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Notas sobre a Aceitação

Este mês, junho de 2018, completo 4 anos em salas anônimas do programa de doze passos para reabilitação de uma depressão que sofri no ano de 2014. Logo que comecei a frequentar o programa algumas coisas que me iam sendo apresentadas me chocavam profundamente:

  • Porque EU estava ali? Eu sempre havia sido uma pessoa certinha e seguido as regras sociais. Tudo o que fiz e realizei na vida era muito similar ao que a maioria das outras pessoas ao meu redor também haviam feito e realizado. Por que afinal meus resultados eram tão diferentes e desastrosos? Porque semeei “igual” na vida e agora colhia tão diferente, meu Deus?
  • Pesquisei sobre uma determinada sala anônima e comecei a frequentá-la por livre e espontâneo desespero de não saber bem o que fazer mas reconhecer que precisava de alguma ajuda.
  • Me lembro do choque inicial de começar a ouvir tantas expressões e jargões aos quais nunca havia ouvido falar. “Onde essa gente se esconde quando não está aqui”, eu pensava. Durante a vida eu havia lido tantos livros e revistas, assistido tanta tv e filmes, como eu podia não conhecer nada daquilo?
  • Mas nada me fazia ferver mais de ódio e indignação do que cada companheir@ que se aproximava amorosamente de mim e tentava me falar algo sobre “aceitação”. “Quem quer saber desse lixo de aceitação” eu pensava. Era algo impossível, muito além de minha compreensão. “Se fosse pra ter aceitação eu nem teria saído de casa”.
  • Mas como continuava sem saber que fazer e querendo melhorar, continuei voltando.

Site de NA: “A nossa experiência com a adicção é que, quando aceitamos que ela é uma doença sobre a qual somos impotentes, tal aceitação fornece uma base para a recuperação através dos Doze Passos. A quantidade de membros de NA vivendo livres da adicção activa mostra que esta filosofia tem funcionado para nós”. [http://www.na-pt.org/recurso/adicao1.php]

Bill (William Griffith Wilson): “A aceitação e a fé são capazes de produzir cem por cento de sobriedade. De fato, elas geralmente conseguem; e assim deve ser, caso contrário, não poderíamos viver. Mas a partir do momento em que transferimos essas atitudes para nossos problemas emocionais, descobrimos que só é possível obter resultados relativos. Ninguém pode por exemplo, se livrar completamente do medo, da raiva e do orgulho. Conseqüentemente, nesta vida não atingiremos uma total humildade nem amor. Assim, vamos ter que nos conformar, com referência à maioria de nossos problemas, pois um progresso muito gradual, às vezes é interrompido por grandes retrocessos. Nossa antiga atitude de “tudo ou nada” terá que ser abandonada”. [NA OPINIÃO DO BILL 6, Tudo ou nada? Grapevine de março de 1962]

Melody Beattie: “O que precisamos para nos entregar e para deixar correr? De nosso passado, presente e futuro. De nossa raiva, ressentimentos, medos, esperanças e sonhos. De nossos fracassos, sucessos, ódio, amor e desejos. Deixamos livres nossas urgências, nossos desejos, tristezas e alegrias. Deixamos livres nossas antigas mensagens, nossas novas mensagens, nossos defeitos de caráter e nossas qualidades. Deixamos livres as pessoas, as coisas e, às vezes, à nós mesmos. Precisamos deixar livres as mudanças, mudando; a natureza cíclica do amor, recuperando-se; e a própria vida”. [Livro Para além da codependência, página 130]

Site de JA: “Hoje, tentarei aceitar menos do que achava ser possível, ficando disposto não somente a aceitar, mas também a apreciar. Hoje, não vou esperar demasiado de alguém – muito menos de mim. Vou tentar lembrar que a satisfação vem de aceitar graciosamente as coisas boas que recebemos, e não ficar furioso com a vida porque ela não é melhor. Já entendi a diferença entre resignação e aceitação realista”? [https://sites.google.com/site/jaumdiadecadavez/julho]

Robin Norwood: “É a aceitação do outro exatamente como realmente ele é que permite a ele mudar se assim desejar”. [Livro Meditações diárias…, 17 de outubro]

Site de AA: “A aceitação libera a iniciativa, aliviando-a das “cargas impossíveis”, transferindo o foco da ação para o “possível”. A ACEITAÇÃO é um ato do LIVRE ARBÍTRIO, mas, para ser eficaz, requer a CORAGEM moral de se persistir apesar do problema imutável. A aceitação liberta o aceitante, rompendo-lhe as cadeias da autopiedade. Uma vez que aceitamos o que não pode ser modificado, ficamos livres emocionalmente e psicologicamente para nos empenhar em novas atividades. Foi dito que uma mente imatura procura um mundo idealístico. Queiramos ou não, precisamos encarar o mundo da realidade e aceitar a vida tal qual ela é, com todas as suas crueldades e inconsistências”. [http://www.aa.org.br/serenidade]

Site de CCA: “O que você VAI encontrar nas reuniões é o seguinte: Aceitação de você como você é agora, como você era, como você vai estar”. [http://www.comedorescompulsivosrs.com.br/como-e-uma-reuniao]

Patrick Carnes: “Quando chega a aceitação final e o dependente sente que é vulnerável, humano, comum, igual aos outros, pode iniciar-se uma mudança notável. Como parte da aceitação, os dependentes precisam admitir claramente a extensão do comportamento compulsivo. A consciência da dependência irá se expandindo e aprofundando por muitos anos, mas nesse primeiro estágio é importante que eles percebam as linhas gerais do comportamento e saibam que a compulsão não atua apenas nisso. Precisam entender que ela envolve crenças, atitudes e pensamentos distorcidos que preservam a negação e a ilusão. Com essa aceitação crescente, os dependentes entram na fase de reparação”. [Livro Isto não é amor, página 198]

Entrei em uma sala de doze passos, aos 33 anos de idade, muito mal e com muita vergonha. Celebro agora meus 37 anos de vida tendo com resultado dos 4 anos de recuperação: a conclusão de duas graduações e ainda fiz outros cursos relevantes, incluindo um mestrado. Expandi minha atuação no meu emprego (eu quase o havia perdido). Adotei o budismo, vegetarianismo e ateísmo, algo realmente radical para quem eu costumava ser. Escrevi uns oito e-books além de poemas, músicas, ter 4 artigos acadêmicos publicados e blogs. Esse próprio blog, em seis meses, já ultrapassou 20 mil visualizações vindas de países de todo o mundo. Se comparo os 4 anos de recuperação atuais com meus 33 anos de vida anterior, parece que havia só um nada absoluto por mais de três décadas. Hoje frequento menos as irmandades anônimas mas permaneço na terapia individual regular. Mas foi somente há pouco mais seis meses que tive um sentimento e aceitei tudo o que havia vivido COM ALEGRIA. Em meus passos, já não acredito que a aceitação conduza até a serenidade mas que aceitação é a própria serenidade. Se a “aceitação” parece impossível para você, do fundo do coração, só posso lhe dizer que ainda assim ela é possível de ser alcançada.