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QUINTO PASSO – MAIO

Quinto Passo do programa de recuperação de AA –  “5. Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas”.

Depois do quarto passo, em que fixamos num papel nossa história de vida que nos conduziu à nossa situação atual que necessitou o auxílio de um programa de recuperação (nesse caso, baseado em AA como célula-mãe) seguimos com nosso processo de reprogramação pessoal com foco na serenidade atuando com o Quinto Passo.

No 5º passo, já cientes de nosso próprio papel e responsabilidade sobre nossa biografia, nos direcionamos à tarefa de aprender a conviver com aquele passado de forma digna e harmoniosa. E como fazemos isso? Conversando sobre nossas descobertas registradas no Quarto Passo com uma outra pessoa.

Falar quase sempre é libertador. É comum falarmos com líderes espirituais sobre o que nos aflige. Falamos quando partilhamos nas reuniões de salas anônimas. Falamos quando desabafamos pelo telefone com um amigo de confiança ou familiar em um momento difícil. Falamos nas psicoterapias com profissionais de saúde especializados. Se falamos espontaneamente ou em consultas, não importa, conhecemos e sentimos uma certa melhora seja no curto ou longo prazo. Falar acalma.

Porém, conversar sobre assuntos pessoais delicados requer cautela para que recebamos a serenidade e cura interior almejada ao invés de criarmos ainda mais problemas a serem somados como vergonha, arrependimento ou exposição à chantagens. Por isso, os diversos tipos de Programas de Doze Passos ofertam algumas sugestões de modo geral:

  • Ler seu quarto passo para um padrinho ou madrinha de programação com quem já conviva e confie.
  • Ler com um@ companheir@ de programação em um quinto passo em dupla (prática também conhecida como co-apadrinhamento).
  • Ler para um psicoterapeuta.
  • Ler para um líder religioso de sua escolha que tradicionalmente já possua tal prática.
  • NUNCA LER para familiares e amigos de fora da programação anônima para evitar os chamados “retornos” (pitacos, palpites, opiniões, censuras) em uma hora tão vulnerável para quem lê o 4º passo que possa vir a se sentir constrangid@ e pense em desistir de prosseguir com a reabilitação (seja ela química, emocional ou comportamental).
  • NUNCA LER para cônjuges, namorad@s, casos ou amantes pois o amor pode um dia acabar, o amor pode ser unilateral, o amor pode talvez já ter até saído de cena sem que o confessor tenha notado em seu processo de confusão de vida momentâneo e deixar em mãos alheias uma artilharia emocional fatal a ser utilizada contra o confessor em futuros e inesperados escândalos familiares ou públicos além de poder ser levado à justiça contra pedidos de guarda de filhos, por exemplo. APRENDER A SE POUPAR FAZ PARTE DO PROCESSO DE RECUPERAÇÃO. Além do mais, confessar segredos íntimos para alguém na esperança de reforço ou criação de laços afetivos constitui comportamento manipulador o que está longe de ser uma atitude amorosa com @ outr@.

Bem, escrevemos o Quarto Passo. Escolhemos alguém de confiança que nos ouça abertamente. Elegemos um dia e hora para realizar nosso Quinto Passo de recuperação – seja ela qual for. Então que tipo de resultado talvez encontremos de nossa ação em relação ao Quinto Passo que talvez possa nos ajudar?

  • Ouvimos nós mesmos contando nossa própria história o que reafirma nossa responsabilização pelo surgimento dos problemas atuais e reforça a necessidade de que os atos de cura e reparação também partam de nós.
  • Encerra a estratégia comum de tentar sufocar o que nos aflige através da negação e do silêncio; o que alimenta as brasas de nossos problemas subconscientes que poderão emergir como ações de auto sabotagens às quais nos prejudicarão ainda mais. Encerra muito da ansiedade e comportamentos hipócritas que adotamos para agir em relação aos outros quando não estamos em paz com nós mesmos.
  • A velha estratégia do “guardar segredos para si”, em algum momento pode nos derrubar ao sermos emocionalmente fragilizados por alguma razão e desabafarmos inesperadamente com desconhecidos, com patrões ou colegas de trabalho ou pessoas que não partilham de um respeito sincero por nós e nos oferecem em momentos críticos um “ombro amigo” em troca da satisfação da própria curiosidade. Isso representa somar mais auto sabotagem contra nós mesmos agravando problemas pessoais com fofocas e críticas ao invés de saná-los. Quando esse tipo de coisa acontece é quase como se a pessoa “vomitasse” um quinto passo de um quarto passo não escrito nos ouvidos de qualquer oportunista. O resultado só pode ser um desastre! Melhor encarar a programação honesta e seriamente e aprender a gerir os próprios medos e realizar ações capazes de equilibrar os sentimentos de uma vez preservando sua imagem pessoal e melhorando a imagem social. Nossa autoestima depende de cuidados como esse também.
  • Se no Quarto Passo ficamos nus, no Quinto Passo nos olhamos de frente no espelho.
  • Em programação de doze passos nossos “espelhos” são os outros companheiros, daí a necessidade lógica da partilha com outra pessoa de confiança.

“O remédio sai pela boca e entra pelo ouvido” – frase popular em salas de doze passos.

Quarto Passo – Abril

Quarto Passo do programa de recuperação de AA – “4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”.

“Pegamos os olhos de outra pessoa e olhamos para nós mesmos. Enxergamos apenas aquilo que estamos trabalhando, como temos sido afetados, o que estamos fazendo, quais são nossas características, e escrevemos num pedaço de papel o que vemos” Melody Beattie, Codependência Nunca Mais, pg 222.

Iniciados os três primeiros passos (admissão, entrega e confiança em um Poder Superior), começasse a vislumbrar a realização do Quarto Passo. São comuns nessa fase reações do tipo:

  • Uns se assustam e simplesmente não o fazem. Diria até que muitos!
  • Outros o fazem correndo logo ao chegar nas salas ”pra ver se resolve logo”.
  • Há quem o faça com o auxílio de um padrinho ou madrinha. Ou um terapeuta.
  • E sempre tem aqueles que ”é claro que irão fazer” – mas, passadas muitas 24 horas, nunca fizeram.

Seja qual for a atitude diante do 4º passo, algo é certo: não é um passo tranquilo para quase todo mundo que segue o programa de doze passos.

  • Nossa cultura não nos estimula a ler, muito menos a escrever. ”Vou fazer redação com essa idade?”
  • Parece que iremos produzir provas contra nós mesmos em momentos delicados da vida em que só queríamos ser amparados.
  • Como colocar décadas de acúmulo de problemas pessoais em um pedaço de papel? Por onde começar?
  • Convence-se de que vai ser demorado de fazer, ”estou sem tempo para isso”… aí, a pessoa lê sobre o 4º passo, partilha sobre o 4º passo, ouve falar do 4° passo sem nunca o fazer de realmente.

O quarto passo desperta tanta controvérsia nas pessoas que é comum que cada irmandade anônima disponha de literatura endossada de auxílio aos seus participantes. Também há publicações independentes de auxílio ao Quarto Passo:

Minha visão é a de que ninguém “faz um quarto passo”. Ao aderirmos de boa vontade ao programa de recuperação de dependências baseado em AA, nos tornamos pessoas que “praticam o quarto passo” assim como se pratica yoga ou caminhada, ou seja, de forma regular.

  • A primeira vez que se escreve um quarto passo podemos ficar extremamente focados no problema do momento –  e não em nós mesmos holisticamente.
  • A primeira vez que se escreve um quarto passo podemos ficar extremamente focados em acusar outras pessoas  –  e não em nós mesmos holisticamente.
  • A prática regular de escrita reflexiva pode ajudar a superar velhas mentiras que nos acostumamos a contar a nosso respeito.
  • A prática regular de escrita reflexiva pode nos estimular a realizar “quartos passos específicos” observando nosso próprio histórico, comportamentos e pensamentos diante de relacionamentos, adicções, no ambiente de trabalho e familiar e outras situações pertinentes.

Leve uma caneta e um caderno a um local tranquilo (em casa sozinh@, biblioteca, parque) e… comece!

“NA OPINIÃO DO BILL 173, As raízes da realidade: “Iniciemos um inventário pessoal, o Quarto Passo. Sem fazer um inventário periódico, um negócio geralmente vai à falência. Fazer um inventário comercial é um processo que consiste em conhecer e enfrentar os fatos. É um esforço para se descobrir a verdade sobre a mercadoria em estoque. Um dos objetivos é revelar os bens danificados ou que não têm condições de serem vendidos, de desfazer-se deles logo, sem pesar. Para que o dono do negócio seja bem-sucedido, ele não pode se enganar a respeito dos valores. Tínhamos que fazer exatamente a mesma coisa com nossas vidas. Tínhamos que fazer um inventário com honestidade”, “Tenho excelentes razões para saber como os momentos de percepção podem construir uma vida inteira de serenidade espiritual. As raízes da realidade, suplantando as ervas daninhas neuróticas, vão promover uma base firme, apesar do furacão das forças que nos destruiriam ou que usaríamos para nos destruir”. 1 – Alcoólicos Anônimos, pág. 78, 2 – Carta de 1949

“Vício em sexo não existe…”

“…você que é recalcad@!” #sqn

Fulan@ gosta mais de sexo do que a média, é uma característica pessoal ser mais sensual que a maioria das outras pessoas. Outr@ Fulan@ gosta mais de algo que lhe dê um barato do que a média, é uma característica pessoal curtir mais a adrenalina que a maioria das outras pessoas.

Fulan@ deu azar e se casou que alguém que não gosta de transar (enlouquecidamente e perdoando traições) e por isso precisa de umas escapadinhas mais compreensivas. Outr@ Fulan@ deu azar e se casou que alguém que não gosta de curtir um barato (o dia inteiro, todos os dias) e por isso precisa de umas escapadinhas mais compreensivas.

Para sustentar a adicção em sexo, Fulan@ passou a mentir compulsivamente. Para sustentar a adicção em tóxicos, Outr@ Fulan@ passou a mentir compulsivamente.

Fulan@ arrumou um emprego muito peculiar que faz com que trabalhe em horários alternativos ou viaje bastante passando longos períodos fora de casa o que justifica suas variadas aventuras sexuais justificadas pela solidão que seu trabalho lhe impõe. Outr@ Fulan@ arrumou um emprego muito peculiar que faz com que trabalhe em horários alternativos ou viaje bastante passando longos períodos fora de casa o que justifica suas variadas compras e uso de novas substâncias  justificadas pela solidão que seu trabalho lhe impõe.

Fulan@ se enche de ressentimento e raiva a cada pedido familiar para que seja alguém com mais ajustamento diante da vida. Outr@ Fulan@ se enche de ressentimento e raiva a cada pedido familiar para que seja alguém com mais ajustamento diante da vida.

Fulan@ se apaixonova tanto e por outro lado suas aventuras extra-relacionamentos lhe tomavam tanto tempo e traziam tantos transtornos à sua rotina pessoal que acabou por abandonar os estudos sem retomar seu desenvolvimento. Outr@ Fulan@ usava de tantas substâncias que suas aventuras químicas lhe tomaram tanto tempo e trouxeram tantos transtornos à sua rotina pessoal que acabou por abandonar os estudos sem retomar seu desenvolvimento. 

Fulan@, colocou notificações ativas de seus apps de sexo/encontros/relacionamentos em seu smartphone para não perder uma! Outr@ Fulan@, colocou ringtones específicos de seus fornecedores em seu smartphone para não perder uma!

Fulan@ gosta muito de seu filho mas passa tanto tempo fora de casa em envolvimento em romances, flertes e casos que mal o vê ou contribui materialmente para seu desenvolvimento. Outr@ Fulan@ gosta muito de seu filho mas passa tanto tempo fora de casa em envolvimento em raves, baladas ou simplesmente chapado que mal o vê ou contribui materialmente para seu desenvolvimento.

Otários trabalham para viver, mas Fulan@ trabalha para transar enquanto que Outr@ Fulan@ trabalha pra comprar “um negocinho”.

Fulan@ viu o amor de seus familiares ser gradualmente substituído por um Triângulo de Karpman infernal que somente os afasta cada vez mais levando a conviver ainda mais intensamente o sexo. Outr@ Fulan@ viu o amor de seus familiares ser gradualmente substituído por um Triângulo de Karpman infernal que somente os afasta cada vez mais levando a conviver ainda mais intensamente as drogas.

Fulan@, para arrumar um emprego melhor, se mudou para uma cidade distante longe das críticas de seus familiares a respeito de sua conduta sexual exótica. Outr@ Fulan@, para arrumar um emprego melhor, se mudou para uma cidade distante longe das críticas de seus familiares a respeito de sua conduta de uso de tóxicos exótica.

Fulan@ até que tenta ter uma vida social e cultural, mas tudo é tão tedioso! Outr@ Fulan@ até que tenta ter uma vida social e cultural, mas tudo é tão tedioso!

Fulan@ descobriu que seu cargo profissional valorizado é um excelente fator de sedução entre outros funcionários e pessoas que circulam ao redor da empresa. Outr@ Fulan@ descobriu que seu cargo profissional valorizado é um excelente fator de livramento de sanções penais mais comuns a outras pessoas vivendo sua mesma situação.

Fulan@ quando fica algum tempo sem transar começar a sentir umas sensações tão estranhas que pensa estar acontecendo algo grave consigo. Outr@ Fulan@ quando fica algum tempo sem “usar” começar a sentir umas sensações tão estranhas que pensa estar acontecendo algo grave consigo.

Fulan@, vive intensamente o sexo em sua vida pessoal e seus passatempos incluem apps de encontros e pornografia e prostituição e outras formas de subculturas sexuais super sofisticadas das quais se orgulha muito. Acredita ser um privilégio da vida ser “hedonista” ao contrário do resto das pessoas que não passam de uns otários. Outr@ Fulan@, vive intensamente os narcóticos em sua vida pessoal e seus passatempos incluem bate-papo com outros usuários e idas a bocas de fumo e compras com “aviões” que lhe trazem produtos de morros ou do exterior e outras formas de subculturas da “nóia” super sofisticadas das quais se orgulha muito. Acredita ser um privilégio da vida ser “hedonista” ao contrário do resto das pessoas que não passam de uns otários.

Fulan@ já precisou de ajuda médica ou usar remédios por conta de seu sexo. Outr@ Fulan@ já precisou de ajuda médica ou de internação por conta de seu vício.

Fulan@, quando termina um relacionamento ou não consegue o que quer, retorna fúria e agressividade principalmente contra sua família! Outr@ Fulan@, quando acaba o bagulho ou não consegue o que quer, retorna fúria e agressividade principalmente contra sua família!

Fulan@ curte músicas/filmes/séries que só falam de sacanagem. Outr@ Fulan@ curte músicas/filmes/séries que poderiam ser um caso de Justiça.

Fulana é a esposa de Fulano. Para garantir a fidelidade de Fulano exige com ele sexo diário, compra revistas femininas com “dicas de novidades” que às vezes lhe parecem toscas mas que sempre não custam experimentar, faz compras regulares em sex-shops, praticamente não convive com amigos e família porque julga que o sexo com o marido deve ser mais prioritário que cafonices de calendário, possui uma gaveta de lingerie que custaram mais caro que as roupas que costuma ir trabalhar, parou de estudar e de trabalhar para ser uma esposa mais dedicada e sempre estar disponível para o romance com ele, vasculha secretamente a vida eletrônica de fulano para evitar interferências de “outras” e tem certeza de que se um dia Fulano lhe abandonar será seu fim. Quando acha que tem alguma outra mulher seduzindo seu marido percebe que com certeza ainda não tentou de tudo com ele – briga horrores e então se vinga com outro homem ou agenda um menáge em uma casa de swing! Outra Fulana é a esposa de Outro Fulano. Para garantir a fidelidade de Outro Fulano exige “usar” só com ele, procura pela internet “dicas de novidades” que às vezes lhe parecem toscas mas que sempre não custam experimentar, faz compras regulares de narcóticos para adiantar o lado dele, praticamente não convive com amigos e família porque julga que o “uso” com o marido deve ser mais prioritário que cafonices de calendário, possui uma gaveta de bagulhos que custaram mais caro que as roupas que costuma ir trabalhar, parou de estudar e de trabalhar para ser uma esposa mais dedicada e sempre estar disponível para o barato com ele, vasculha secretamente a vida eletrônica de fulano para evitar interferências de “outras” e tem certeza de que se um dia Outr@ Fulan@ lhe abandonar será seu fim. Quando acha que tem alguma outra mulher seduzindo seu marido percebe que com certeza ainda não tentou de tudo com ele – briga horrores e então agenda um mochilão pra experimentar o Santo Daime ou vai pra  Holanda!

As horas sem sexo são cinzentas para Fulan@. As horas sem drogas são cinzentas para Outr@ Fulan@. Só os otários ficam falando dessa tal alegria de viver.

“Devido aos Doze Passos, não consigo mais manter as velhas formas de me enganar.” Meditação Diária de Narcóticos Anônimos, 06 de março, Basic Text, p. 176

O CoDependente diante do outro

“Sou capaz de ouvir sem dar conselhos”. – Afirmação de CoDependentes Anônimos

Em programas de recuperação baseados em Doze Passos, cada indivíduo que vier a integrar algum de seus inúmeros grupos encontrará um desafio específico. Quer seja se tratando de adictos químicos, comportamentais, codependentes ou outros; não há a ilusão de que as questões de um sejam necessariamente mais fáceis de se “resolver” do que de outros.

Para quem está de fora de um programa como esse, tal impressão se relaciona às vezes em considerar que questões de foro íntimo capazes de levar a consequências legais – tais como prisão ou processo ou mesmo a condenação moral aberta da maioria – sejam necessariamente mais difíceis de lidar do que aqueles que lutam com questões relacionadas às emoções, por exemplo. Quem está nas salas provavelmente conhecerá pelas próprias experiências o quão difícil possa ser a superação de quase todos os quadros mesmo diante de muita disciplina. E disciplina é algo que nem todos dispõem, nem todo mundo gosta, dá trabalho e de fato, exige muito daqueles que se dispõem a dominá-la. Toda e qualquer recuperação toma tempo e esforço, muito mais tempo e esforço do que normalmente se gostaria de admitir.

Neste post será considerado as dificuldades de relacionamentos entre o adicto – seja ele químico ou comportamental ou outro fator gerador de estresse – e seu espelhamento codependente. Quem poderia ser um codependente? Pais, filhos, irmãos (ou outros familiares próximos), os relacionamentos sexo-afetivos (cônjuges, namorados, amantes, etc), amigos íntimos; enfim, se pararmos para pensar bem há MUITO mais pessoas codependentes em escala planetária do que pessoas adictas ou “com problemas” de uma forma geral. Mas, como os adictos geralmente possuem seus problemas catalogados em artigos penais, é tão mais conveniente apontá-los como os grandes causadores de problemas. Se isso for de fato uma verdade, eles nunca o são sozinhos.

Seria possível escrever muito a respeito dos aspectos conflituosos da relação entre codependentes e adictos sem que alguém “de fora” fosse capaz de alcançar o cerne do problema. Na verdade, é o mais comum de se encontrar: excelentes textos da temática codependência e dependência emocional para quem já os estuda e interpreta há bastante tempo, mas um tanto “nebulosos” para quem ainda está começando seus primeiros passos no Programa – ou ainda nem sequer começaram – ou sabem que poderiam se beneficiar de um.

Então o recurso desse post será reproduzir o trecho de um livro chamado “Ame a Realidade” da autora Byron Katie. Esse livro está esgotado e somente consegui meu exemplar através da “busca por raridades” da plataforma de revenda de livros usados Estante Virtual. Tal obra NÃO CONSTITUI LITERATURA ENDOSSADA de grupos anônimos mas apresenta uma passagem interessante sobre o diálogo de duas mães a respeito de suas filhas adictas. De suas 322 páginas, 5 folhas estão reproduzidas aqui. É o mais claro que há para se ilustrar a questão para quem estiver dando seus primeiros passos em conhecer a literatura de codependência.

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“O único comportamento sobre o qual tenho algum controle é sobre o meu mesmo”. – Afirmação de CoDependentes Anônimos

O Triângulo de Karpman

“30 de janeiro – Para muitas de nós, o tratamento de recuperação consiste em aprender a fazer exatamente o oposto do que sempre fizemos.” – Meditações Diárias para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood

O programa de recuperação de dependências baseado em Doze Passos é realizado por leigos dispostos a colaborar entre si. É gratuito, exige anonimato de seus participantes e é um local onde evita-se dar conselhos (mais conhecidos como o jargão “dar retorno”). Basicamente, um grupo de mútua ajuda anônima é o avesso do que a psicoterapia normalmente oferta.

Então, porque abordar o Triângulo de Karpman (TK) neste site? Pois a princípio o TK seria de interesse de terapias individuais tradicionais. Vamos deixar essa explicação por conta da autora norte-americana Melody Beattie em seu livro “Codependência Nunca Mais” que faz parte de literaturas endossadas de diversos grupos anônimos.

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Uma representação bastante básica e clássica de como se desenvolve um diálogo típico entre pessoas que – inadvertidamente, é claro – estejam praticando o jogo envolvido no Triângulo de Karpman (perseguidor-salvador-vítima alternadamente) foi bem representada pela psicóloga norte-americana Robin Norwood em seu livro “Mulheres que amam demais” que inspirou a criação da irmandade MADA – Mulheres que Amam Demais Anônimas:

 

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Quanto mais se participa de reuniões de irmandades anônimas e se estuda suas literaturas endossadas mais se destaca o valor de se conhecer e evitar de praticar as representações indicadas no TK. Na verdade, o ato de conversar após se “apertar a tecla stop” da prática do jogo ou TK na vida diária significa que dialogar perde tanta carga de drama e a vida se torna tão mais simples que causa até mesmo um certo estranhamento. Que absurdo! Viver uma vida simples e sem praticar ou sofrer manipulação ser incômodo de se acostumar! É para isso e muito mais que continuamos voltando. O segredo sempre está na próxima reunião.

“É nos relacionamentos que demonstramos nossa recuperação. Cuidar bem de nós mesmos não significa evitar relacionamentos. O objetivo da recuperação é aprender como funcionar nos relacionamentos.” Para Além da Codependência, Melody Beattie.

A espiral da recuperação – Parte 2

“Há anos observo as pessoas usarem várias ilustrações para representar a recuperação ou o processo de crescimento … Já vi a recuperação ser retratada como um zigue-zague para cima e para baixo, formando picos cada vez maiores … como uma espiral de fora para dentro em círculos menores até formar um centro de estabilidade … como uma linha se movendo para cima e para baixo, formando círculos repetitivos e ascendentes… O que ainda não vi … é uma figura formada por uma linha reta e ascendente. Porque a recuperação não é assim.” Melody Beattie, Para além da codependência, página 58

No post anterior, A espiral da recuperação – Parte 1, foi explorada ideia de um progresso da serenidade espiritual em espiral. Agora, aquela mesma espiral do processo de desenvolvimento será agora analisada pela perspectiva que lhe confere suas curvas, desvios e inclinações: as recaídas.

Recaída em começo de recuperação: indesejável, imprevisível e certeira
As primeiras vezes que se ouve falar em recaídas em reuniões de grupos de doze passos percebe-se algo de misterioso no ar: alguém pode não estar presente à reunião por que recaiu. Alguém está mais tenso ou deprimido por que reconheceu ter recaído. Há uma certa tensão quase constante entre as pessoas em recair. E o que se trata de “recair”, afinal nos perguntamos em nossas mentes. Recair é um jargão das salas de irmandades anônimas para a reincidência em alguma prática que supostamente estaria sendo superada pela terapia de mútua ajuda.

  • Se um adicto começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua compulsão por certa substância (seja álcool, narcótico, remédio, cigarro, etc) e em certo momento a usa novamente; diz-se que “recaiu”.
  • Se um adicto comportamental começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua compulsão por certas atitudes (seja comportamento sexual compulsivo, jogar, compras, comer em excesso, etc) e em certo momento pratica ou retoma a ativa; diz-se que “recaiu”.
  • Se um dependente emocional começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua interação dependente e compulsiva com determinadas pessoas (seja parceria sexo-afetiva real ou platônica, pais, filhos, outras pessoas) e em certo momento age inadequadamente novamente; talvez na forma de perseguição (física, telefônica ou eletrônica) ou agressividade (violência, assédio, ameaça) ou tentativas desesperadas de salvamento (dar dinheiro, ceder moradia inadequadamente, outros), diz-se que “recaiu”.
  • Se um codependente começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua interação compulsiva com determinadas pessoas cujas atividades lhe são alvo de controle (seja parceria sexo-afetiva real ou platônica, pais, filhos, outras pessoas) e em certo momento age inadequadamente novamente; talvez na forma de perseguição (física, telefônica ou eletrônica) ou agressividade (violência, assédio, ameaça) ou tentativas desesperadas de salvamento (dar dinheiro, ceder moradia inadequadamente, outros), diz-se que “recaiu”.


Recaídas durante a recuperação: porquê?
Ao começar a frequentar um programa de Doze Passos, o indivíduo é surpreendido com muitas novidades em sua vida: o novo compromisso pessoal de ir até ao grupo escolhido em certo dia e horário, a gradual formação de um grupo de conhecidos sobre os quais vai conhecendo aos poucos, as informações novas, a vontade inicial de “mudar”, enfim; o horizonte daquele que adere ao Programa de Anônimos se enche de novidades muito rapidamente. É razoavelmente fácil de sentir melhor em um primeiro momento.

É aí onde reside a confusão. Se sentir melhor não é sinônimo de serenidade assim como estar abstêmio não é sinônimo de sobriedade. Toda essa nova vontade em mudar algum aspecto de si e todas essas novidades da Programação estão chegando e se instalando na vida de alguém que necessariamente ainda estará de algum modo vivendo como estabelecido pela “programação” de seu antigo modo de viver que potencialmente o conduziu à adicção ou dependências:

  • uma história de vida pregressa que ainda está se desenvolvendo da forma como foi estabelecida por diversos fatores não necessariamente benéficos ao sujeito;
  • com uma família ou um relacionamento sexo-afetivo disfuncional que ainda exercerá influência sobre o mesmo;
  • adquirindo produtos de mídia e culturais que o entretém enquanto lhe comunicam as mesmas velhas mensagens comerciais distorcidas de um real modo positivo de viver;
  • se a pessoa não construiu um estrutura material ao longo de sua vida (formação, carreira profissional, moradia, amparo social e financeiro, círculo social e networking, prática de hobbies e lazer, definição ou realização de sonhos, etc) ela pode ainda está à mercê de viver de maneiro errática e desestruturada;
  • Muitos outros fatores, tão relevantes quanto os citados e com relevância suficiente para até agir como “gatilhos” de compulsão.

 

Recaídas em recuperação: existe um Programa para isso!
O Programa de recuperação baseado nos Doze Passos de Alcoólicos Anônimos não é um remédio que compra, não é um evento que se vai em um final de semana e não se concretiza segundo “a vontade do freguês”. Uma boa analogia ao Programa de AA seria compreendê-lo como um aplicativo de computador ou celular. Sabe-se que a adoção estruturada de uma série de instruções descritas segundo um código de programação computacional é capaz de realizar um determinado resultado, como uma aplicativo de celular ou computador. Adotar a programação de anônimos na vida, ao final, é reprogramar a vida estruturalmente para obter como resultado específico serenidade espiritual, física e mental. Costumo estender essa definição também aos campos social, ambiental, financeiro e familiar; pois são aspectos inteiramente interdependentes se repararmos bem.

Enquanto um programador de computador elabora seus conhecimentos para gerar os algorítimos de um código de programação visando obter como resultado as tarefas de um aplicativo; aos poucos ele encontrará situações em que seu conhecimento não será suficiente e precisará aprender algo novo, aos poucos surgirão os bugs (ou falhas de programação) que também irão testar suas habilidades de trabalho individual e em equipe e o aplicativo finalizado realizará funções conforme viabilizado pelos conhecimentos – ou falta de – da parte de seus criadores.

Analogamente, o participante de grupo de mútua ajuda está obtendo novos conhecimentos nas irmandades, para gerar habilidades pessoais objetivando uma nova “programação de vida” visando obter como resultado uma vida serena distante de comportamentos de adicção e dependências. Enquanto isso acontece, aos poucos ele encontrará situações em que seu conhecimento não será suficiente e precisará aprender algo novo afim de se afastar de situações e pessoas ligadas à dependência/adicção, aos poucos ocorrerão recaídas (ou falhas em sua “programação”, literalmente!) que também irão testar suas habilidades de recuperação individual e ao lado de seus companheiros, coordenadores e padrinho/madrinha de grupo de anônimos e sua vida após certo tempo de frequência ao programa será tão diferente do modo de vida anterior conforme viabilizado pelos conhecimentos e adesão às ferramentas de recuperação – ou falta de – de seu integrante.

O importante de tudo isso é a percepção de que ninguém que frequente uma sala de terapia de grupo estará imune a recaídas, mas que elas também não irão ocorrer para todo o sempre. Confie em si e no Programa e os (bons) resultados virão a seu tempo.

“As recaídas acontecem com muitos de nós. Acontecem com pessoas que estão se recuperando há dez meses ou há dez anos. Acontecem não porque somos deficientes ou relaxados, e sim porque são uma parte normal do processo de recuperação.” Melody Beattie, Para além da codependência, página 60.