Elogio ao Tinder

Esse não é um texto genérico sobre uma novidade moderna. É um texto diretamente dedicado àqueles que estão em terapias de grupo anônimas, tristes com algumas constatações em seus relacionamentos frustrados ou que nem mesmo vieram a se concretizar.

”Agora com os apps de sexo, os homens não querem mais compromisso” é algo mais ou menos comum de se ouvir desde que esse tipo de aplicativo chegou no Brasil. Já pensei assim também, mas mudei a opinião reacionária por outra bem mais otimista.

Muita choradeira de conhecidas em salas de mútua ajuda, Whatsapp e Facebook. Artigos da Marta Medeiros e Danuza Leão. Uma enxurrada de textos magoados em blogs só confirmam aquele pensamento como meio generalizado.

Os homens agora – e somente agora – não honram seus compromissos afetivos? Acho difícil acreditar nisso.

Em dias de informação, educação, leis de proteção à mulher, feminismo, apelos de artistas, queimação de filme em redes sociais… os índices de estupro/assédio/violência contra as mulheres são/continuam assustadores. Traição vira até besteira diante do resto. A maioria desses alvos são justamente namoradas, esposas e filhas. Imagine exigir o tal do respeito em relação a uma mulher (ainda) desconhecida!

Sim, existem homens maravilhosos e dignos de muito amor. Mas são poucos, em geral.

Não é possível que antes de toda essa rede de proteção formal à mulher (que foi necessária ser feita e é burlada como se não existisse) a maioria dos homens eram ”maravilhosos para casar ou se relacionar”. Sabemos que desde nunca.

”Ah, mas antes todo mundo casava cedo e ficava casado”. Pois é… e com que qualidade de vida? A custa de quanta dor, segredos e mágoas? Isso valendo para eles e elas.

Hoje, mais ou menos, quando um homem não quer namorar ou casar com uma mulher e ela acaba ficando solteira por mais tempo que o desejado, a vida continua disponível para ela e ela continua disponível para a vida: vai se formar, vai trabalhar, vai comprar o próprio carro, vai dirigir à noite, vai viajar, vai falar inglês espanhol e alemão, vai investir seu próprio dinheiro, vai pagar seu plano de saúde, vai se pós-graduar, vai fazer consertos dentro de sua casa, vai conhecer tanta gente que vai ter um monte de compromissos de passeio e encontros, vai conversar com um terapeuta, vai pra academia e pro baile dançar, vai ter a própria grana para fazer tudo isso e talvez ainda ter um plano de previdência; enfim… se ela permitir que o fato de não estar namorando não se iguale ao fato de não estar vivendo. Porque isso é opcional e a deprimiria profundamente se tornando um problema de saúde emocional complicado de se lidar. De toda forma, ela poderá ser uma futura namorada muito melhor do que poderia ter sido antes; é isso que é importante reconhecer. Casar não impede nada daquelas coisas mas cá pra nós, quantas esposas você conhece em sua vida pessoal vivendo com essa plenitude toda? Poucas, provavelmente menos que os dedos de uma mão. É trágico, mas as mulheres ainda insistem a jogar essas “responsabilidades” sobre os homens, quer eles tenham pedido ou não. E isso, por sua vez, é desrespeitoso da parte delas com eles – guardando as devidas proporções obviamente.

A boa notícia é que é possível pensar que o Tinder & cia, através dos homens, abriu uma oportunidade de revolucionar os relacionamentos afetivos de qualidade emocional com essa ‘novidade’ da recusa em namorar em prol da busca do sexo sem compromisso. Calma, também defendo o casamento e as relações de qualidade. Tudo será explicado. A má notícia é que esse resultado positivo será provavelmente de longuíssimo prazo.

1º Elogio ao Tinder: Menos homens compromissados por obrigação social de ”ter que namorar para parecer sério”, vulgo aparências = Mais qualidade de fato nos relacionamentos que venham a se firmar. #coda

2º Elogio ao Tinder: Menos mulheres se tornando dependentes materiais/emocionais de homens ”para parecerem sérias”, vulgo aparências= Mais qualidade de fato das parceiras que passam a cuidar mais da própria vida (profissional, educacional, social, pessoal) nem que seja por excesso de tempo livre da solteirice expandida. #ea

3° Elogio ao Tinder: Menos relacionamentos de ”bom papel social” deles com menos dependência delas sobre eles = Menos famílias disfuncionais, menos filhos sofridos. Aliás, com melhores famílias, melhores homens e mulheres no futuro, igualmente. #alanon #naranon #alateen

4º Elogio ao Tinder: ”O Tinder está mandando a geração atual para as salas de terapia” = Uma sociedade melhor. Freud estava esperando por isso há pelo menos uns 120 anos. #n/a

5º Elogio ao Tinder: Ficou mais fácil perceber o vício/adicção/dependência em sexo culturalmente estimulado nos homens = Mais terapias, vidas melhores, parcerias melhores. #dasa

6º Elogio ao Tinder: “Ele me iludiu com a chance de um relacionamento e partiu meu coração”. Ficou mais fácil perceber a dependência emocional culturalmente estimulada nas mulheres. = Mais terapias, vidas melhores, parcerias melhores. #mada

Com perplexidade constato que o Tinder – e os homens – estão fazendo pelo avanço das mulheres quase o mesmo que o feminismo faz com mais de um século de sangue, discussões e luta. Melhor esquecer os estranhos mensageiros e louvar os resultados da passagem mais intensa da dependência (global) feminina para uma vida independente e até mesmo interdependente – e serena!

Boa notícia para as mulheres – que dificilmente perceberão os benefícios neste momento turbulento de expectativas frustradas – que se beneficiarão de uma autonomia nova na vida. Quanto aos homens, um novo ciclo em que as mulheres estejam tão plenas de suas próprias vidas que não mais praticamente os cacem às custas de transtornos a outras mulheres, lhes exigirá a contrapartida de melhoria global para merecê-las. E estar sujeitos a serem preteridos por outras ambições pessoais delas. Ele terá de ser – assim como a ela foi culturalmente ensinado ao longo de gerações de modo geral – um parceiro de verdade, um pai de verdade, fiel de fato se assim combinarem, saudável, equilibrado, pacífico; enfim, terá que fazer por merecer e realmente valer a pena para ela escolhê-lo para um relacionamento sexo-afetivo saudável! Um (futuro) ciclo virtuoso completo.

Final feliz aos relacionamentos entre pessoas – homens e mulheres – serenos e seguros. Raros na vida, ainda. #soporhoje

NA OPINIÃO DO BILL 3, Dor e progresso, “Alguns anos atrás eu costumava ter pena de todas as pessoas que sofriam. Agora somente tenho pena daquelas que sofrem por ignorância, que não entendem o propósito e a utilidade definitiva da dor”. / “Certa vez alguém disse que a dor é a pedra de toque do progresso espiritual. Nós, AAs, podemos concordar com isso, pois sabemos que as dores decorrentes do alcoolismo tiveram que vir antes da sobriedade, assim como o desequilíbrio emocional vem antes da serenidade”.

Terceiro Passo – Março

Terceiro Passo do programa de recuperação de AA – “3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.

No primeiro passo admitimos nossa impotência perante algo, alguém ou um determinado comportamento. No segundo passo, viemos a acreditar que algo superior a nós mesmos poderia nos ajudar a sair de tal situação. Chegamos ao terceiro passo que nos solicita entregar o cotidiano de nossas vidas a essa nova crença. Bem, isso não seria excessivo? Isso não seria uma religião? Para que tudo isso? Aliás, de que maneira prática seria possível realizar tal feito?

O programa de doze passos tendo os Alcoólicos Anônimos como célula-mãe existe há mais de oitenta anos, em todos os continentes do planeta e gerou uma série de outros grupos anônimos para as mais diversas questões. Se existe uma forma de se “entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus” a única certeza que poderemos ter é que isso foi realizado de milhões de maneiras únicas e diferentes entre si, pois assim é cada ser humano: único e diferente. Considerando isso, podemos imaginar algumas possibilidades, mas serão elas realmente válidas para estancar nossa dor e reposicionar nossas vidas em um compasso positivo? Como um meio de reflexão, há o texto da Apresentação do livro de Robin Norwood “Por que eu, por que isso, por que agora?”

“Por que eu? Por que isso? Por que agora? Qual de nós, em tempos difíceis, não careceu de respostas para estas perguntas? Sondamos nossos corações. Interrogamos a vida. Ficamos zangados com Deus. Queremos qualquer ouvinte compreensivo. Por quê? e a resposta volta na forma de paliativos vagos e gerais que não captam nem ao menos nossa dor e frustração e são vazios, impessoais e até irritantes, como estes:

“O tempo cura tudo”

“Você está decepcionado(a), mas vai superar isso”

“É a vontade de Deus e não está em nós discutir”

“É o destino”

“Essas coisas acontecem”

Provavelmente o conselho mais intolerável que recebemos quando estamos arrasados por alguma dificuldade seja este: “Procure não pensar muito nisso. Ficar assim só vai deixá-lo sentindo-se pior”. São palavras oferecidas por amigos bem-intencionados que se veêm impotentes diante de nossa aflição, mas nos deixam naufragados e agitados nos baixios de algo que deu errado, muito errado.”

Se as coisas vão severamente mal em nossa vida, estamos desnorteados o suficiente para não sermos bons conselheiros de nós mesmos. Nossos familiares e amigos podem ter muito amor e consideração por nós mas precisaremos talvez realizar o esforço em separar o reconhecimento da afeição deles por nós e que eles tentam nos ajudar com conselhos (frases de ditos populares, memes de internet) e recursos (pagar uma viagem; comprar um livro religioso, filosófico, espiritual ou de auto-ajuda; chamar para um chopp ou “sair para ver gente” para esquecer dos problemas) que simplesmente não funcionam no mais mais das vezes.

Por isso é que em Doze Passos encontramos deliberadamente um caminho para entregar nossas vidas conscientemente à vontade de Deus (ou Poder Superior ou Vida ou outro conceito); pois não se trata de ter sido mandado a escolher isso, mas ser isso a opção disponível. E precisamos tanto.

Precisamos estancar nossa dor e reassumir uma vida cotidiana positiva. Precisamos  compreender por que tal evento nos impactou – quando outras tantas pessoas não passam por isso ou se passam não se permitem abalar – da forma única e diferenciada que somos e não segundo um provérbio popular! Precisaremos, quem sabe, trocar o doído “por quê?” por um esperançoso “para quê?” dos revezes que vivemos.  O Deus que concebemos quererá o nosso bem e nos colocaremos à disposição para a chegada desse bem que ainda pode estar por vir mas sem dúvida dependerá de nós para chegar e ser tudo aquilo que contribuirá para o alcance do nosso melhor enquanto indivíduos.

 

“Deus não exige que consigamos. Espera apenas que tentemos!” – Lema de AA

Segundo Passo – Fevereiro

Segundo Passo do programa de recuperação de AA – “2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.”

Uma vez identificado um determinado problema em nossa vida através do processo de admissão do Primeiro Passo do programa de recuperação de alcoólicos anônimos temos um potencial desencadeamento de cura em nossas vidas: talvez um grande problema tenha finalmente vindo à tona de modo a chamar nossa atenção de maneira imediata. Talvez esse problema inicial desencadeie uma quebra de nossa negação interior que permitirá enxergarmos uma série de outros problemas dentro de nós – que de outra maneira ou sendo avisado por outra pessoa – jamais reconheceríamos, jamais admitiríamos, jamais nos curaríamos. Com um grande problema abrindo as portas para a mudança de uma série de outros problemas, algumas de nossa novas expressões de viver pessoais se manifestarão naturalmente. E tais modificações serão captadas no ambiente pelos demais que nos rodeiam, gerando também mudanças em nossos relacionamentos.

Mas, que tipo de mudanças pessoais e interpessoais poderiam ser essas? Certamente não as que nos acostumamos a pedir (especialmente dentro dos processos educacionais religiosos tradicionais no tocante às orações) do tipo que ele ou ela mude, que ganhemos essa ou aquela conquista material, que algo assim nos aconteça ou… Por que não? Por que esses tipos de pedidos “justos” de mudanças, a essa altura do processo, já estaremos aprendendo se tratar de manipulações. E não, não será isso parte de nenhum processo de cura factível ou de alcance de serenidade espiritual.

Novamente, “e porque não?” imagino o leitor se perguntando diante da tela – pois eu também já fiz essa indagação de maneira completamente indignada no começo de minha recuperação em programa de doze passos. Vamos perceber isso bem claramente:

  • Se caio na armadilha de por exemplo, pedir aos céus que fulano magicamente pare de beber (ou outro comportamento que EU considere nocivo); em primeiro lugar fulano parar subitamente com algo que já está acostumado e sem nenhum tipo de conscientização pessoal a chance dessa “mudança” ser breve é muito elevada. Quantos casos em sua vida pessoal você talvez não tenha acompanhado e observado ocorrer exatamente dessa maneira. Quem se decepcionará? Eu!
  • Se caio na armadilha de por exemplo, obrigar fulano a ir à terapia para parar de utilizar substâncias narcóticas (ou outro comportamento que EU considere nocivo); talvez fulano faça isso porque queira ME acalmar ou ME agradar ou ME… Peraí! Isso é fulano se tratando realmente ou utilizando da terapia um argumento para cair em minhas graças – vulgo ME manipular?
  • Não importa a minha idade, se jovem ou amadurecido. Tudo o que sou e as capacidades que possuo provém de minha educação recebida, crenças pessoais adotadas, produtos de mídia e entretenimento que me influenciaram – e falharam. Logo, se meus recursos individuais me indicaram caminhos capazes de me criar problemas como é que seria possível, ao orar, mesmo que fervorosamente, não estar solicitando justamente receber as mesmas circunstância que sempre venho recebendo? Como saber? Basta observar o que venho vivendo! Para novos resultados em minha vida, EU precisaria necessariamente aprender novos pensamentos e a formular novos pedidos. Por isso, muitos adeptos de salas anônimas também associam suas terapias de grupo de mútua ajuda anônimas a terapias cognitivas (ligadas aos processos de aprendizado). Para aqueles que possuem afinidade com textos do tipo “Lei da Atração” agora vemos de que maneira atraímos nós mesmos tudo aquilo de que tentávamos evitar. Sempre “eu”. E como é que esse “eu” aí então se porta de modo tão prepotente a tentar modificar outro alguém conforme sua vontade? Os bons efeitos não conseguirão chegar porque não são assuntos do meu “Eu”, mas do Poder Superior. Humildemente, assumimos nosso PS e libertamos a vida do outro para que o PS também possa ajudá-lo da maneira necessária a ele e que nos é desconhecida. Por amor ao outro é que fazemos isso.
  • Ainda duvida do que foi dito anteriormente? Tudo bem. Se o alvo de tamanha bondade de meus pedidos e orações o tempo todo seria o “outro” porque então rotineiramente estaria “eu” assumindo o papel central de vítima desapontada dos atos alheios? Aliás, nos atentando ao fato de que “persegui” tão corretamente em meus conceitos fulano para “salvá-lo” de si mesmo e agora sou uma “vítima” do descaso de fulano… Eu preciso urgentemente me tratar de meu próprio comportamento de Triângulo de Karpman, concorda? Novamente… EU precisando ME cuidar!

O Programa de Doze Passos além de acessível é muito simples. O que ele nos sugere mesmo? Ele nos traz como segundo passo logo posterior à admissão de nosso problema que “Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”:

  • “Viemos a acreditar” pois é um passo pessoal. Ninguém nos obrigou a acreditar em nada. Igualmente somos impotenteS a obrigar quem quer que seja a acreditar em qualquer coisa. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • “que um Poder Superior a nós mesmos” pois nossa educação, nossas crenças pessoais, nossos produtos de mídia e entretenimento que nos influenciram falharam. Logo, se meus recursos individuais me indicaram caminhos capazes de me criar problemas tão grandes, ao ponto de agora exigir minha rendição, admissão e participação de um programa de recuperação então eu preciso me abrir a algum tipo de conhecimento que ainda me seja novo. Talvez eu precise de Deus como um Poder Superior a partir de agora. Talvez eu precise de algo diferente. Mas, primordialmente, eu preciso estar de mente aberta a reconhecer que preciso me expor a conhecer o novo e a identificar meu próprio processo de cura. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • “poderia devolver-nos à sanidade” é nossa meta. É nossa vida. Uma nova vida. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • No segundo passo baseado em grupos de mútua ajuda anônimos, o “eu” se torna finalmente meu recurso de desenvolvimento pessoal e espiritual e deixa de ser um recurso a culpar aos outros por meus próprios problemas.

“Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”. Mas não seria justamente orando que me comunicarei com meu Poder Superior, Deus, Eu Verdadeiro ou outra concepção de PS? Haveria alguma outra maneira de fazê-lo sendo ajustado ao conceito do segundo passo? A literatura nos sugere alguns pensamentos a respeito:

  • NA OPINIÃO DO BILL 20, Luz proveniente de uma oração, Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras. “Guardamos como um tesouro nossa “Oração da Serenidade”, porque ela nos traz uma nova luz que pode dissipar nosso velho e quase fatal hábito de enganar a nós mesmos. No esplendor dessa oração vemos que a derrota, quando bem aceita, não significa desastre. Sabemos agora que não temos que fugir, nem deveríamos outra vez tentar vencer a adversidade, por meio de um outro poderoso impulso arrasador, que só pode nos trazer problemas difíceis de serem resolvidos. Grapevine de março de 1962″
  • Meditações para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood, 04 de Fevereiro: “Reze pela vontade, pela força e pela coragem de reavaliar honestamente o seu passado – e sua responsabilidade por ele. O espírito ouve suas súplicas para limpar a casa e colabora para trazer à luz as dores engessadas do passado, ajudando-a a se livrar delas conscientemente. Assim que sua vontade de perdoar o passado for realmente verdadeira, você verá um grande avanço de entendimento e a dor daquele passado se desvanecerá”.
  • A Linguagem da Liberdade, Melody Beattie,  30 de Dezembro: “Hoje, me entregarei à construção da fundação, da estrutura de minha vida. Se for hora de desfrutar da colocação dos toques finais, me entregarei a isso, e desfrutarei isso também. Lembrar-me-ei de ser grato ao Poder Superior que é o Mestre Construtor e apenas tem em mente meus melhores interesses, criando e construindo minha vida. Serei grato ao meu Poder Superior pelo cuidado e atenção aos detalhes em construir a fundação – embora eu às vezes ficasse impaciente. Estarei à espera da beleza do produto acabado de Deus.”

E no segundo passo descobrimos… que estamos apenas começando!

“Que comece por mim” – Lema de AA

O CoDependente diante do outro

“Sou capaz de ouvir sem dar conselhos”. – Afirmação de CoDependentes Anônimos

Em programas de recuperação baseados em Doze Passos, cada indivíduo que vier a integrar algum de seus inúmeros grupos encontrará um desafio específico. Quer seja se tratando de adictos químicos, comportamentais, codependentes ou outros; não há a ilusão de que as questões de um sejam necessariamente mais fáceis de se “resolver” do que de outros.

Para quem está de fora de um programa como esse, tal impressão se relaciona às vezes em considerar que questões de foro íntimo capazes de levar a consequências legais – tais como prisão ou processo ou mesmo a condenação moral aberta da maioria – sejam necessariamente mais difíceis de lidar do que aqueles que lutam com questões relacionadas às emoções, por exemplo. Quem está nas salas provavelmente conhecerá pelas próprias experiências o quão difícil possa ser a superação de quase todos os quadros mesmo diante de muita disciplina. E disciplina é algo que nem todos dispõem, nem todo mundo gosta, dá trabalho e de fato, exige muito daqueles que se dispõem a dominá-la. Toda e qualquer recuperação toma tempo e esforço, muito mais tempo e esforço do que normalmente se gostaria de admitir.

Neste post será considerado as dificuldades de relacionamentos entre o adicto – seja ele químico ou comportamental ou outro fator gerador de estresse – e seu espelhamento codependente. Quem poderia ser um codependente? Pais, filhos, irmãos (ou outros familiares próximos), os relacionamentos sexo-afetivos (cônjuges, namorados, amantes, etc), amigos íntimos; enfim, se pararmos para pensar bem há MUITO mais pessoas codependentes em escala planetária do que pessoas adictas ou “com problemas” de uma forma geral. Mas, como os adictos geralmente possuem seus problemas catalogados em artigos penais, é tão mais conveniente apontá-los como os grandes causadores de problemas. Se isso for de fato uma verdade, eles nunca o são sozinhos.

Seria possível escrever muito a respeito dos aspectos conflituosos da relação entre codependentes e adictos sem que alguém “de fora” fosse capaz de alcançar o cerne do problema. Na verdade, é o mais comum de se encontrar: excelentes textos da temática codependência e dependência emocional para quem já os estuda e interpreta há bastante tempo, mas um tanto “nebulosos” para quem ainda está começando seus primeiros passos no Programa – ou ainda nem sequer começaram – ou sabem que poderiam se beneficiar de um.

Então o recurso desse post será reproduzir o trecho de um livro chamado “Ame a Realidade” da autora Byron Katie. Esse livro está esgotado e somente consegui meu exemplar através da “busca por raridades” da plataforma de revenda de livros usados Estante Virtual. Tal obra NÃO CONSTITUI LITERATURA ENDOSSADA de grupos anônimos mas apresenta uma passagem interessante sobre o diálogo de duas mães a respeito de suas filhas adictas. De suas 322 páginas, 5 folhas estão reproduzidas aqui. É o mais claro que há para se ilustrar a questão para quem estiver dando seus primeiros passos em conhecer a literatura de codependência.

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“O único comportamento sobre o qual tenho algum controle é sobre o meu mesmo”. – Afirmação de CoDependentes Anônimos

Serenidade x Carnaval

Se pode não ser fácil manter a sobriedade no período de festas familiares como as do final de ano (Ação de Graças no exterior, Natal e Réveillon) a chegada do Carnaval exercerá uma certa influência sobre as escolhas daqueles que estão em programas de recuperação baseado em Doze Passos.

Carnaval é o mais longo período de festejos no Brasil, com sua comemoração iniciada semanas antes de sua data oficial e encerrado somente dias após seu término no calendário. É muito tempo para lidar, pois é também é a data com a maior concentração de uso, abuso e incentivo social e cultural ao exagero de alguns comportamentos e substâncias mais influenciadores de humores o possível: álcool, euforia, cigarro, drogas, sexo, gastos; ciúmes, brigas e rompimentos em relacionamentos; sentimentos depressivos de quem não tem “turma”, as tentativas de controle sobre as atitudes dos filhos… uma longa lista. Tudo intenso e com apelo para ainda mais.

Para quem está em recuperação, talvez a sensação seja de se desviar de um verdadeiro “campo minado”. Agrava o fato de nem todas as pessoas estarem em recuperação, o que significa que pessoas com absoluto desconhecimento de suas adicções ou problemas comportamentais estarão se exaltando ainda mais. É muita, muita adrenalina, que proporciona toda a intensidade da festa e igualmente a intensidade de seus possíveis problemas.

Carnaval: as Dúvidas

  • Conseguirei me divertir sem perder o domínio diante do álcool, drogas ou cigarro?
  • Conseguirei me divertir sem perder o domínio de mim diante do ciúme sobre aqueles que me acompanham?
  • Conseguirei me divertir sem comer em excesso ou não me alimentar?
  • Conseguirei me divertir saudavelmente em grupo?
  • Se estou só, manterei o equilíbrio estando em casa ou na rua ou buscando companhia adequada para sair? A alegria dos grupos unidos será alvo de minha admiração – em vez de minha frustração?
  • Conseguirei manter minhas finanças em dia apesar dos festejos?
  • Conseguirei manter minha saúde e autoestima diante de meus comportamentos sexuais?

Carnaval: “Modo de Fuga”

  • Algumas pessoas optam em se refugiar em retiros organizados por suas irmandades anônimas.
  • Outros já preferem retiros religiosos ou de meditação.
  • Há quem fuja do tumulto das ruas viajando para locais sem festejos.
  • Há quem simplesmente se recuse a sair de casa realizando “maratonas” de filmes e séries na tv e internet.

Carnaval: “Tamo junto”

  • Sair na companhia de parceiros de recuperação.
  • Chamar a família e amigos para casa ou aceitar convites.
  • Aproveitar os dias de feriado e fazer maratona de recuperação indo a várias salas eventualmente abertas.

Ferramentas de recuperação vitais nesse período

  • Número do telefone do padrinho ou madrinha acessível.
  • Endereços de salas que funcionem excepcionalmente no período.
  • Participar de pequenos grupos fechados de Facebook ou listas de Whatsapp exclusivas de pessoas em recuperação com quem possa conversar alternadamente com aquelas que conheça pessoalmente e possua afinidade.

Só por hoje, tudo vai dar certo!

 

 

Prestar Serviço e os Conceitos

“Bons líderes de serviço, bem como métodos sólidos e adequados para a sua escolha são, em todos os níveis, indispensáveis para o nosso funcionamento e segurança no futuro”.
9º Conceito de AA

Como modelos de conceitos para grupos anônimos brasileiros disponíveis na internet hoje encontramos dois modelos bastante distintos: os Conceitos de Alcoólicos Anônimos que apresenta a complexidade de uma estrutura que expandiu mundialmente de uma forma muito ampla e os Conceitos de MADA RJ que ainda estão em uma fase inicial de elaboração.

Explica-se que essas diferenças, inclusive da maioria das irmandades anônimas nem sequer possuírem uniformemente todo o conjunto de normativas e ferramentas de recuperação, não devem ser confundidas como “desorganização” das mesmas; mas explicadas que alguns grupos são muito mais recentes em relação à célula-mãe que é AA – com seus mais de 80 anos de atuação – e também pelo respeito à 4ª Tradição sobre a autonomia de cada grupo em se auto-organizar a seu tempo e critérios.

Ilustraremos com os Conceitos de MADA RJ por sua simplicidade em relação à definição a respeito da prestação de serviço nos grupos.

OS DOZE CONCEITOS DE MADA
01. Para cumprir o propósito primordial da nossa Irmandade, os Grupos de MADA se juntaram para criar uma estrutura que desenvolve, coordena e mantém serviços por MADA como um todo.
02. A responsabilidade final e autoridade sobre os serviços em MADA permanecem com os Grupos de MADA.
03. Os Grupos de MADA delegam à estrutura de serviço a autoridade necessária para cumprir as responsabilidades a ela atribuídas.
04. A liderança efetiva é altamente valorizada em MADA. As qualidades de liderança devem ser cuidadosamente consideradas ao selecionar servidoras de confiança.
05. Para cada responsabilidade atribuída à estrutura de serviço, deve ser claramente definido um único ponto de decisão e prestação de contas.
06. A consciência coletiva é o meio espiritual, pelo qual convidamos um Deus amantíssimo a influenciar nossas decisões.
07. Todos os membros de um corpo de serviço arcam com responsabilidade substancial pelas decisões deste corpo e devem poder participar plenamente no seu processo de tomada de decisão.
08. A nossa estrutura de serviço depende da integridade e eficiência de nossas comunicações.
09. Todos os elementos da nossa estrutura de serviço têm a responsabilidade de considerar cuidadosamente todos os pontos de vista nos seus processos de tomada de decisão.
10. Qualquer membro de um corpo de serviço pode requerer deste corpo a retratação por ofensa pessoal, sem medo de represália.
11. Os recursos de MADA devem ser usados para promover nosso propósito primordial e devem ser administrados com responsabilidade.
12. De acordo com a natureza espiritual de MADA nossa estrutura deve ser sempre de serviço, nunca de governo.

“Como indivíduos e como irmandade, vamos certamente sofrer se deixarmos toda a tarefa do planejamento para o amanhã, nas mãos da Providência. A verdadeira Providência Divina foi dar a nós, seres humanos, uma considerável capacidade de antevisão e Ela evidentemente espera que a usemos. Naturalmente, podemos muitas vezes cometer erros de cálculo quanto ao futuro, no todo ou em parte, mas o pior é recusar-se a pensar nele.” Doze Conceitos para Serviços Mundiais, pág. 44

Prestar Serviço e as Tradições

 

NA OPINIÃO DO BILL 155, Construído por um e por muitos, “Damos graças a nosso Pai Celestial que, através de tantos amigos e através de tantos meios e canais tem nos permitido construir esse maravilhoso edifício do espírito, no qual estamos agora residindo – essa catedral, cujos fundamentos já repousam nos quatro cantos do mundo.

Em sua enorme edificação inscrevemos nossos Doze Passos de recuperação. Nas paredes laterais, os esteios das Tradições de A.A. foram colocados para nos manter em unidade até quando Deus quiser. Ansiosos corações e mãos levantaram o espiral de nossa catedral em seu devido lugar. Esse espiral leva o nome de Serviço. Que ele possa sempre estar apontado em direção a Deus”.

Quando chegamos a uma sala de reunião em que se pratica dos Doze Passos de forma anônima, logo vamos tomando conhecimento dos “Passos” em si. Porém, em dado momento é falado sobre a 7ª Tradição. O que é isso? podemos nos perguntar. Logo após, ouvimos falar sobre a 12ª Tradição? Além de Passos também tem essa Tradição? é um possível pensamento.

Nos Doze Passos conhecemos uma maneira estruturada e sucessiva de se buscar a serenidade espiritual – em nossas vidas, relacionamentos e circunstâncias. As Doze Tradições nos apresentarão uma forma harmoniosa de sustentar os relacionamentos dentro do grupo visando e viabilizando a sobrevivência do próprio grupo. Se os membros de uma irmandade anônima irão prestar serviço voluntariamente é necessário que exista uma diretriz elementar sobre a maneira como essa prestação de serviço se desenvolverá. Afinal, são pessoas de origens diferentes, até então desconhecidas, vivendo algum sofrimento pessoal interagindo por um propósito específico da manutenção funcional do grupo. É preciso uma norma de conduta que simplifique o processo e é para isso que as Tradições foram pensadas.

São elas:

AS DOZE TRADIÇÕES DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS 
 1. Nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; a recuperação individual depende da unidade de A.A.
2. Para nosso propósito de grupo, há somente uma autoridade suprema, um Deus amantíssimo que Se manifesta em nossa consciência grupo. Nossos líderes são apenas servidores de confiança; não governam.
3. O único requisito para ser membro de A.A é o desejo de parar de beber.
4. Cada Grupo deve ser autônomo, salvo em assuntos que digam respeito a outros Grupos ou a A.A. em seu conjunto.
5. Cada Grupo é animado por um único propósito primordial – o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre.
6. Nenhum Grupo de A.A. deverá jamais emprestar o nome de A.A. endossar ou financiar qualquer sociedade ou empreendimento alheio à Irmandade, a fim de que problemas de dinheiro, propriedade e prestígio não nos afastem do nosso objetivo primordial.
7. Todos os Grupos de A.A. deverão ser totalmente autossuficientes, rejeitando quaisquer doações de fora.
8. Alcoólicos Anônimos deverá manter-se sempre não-profissional, embora nossos centros de serviços possam contratar funcionários especializados.
9. A.A. como tal jamais deverá ser organizado podemos, porém, criar juntas ou comitês de serviço diretamente responsáveis perante aqueles a quem prestam serviços.
10. Alcoólicos Anônimos não opina sobre questões que lhe são alheias; portanto, A.A. jamais deverá aparecer em controvérsias públicas.
11. Nossa política de relações públicas baseiam-se na atração em vez da promoção; precisamos sempre manter o anonimato pessoal na imprensa, no rádio e em filmes.
12. O anonimato é o alicerce espiritual de todas as nossas Tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades.
 (Direitos autorais de The A.A. Grapevine, Inc; como publicado em aa.org.br)
Observando a união e continuidade do grupo acima dos interesses individuais. Esclarecendo preferência pela organização interna baseada na prestação de serviço voluntário temporariamente alternado e a tomada de decisão baseada em votações que permitam que o Poder Superior se manifeste. Isentando de regras de admissão e controle de seus membros e assim viabilizando a permanência de seus participantes. Esclarecendo a autonomia dos grupos e seu único papel de prestar mútua ajuda ao participante que ainda sofre. Solicitando doações exclusivamente entre seus membros e – ainda assim – limitadas às possibilidades de cada um. Determinando o anonimato como alicerce espiritual do programa e de conduta geral.
A existência e respeito às Tradições garantem a perpetuação de nosso Programa. As Doze tradições talvez não se assemelhem a uma ferramenta de recuperação, mas são elas o fundamento para que tudo o mais ocorra apropriadamente: para o grupo, para a reunião, para cada um; em todas 24 horas.
“Não é somente a alguns que devemos o notável desenvolvimento de nossa unidade e de nossa capacidade de levar a mensagem de A.A. a todos os lugares. Devemos a muitos; na verdade, é ao trabalho de todos nós que devemos essas maravilhosas bênçãos”.
1 – A.A. Atinge a Maioridade, pág. 209, 2 – Palestra de 1959
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