitar relacionamentos. O objetivo da recuperação é aprender como funcionar nos relacionamentos.” Para Além da Codependência, Melody Beattie.

Prestar Serviço e os Passos

24 de JANEIRO, CONSEGUINDO SE ENVOLVER, É preciso ação e ainda mais ação. “A fé sem obras é morta.”… Nossa única meta é sermos úteis.
Quando participamos de nossa primeira reunião de programa de Doze Passos logo ao final do encontro recebemos nosso primeiro convite de prestação de serviço. ”Ao final da reunião solicitamos que nos ajudem a arrumar a sala.” Quando somos informados de que o anonimato é o alicerce espiritual de nossas atividades, também estamos indiretamente ouvindo um chamado à prestação de serviços em sala; pois sendo as atividades internas dos grupos de mútua ajuda realizadas voluntariamente por seus membros fica mais assegurado de que tudo o que foi dito e ouvido ali que assim permaneça.

E de que se trata exatamente a prestação de serviços dentro de irmandades anônimas? Resumidamente, qualquer atividade que viabilize a existência do grupo e a realização de cada reunião. Desde o ato de pegar uma chave que abra a porta do local ou fazer o café para todos os participantes ou distribuir cartazes em murais de espaços de grande circulação; enfim, são muitas as maneiras de se trabalhar por uma determinada irmandade anônima, sendo as mais comuns:

  • Durante a reunião: Providenciar alimentos e bebidas para a hora do intervalo, coordenar a reunião, atuar como secretário ou tesoureiro, arrumar a sala antes e depois do encontro do grupo, manter uma comunicação com os administradores do local onde a sala estiver instalada. Informar notícias relacionadas ao grupo durante o encontro. Se dispor como “Abordagem” para atender pessoas que inesperadamente apareçam à porta durante a reunião.
  • No intergrupo (ou equivalente): Produção dos materiais utilizados nas reuniões como impressão de materiais em gráficas e elaboração de artigos artesanais para eventos. Participação nos comitês de literatura, de eventos, de internet, de informação ao público, de acessórios e outros. Ir ao evento de Intergrupo como Representante de Grupo (RG).
  • Relacionamentos com outros participantes: Ser madrinha ou padrinho de recuperação de alguém.
  • Divulgação externa: Visitar outros espaços e eventos levando a mensagem do Grupo. Distribuir folhetos e afixar cartazes.

Bem, uma vez que as formas de se prestar serviços voluntariamente dentro de salas anônimas são tantas mas porque o participante iria fazê-lo? Em se tratando dos Doze Passos de AA, cujo foco seria uma maneira estruturada de recuperação de um estado espiritual caótico para uma vida equilibrada e afastada dos problemas que precipitaram a ida até a sala – sejam eles quais forem – a etapa que indica essa prática de prestação de serviço como desejável é o décimo segundo passo.

12º Passo – Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.

A prestação de serviço voluntário em grupos baseados no programa de Alcoólicos Anônimos possui muitas razões que asseguram o sucesso dos resultados das próprias irmandades assim como benefícios que se revertem aos próprios servidores.

  • A prestação de serviço voluntária assegura a existência do próprio grupo de maneira anônima, gratuita e com qualidade.
  • A prestação de serviço voluntária assegura o sucesso de seus resultados por ofertar um espaço em que aquele que se encontra em recuperação possa trabalhar em um espaço reduzido, servindo como um verdadeiro ambiente de treino para queles que se afastaram de – ou não chegaram a atuar em – atividades profissionais ao longo da vida; ocupando seu tempo ocioso e viabilizando que seus sentimentos de capacidade e pertencimento aflorem. Com isso, as salas anônimas contam gratuitamente com prestadores de serviços em processo de equilíbrio espiritual interessados na manutenção plena das mesmas, criando uma atmosfera saudável para todos os envolvidos.
  • A prestação de serviço voluntária assegura benefícios que se revertem aos próprios servidores por permitir o permanente contato ativo entre aqueles que estão começando o programa com participantes mais experientes proporcionando-lhes “espelhos de recuperação”. Em contrapartida, os participantes que já estão há algum tempo praticando o programa de 12 passos se mantém em constante contato com os recém-chegados; o que os relembra como eles próprios agiam e pensavam quando chegaram ao grupo e o que não desejam mais a si.

A prestação de serviço em Doze Passos constitui uma base vital do sucesso e continuidade do Programa; pois os resultados positivos alcançados individualmente são revertidos em benefícios coletivos.

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, p.107 ou p.116, Entendo que o serviço é uma parte vital da recuperação mas muitas vezes imagino, “O que eu posso fazer?” Simplesmente começar com o que tenho hoje. Olho em volta para ver onde há uma necessidade. Os cinzeiros estão cheios? Tenho mãos e pés para limpá-los? Subitamente, estou envolvido! O melhor orador pode fazer o pior café; o membro que é o melhor com os novatos pode ser incapaz de ler; o único disposto a fazer a limpeza pode fazer a maior confusão com a conta do banco – mas, cada uma destas pessoas e trabalhos são essenciais para um Grupo ativo. O milagre do serviço é este: quando uso o que tenho, descubro que há mais disponível para mim do que percebia antes.

Outros Grupos

“Só eu posso, mas não posso sozinho!” – Lema de Narcóticos Anônimos

O Programa de Doze Passos baseado em Alcoólicos Anônimos como célula mãe pode encontrar entusiastas e detratores – mas o fato é que perdura há mais de oito décadas com salas cheias ao redor do mundo. E outros tipos de grupos anônimos permanecem surgindo conforme as questões contemporâneas invadem as vidas dos indivíduos.

Apesar dos esforços em se criar e manter grupos capazes de abranger ao máximo os assuntos relacionados ao motivos causadores de desequilíbrios espirituais e causadores de males como a depressão, isolamento e suicídio – entre muitos outros – é possível perceber que muitos grupos ainda poderiam ser criados como suporte aos mais diferentes grupos sociais. Algumas sugestões seriam:

  • Transgêneros
  • Solitários
  • Uso compulsivo de internet
  • Acumuladores (objetos, animais, etc)
  • Dificuldades de aprendizado
  • Bullying
  • Idosos
  • Mães solteiras
  • Crianças com transtornos de comportamento
  • Deficientes físicos
  • Pessoas afetadas por doenças específicas
  • Vítimas de assédio sexual
  • Fanatismo (político, religioso…)
  • Agressores
  • Refugiados e imigrantes
  • (… alguma sugestão para adicionar?)

Apesar da forte inspiração, também surgem a cada dia novos tipos de grupos que apesar de parecidos por constituírem terapias em grupo, NÃO SÃO BASEADAS em doze passos de AA da maneira tradicional. Por essa mesma razão não estão listados em nosso menu de endereços, mas merecem nota pelo serviço prestado a pessoas com diferentes tipos de dificuldades físicas, mentais e espirituais.

Outros Grupos em Portugal (não anónimos)

Na verdade, seja pela a inexistência de alguns grupos ou seja pelo surgimento de grupos de iniciativa privada, o fato é que existe demanda! E nós podemos sim criar e recriar todos eles – e outros tantos mais – como grupos anônimos de mútua ajuda gratuitos baseados no programa de doze passos de alcoólicos anônimos. Que tal?

“Em A.A. nada se cria. Tudo se copia!” – Lema de Alcoólicos Anônimos

Primeiro Passo – Janeiro

Primeiro Passo do programa de recuperação de AA – “1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.”

Como citado em outra postagem aqui do site GDP, Fechar um Ciclo, Recomeçar um Ciclo, a ideia de organizar uma parte do processo de recuperação seguindo o calendário – passos correspondentes a cada um dos doze meses do ano, lemas a cada semana, meditações diárias ou seja como for – são estratégias possíveis para a manutenção de uma disciplina espiritual. Cada pessoa, de preferência junto ao seu padrinho ou madrinha de recuperação ou após ouvir espelhos mais experientes em reuniões de irmandades anônimas, irá formular ou adaptar um meio de incorporar o programa de doze passos a sua própria rotina.

O Primeiro Passo nos diz em outras palavras que admitimos nossa derrota: nossas vidas – e talvez em conjunto as vidas  de outras pessoas próximas a nós – se desgovernaram devido a atitudes de nossa parte que agora estão cristalizadas em nós como adicção, depressão ou comportamentos inadequados com os quais não conseguimos lidar ou interromper mais por nós mesmos.

É preciso admitir em que ponto falhamos para que possamos estabelecer um objetivo. Onde falhei será meu foco de recuperação. Talvez, junto ao desenvolvimento do processo de autoconhecimento que se dá início a partir desse passo inicial virão a ser feitas outras admissões de outras questões; pois é muito comum que adicções, sofrimento espiritual e comportamentos compulsivos estejam interligados de variadas formas em cada pessoa. Tudo terá seu devido tempo, mas o importante será estabelecer no primeiro passo uma admissão, um desejo de reverter uma situação.

Bem, talvez tenha sido difícil admitir. Alguns precisam chegar ao fundo do poço e buscar uma ajuda qualquer para não perder ainda mais (um emprego, um casamento, a guarda de um filho, um fio de sanidade). Se o que apareceu como chance de tentar algo foi “esse tal de Anônimos, que seja”. Outros serão empurrados para dentro das salas por familiares (empurrados? Quantos familiares não assistem a primeira reunião em dupla dentro da sala ao lado do futuro ingressante, por garantia de que realmente venha a participar? Muitos!). As mais diferentes razões e circunstâncias podem fazer alguém cruzar a porta fechada com a plaquinha pendurada do lado de fora: “reunião em andamento, deixe os cumprimentos para depois.” Entrar, ficar e continuar voltando.

O trecho final desse passo nos reafirma seu propósito; pois admitimos nossos problemas visando a retomada do rumo saudável de nossos dias. Buscamos de volta nossa esperança através do desejo sincero de mudar aquilo que podemos, ou seja, nós mesmos. E assim, as demais circunstâncias também acabam por mudar como um reflexo ou adaptação aos novos desdobramentos do primeiro passo e a adoção dos outros que viremos a praticar. Mas só depois do primeiro.

Você faz parte um grupo anônimo? Há quantas 24 horas? Você ainda não faz parte mas gostaria de se integrar a um grupo? Busque um endereço. O primeiro passo não será o fim mas o (re)começo de um caminho de positividade e sobriedade. Só por hoje, confie nisso e dê o primeiro de seus muitos passos transformadores que ainda virão.

Meditações para Mulheres que Amam Demais, 7 de Outubro: “Se você acredita ou não em Deus e, caso acredite, se você fala ou não com Ele, ainda assim pode desenvolver sua espiritualidade. Descubra o que lhe traz paz e serenidade e dedique algum tempo, pelo menos meia hora por dia, a essa prática. Tal disciplina pode trazer-lhe, e trará, alívio e conforto.” Robin Norwood

A espiral da recuperação – Parte 1

NA OPINIÃO DO BILL 1, Mudança de personalidade, “Com freqüência se tem dito a respeito de A.A., que somente estamos interessados no alcoolismo*. Isso não é verdade. Temos que vencer a bebida para continuarmos vivos. Mas quem quer que conheça a personalidade do alcoólico, através do contato mais direto, sabe que nenhum alcoólico verdadeiro pára completamente de beber sem sofrer uma profunda mudança de personalidade”.
*Ou outras adicções e dependências

A recuperação de uma adicção ou processo de dependência, seja ela qual for, é um processo, pois ocorrerá progressivamente, incluindo conquistas e recaídas, aos poucos enquanto o indivíduo aceita ser mudado, se torna capaz de mudar e se finalmente se torna agente de mudança – voluntariamente ou não – dos demais ao seu redor. Porque quando alguém muda, as outras circunstâncias e pessoas próximas a ele também mudarão em algum nível, é certo.

O Programa de Doze Passos inclui para esta finalidade um grande conjunto conceitual e material de uso em suas reuniões e fora delas: os doze passos, conceitos e tradições; lemas e ferramentas de recuperação, adoção de padrinho ou madrinha de recuperação, reuniões constantes e eventos esporádicos, literatura endossada e materiais de uso em sala, prestação de serviço dentro de sala e fora dela, participação em encontros de comitês de organização interna dos grupos e muito mais. Não será algo que praticaremos ou obteremos integralmente em um único dia e nem mesmo, provavelmente, adotaremos tudo; mas quanto o mais permitirmos adotar em nossa recuperação mais nos beneficiaremos. Sendo flexíveis, sem nos sobrecarregar, atingiremos aspectos mais saudáveis e serenos em nossas vidas. Os grupos baseados no anonimato de seus membros costumam ter ou realizar:

  • Os doze passos: A relação de passos de alcoólicos anônimos – célula mãe dos grupos de mútua ajuda – ilustra as etapas a ser realizadas pelos ingressantes no Programa de recuperação baseado no modelo de AA.
  • Os doze conceitos: São doze regras simples que visam manter a prestação de serviços de cada grupo organizada e harmoniosa.
  • As doze tradições: São doze regras de conduta interpessoal e organização interna de grupos anônimos que visam manter o funcionamentos das salas com harmonia, alternância de participantes em sua organização e não-acumulação de poder sobre determinados indivíduos.
  • As doze promessas: São um conjunto de doze afirmações positivas relacionadas à meta de recuperação de determinado grupo anônimo.
  • As doze diretrizes: São orientação ao modo como o grupo se reportará à situações de exposição na mídia, evitando controvérsias e garantindo o anonimato dos envolvidos.
  • Partilha: O ato de falar durante a reunião em uma sala de mútua ajuda. Normalmente começa com “Sou fulano, um participante em busca de recuperação…” e todos respondem juntos “Oi, Fulano!!!”. Ao final, quem partilhou costuma agradecer dizendo “Obrigada por me ouvirem”.
  • Lemas: São pequenas frases, fáceis de memorizar, que os praticantes de irmandades anônimas costumas adotar pessoalmente em seu processo de recuperação ou como metas do grupo durante certo período.
  • Ferramentas de recuperação: Telefones de outros membros do grupo (atualmente incrementados com listas de Whatsapp e grupos de redes sociais) a quem se possa entrar livremente em contato em momentos de crise para buscar orientação e companhia. Adoção de padrinho ou madrinha de recuperação e manter contato com ele ou ela. 
  • Reuniões constantes: Há uma dia e um horário propício em algum Grupo esperando por você. A ida a um Grupo de maneira nenhuma o vincula a ele. É possível ir participando de reunião em reunião até adotar o Grupo com mais afinidade temática e de companheiros. Também é comum a adesão simultânea a mais de um tipo de sala. Por exemplo, frequentar AA e NA, frequentar Nar-Anon e Coda e CCA, etc.
  • Anonimato dos participantes: “Quem você viu aqui, o que você ouviu aqui, ao sair daqui, deixe que fique aqui”
  • Orações: da Serenidade, da Irmandade e do Grupo.
  • Fitas, fichas ou cartões de tempo de adesão ao programa: São pequenas lembranças de vitórias pessoais e de persistência.
  • Eventos esporádicos: Palestras com participantes mais experientes, palestras com profissionais de terapia, finais de semana de eventos de recuperação em hotéis…
  • Literatura endossada: Os livros e apostilas que seu grupo elegeu como representantes de sua proposta de recuperação. Alguns podem ser adquiridos em livrarias comuns e outros são comprados diretamente nas salas durante as reuniões.
  • Materiais de uso em sala: Cartões para leitura durante a reunião, banners e quadros nas paredes, lenços para quem se emociona durante sua partilha, apostila que orienta a coordenação da sala, lanche para a hora do café e outros materiais para organização e realização do encontro.
  • Prestação de serviço dentro de sala: Ajudar a arrumar a sala antes e depois do encontro, fazer e ajudar a servir o café, verificar pendências, avisar temas importantes aos demais participantes para manter a sala em condições de realizar suas reuniões com eficiência entre os presentes. Prestar serviço eventualmente ou ser coordenador, tesoureiro ou representante do grupo junto ao evento de intergrupo.
  • Prestação de serviço dentro de sala fora dela: Visitar como voluntário empresas, eventos, escolas, presídios, hospitais e outros espaços apresentando a proposta de recuperação de sua sala. Faz parte de “levar a mensagem”.
  • Participação em encontros de comitês de organização interna dos grupos: Participar ativamente da gestão do Grupo de sua cidade colaborando para a existência e continuidade do mesmo. Normalmente acontece na forma de uma reunião de intergrupo com cada sala da cidade enviando um representante que relate a situação de sua sala e juntos adquiram materiais de apoio e informações relevantes a serem repassadas no retorno às suas reuniões. Conhecer as Doze Tradições ajuda bastante.


O começo da espiral da recuperação

Eleger um grupo de apoio e começar a frequentá-lo regularmente, conhecer suas propostas e participantes, conhecer os recursos do programa de Doze Passos, tudo isso, enquanto se está vivendo um quadro ainda de mal-estar devido a uma adicção ou dependência não é fácil e requer um esforço para a manutenção das novas práticas e obtenção dos primeiros sinais de alívio e bem-estar. O Programa de recuperação baseado em AA é acessível, mas requer empenho de seus integrantes. Dia após dias, passo a passo, a vida vai mudando em um processo de desenvolvimento que propõe a geração de novas bases para um novo modo de viver.

Melhorar como um processo de curar
A “cura”, seja para qual problema de adicção ou dependência for, não vem quando pedimos, mas chega durante o tempo a que entregamos o nosso processo de curar. Talvez trocar “cura”  por “melhoria” seja uma melhor visão para o processo. Melhoramos dia após dia, melhoramos compreendendo nossas histórias pessoais, melhoramos junto a outros que também estão melhorando de problemas semelhantes, melhoramos porque passamos a nos autoconhecer.

Falhamos e recaímos bem no meio disso tudo?

A espiral da recuperação – Parte 2

Mas observe a vitória do quanto já melhoramos. A ideia de uma recuperação em espirais ou zigue-zagues ascendentes ou da forma como melhor compreender pessoalmente, de algum modo, estará relacionado à noção de que os progressos estão sujeitos a altos e baixos e que o controle individual não será tão efetivo quanto ao controle pessoal orientado pelos companheiros de programação. Minha visão sobre minha própria recuperação se tornou mais positiva quando elaborei minha própria meta de recuperação e passei a enxergá-la como um gráfico de rendimentos do Bovespa: não importaria observar diversos picos descendentes, eles não significariam prejuízos para mim, eu não iria ficar me recriminando, desde que a grande ascendente sobre a qual se apoiassem continuasse subindo de maneira exponencial em realizações e transformações individuais. Interpretação pessoal, bem pessoal, elabore uma para si também.

E a cada problema superado, não duvide, a vida trará novos. Porém, com uma diferença: os desafios crescerão, pois estaremos vivendo níveis mais conscientes de sentimentos, pensamentos e comportamentos. Não retornaremos a comportamentos antigos para lidar com novas situações cobradas pela sobriedade, mas será que já desenvolvemos a habilidade de tais novas atitudes? Manter uma visão de recuperação como um processo em espiral também incluirá essa mudança progressiva dos desafios que chegarão e dos recursos que abandonaremos ou passaremos a adotar para lidar com os mesmos. São muitos passos nessa nova jornada de (re)construção pessoal. Vale a pena continuar voltando ao Programa!


“NA OPINIÃO DO BILL 331, A grande realidade, “Para o recém-chegado: Entregue-se a Deus, como você O concebe. Admita suas faltas a Ele e a seus semelhantes. Desfaça-se das ruínas de seu passado. Dê livremente aquilo que você receber e junte-se a nós. Estaremos com você na irmandade do espírito e, você certamente se encontrará com alguns de nós, quando trilhar o caminho do destino feliz. Que Deus o abençoe e o proteja! – até lá.”