Arquivo da tag: #anonimos

Sétimo Passo – Julho

Sétimo Passo do programa de recuperação de AA –  “7. Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições”.

Ao adotarmos um programa como o de Doze Passos, pessoalmente e talvez também na esfera familiar e social, seremos cobrados por ações e atitudes. Começamos a frequentar as salas anônimas, estamos conhecendo outras pessoas em situações parecidas com as nossas (a quem assumiremos como “espelhos” de nossa recuperação), adquirimos a literatura endossada e tudo isso é visível. Estamos agindo.

Aí, bem no centro dos Doze Passos de AA, encontramos o sétimo passo com sua orientação “humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições”. Haveria um limite para agir? Haveria um limite para mudar? Se o Programa nos promete a serenidade através de uma mudança de consciência e atitudes, porque incluir um passo que nos requer paciência e até mesmo uma passividade em “rogar” algo – mesmo que seja a um Poder Superior?

As mudanças tratadas nas reuniões anônimas são de amplo espectro e profundidade espiritual. Mudar uma adicção, um comportamento nocivo ou desequilíbrios emocionais são algo que vão muito além de nossa boa intenção ou boa vontade. Se o caso for, por exemplo, algo que a palavra “mudança” nem sequer seja possível, mas “adaptação” sim. Não é como mudar de estilo de roupa ou de casa ou de emprego. É como estar mudando a essência de si mesmo!

Se você acredita que já fez muito na Programação e os resultados obtidos não estão alcançando as expectativas, talvez esse seja o momento de uma pausa nas cobranças pessoais. A hora de dizer: “Poder Superior, me mostre uma direção a seguir”. Observe: onde chegar em sua recuperação continua inteiramente a ser de sua responsabilidade definir. Mas o como… às vezes é misterioso. As possibilidades podem ser muitas ou até mesmo infinitas, mas qual delas nos cabe? Precisamos observar atenciosamente nossos resultados obtidos até então para descobrir: o que vem sempre dando certo e o que não “vingou” de jeito nenhum.

Nossas imperfeições – seja um vício, comportamento ou emocional – se construíram ao longo das décadas de nossa vivência e não serão desfeitas porque lemos um “meme” em uma rede social. Estamos falando de mudar escolhas, hábitos e uma identidade muito arraigada à qual ainda vivemos mesmo que venhamos reduzindo ou evitando tais recursos. Porém, nossa família, amigos e conhecidos ainda nos associará ao nosso “velho eu”, testando nossa paciência e limites. Quando lemos notícias, ouvimos músicas,  assistimos tv ou filmes as mensagens da mídia são muitas vezes repetições daquilo que estamos nos auto-educando a abandonar. Não tem como “mudar” não ser mais lento do que gostaríamos.

A vantagem de seguir os 12 passos, é que mesmo devagarinho, um dia percebemos ou alguém nos diz. “Nossa, quanta mudança”. O sentimento de gratidão encerra a jornada ou pelo menos essa parte do caminho.

#acreditenospassos #acreditenops #acrediteemvocê

Notas sobre a Aceitação

Este mês, junho de 2018, completo 4 anos em salas anônimas do programa de doze passos para reabilitação de uma depressão que sofri no ano de 2014. Logo que comecei a frequentar o programa algumas coisas que me iam sendo apresentadas me chocavam profundamente:

  • Porque EU estava ali? Eu sempre havia sido uma pessoa certinha e seguido as regras sociais. Tudo o que fiz e realizei na vida era muito similar ao que a maioria das outras pessoas ao meu redor também haviam feito e realizado. Por que afinal meus resultados eram tão diferentes e desastrosos? Porque semeei “igual” na vida e agora colhia tão diferente, meu Deus?
  • Pesquisei sobre uma determinada sala anônima e comecei a frequentá-la por livre e espontâneo desespero de não saber bem o que fazer mas reconhecer que precisava de alguma ajuda.
  • Me lembro do choque inicial de começar a ouvir tantas expressões e jargões aos quais nunca havia ouvido falar. “Onde essa gente se esconde quando não está aqui”, eu pensava. Durante a vida eu havia lido tantos livros e revistas, assistido tanta tv e filmes, como eu podia não conhecer nada daquilo?
  • Mas nada me fazia ferver mais de ódio e indignação do que cada companheir@ que se aproximava amorosamente de mim e tentava me falar algo sobre “aceitação”. “Quem quer saber desse lixo de aceitação” eu pensava. Era algo impossível, muito além de minha compreensão. “Se fosse pra ter aceitação eu nem teria saído de casa”.
  • Mas como continuava sem saber que fazer e querendo melhorar, continuei voltando.

Site de NA: “A nossa experiência com a adicção é que, quando aceitamos que ela é uma doença sobre a qual somos impotentes, tal aceitação fornece uma base para a recuperação através dos Doze Passos. A quantidade de membros de NA vivendo livres da adicção activa mostra que esta filosofia tem funcionado para nós”. [http://www.na-pt.org/recurso/adicao1.php]

Bill (William Griffith Wilson): “A aceitação e a fé são capazes de produzir cem por cento de sobriedade. De fato, elas geralmente conseguem; e assim deve ser, caso contrário, não poderíamos viver. Mas a partir do momento em que transferimos essas atitudes para nossos problemas emocionais, descobrimos que só é possível obter resultados relativos. Ninguém pode por exemplo, se livrar completamente do medo, da raiva e do orgulho. Conseqüentemente, nesta vida não atingiremos uma total humildade nem amor. Assim, vamos ter que nos conformar, com referência à maioria de nossos problemas, pois um progresso muito gradual, às vezes é interrompido por grandes retrocessos. Nossa antiga atitude de “tudo ou nada” terá que ser abandonada”. [NA OPINIÃO DO BILL 6, Tudo ou nada? Grapevine de março de 1962]

Melody Beattie: “O que precisamos para nos entregar e para deixar correr? De nosso passado, presente e futuro. De nossa raiva, ressentimentos, medos, esperanças e sonhos. De nossos fracassos, sucessos, ódio, amor e desejos. Deixamos livres nossas urgências, nossos desejos, tristezas e alegrias. Deixamos livres nossas antigas mensagens, nossas novas mensagens, nossos defeitos de caráter e nossas qualidades. Deixamos livres as pessoas, as coisas e, às vezes, à nós mesmos. Precisamos deixar livres as mudanças, mudando; a natureza cíclica do amor, recuperando-se; e a própria vida”. [Livro Para além da codependência, página 130]

Site de JA: “Hoje, tentarei aceitar menos do que achava ser possível, ficando disposto não somente a aceitar, mas também a apreciar. Hoje, não vou esperar demasiado de alguém – muito menos de mim. Vou tentar lembrar que a satisfação vem de aceitar graciosamente as coisas boas que recebemos, e não ficar furioso com a vida porque ela não é melhor. Já entendi a diferença entre resignação e aceitação realista”? [https://sites.google.com/site/jaumdiadecadavez/julho]

Robin Norwood: “É a aceitação do outro exatamente como realmente ele é que permite a ele mudar se assim desejar”. [Livro Meditações diárias…, 17 de outubro]

Site de AA: “A aceitação libera a iniciativa, aliviando-a das “cargas impossíveis”, transferindo o foco da ação para o “possível”. A ACEITAÇÃO é um ato do LIVRE ARBÍTRIO, mas, para ser eficaz, requer a CORAGEM moral de se persistir apesar do problema imutável. A aceitação liberta o aceitante, rompendo-lhe as cadeias da autopiedade. Uma vez que aceitamos o que não pode ser modificado, ficamos livres emocionalmente e psicologicamente para nos empenhar em novas atividades. Foi dito que uma mente imatura procura um mundo idealístico. Queiramos ou não, precisamos encarar o mundo da realidade e aceitar a vida tal qual ela é, com todas as suas crueldades e inconsistências”. [http://www.aa.org.br/serenidade]

Site de CCA: “O que você VAI encontrar nas reuniões é o seguinte: Aceitação de você como você é agora, como você era, como você vai estar”. [http://www.comedorescompulsivosrs.com.br/como-e-uma-reuniao]

Patrick Carnes: “Quando chega a aceitação final e o dependente sente que é vulnerável, humano, comum, igual aos outros, pode iniciar-se uma mudança notável. Como parte da aceitação, os dependentes precisam admitir claramente a extensão do comportamento compulsivo. A consciência da dependência irá se expandindo e aprofundando por muitos anos, mas nesse primeiro estágio é importante que eles percebam as linhas gerais do comportamento e saibam que a compulsão não atua apenas nisso. Precisam entender que ela envolve crenças, atitudes e pensamentos distorcidos que preservam a negação e a ilusão. Com essa aceitação crescente, os dependentes entram na fase de reparação”. [Livro Isto não é amor, página 198]

Entrei em uma sala de doze passos, aos 33 anos de idade, muito mal e com muita vergonha. Celebro agora meus 37 anos de vida tendo com resultado dos 4 anos de recuperação: a conclusão de duas graduações e ainda fiz outros cursos relevantes, incluindo um mestrado. Expandi minha atuação no meu emprego (eu quase o havia perdido). Adotei o budismo, vegetarianismo e ateísmo, algo realmente radical para quem eu costumava ser. Escrevi uns oito e-books além de poemas, músicas, ter 4 artigos acadêmicos publicados e blogs. Esse próprio blog, em seis meses, já ultrapassou 20 mil visualizações vindas de países de todo o mundo. Se comparo os 4 anos de recuperação atuais com meus 33 anos de vida anterior, parece que havia só um nada absoluto por mais de três décadas. Hoje frequento menos as irmandades anônimas mas permaneço na terapia individual regular. Mas foi somente há pouco mais seis meses que tive um sentimento e aceitei tudo o que havia vivido COM ALEGRIA. Em meus passos, já não acredito que a aceitação conduza até a serenidade mas que aceitação é a própria serenidade. Se a “aceitação” parece impossível para você, do fundo do coração, só posso lhe dizer que ainda assim ela é possível de ser alcançada.

Sexto Passo – Junho

Sexto Passo do programa de recuperação de AA –  “6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter”.

O Sexto Passo se assemelha ao Segundo Passo por ambos serem decisões de fé. Se no 2º Passo entregamos nossas decisões a um Poder Superior a nós mesmos, no 6º Passo reconhecemos nossas limitações em agir sobre nosso próprio comportamento e pedimos a um Poder Superior que aja sobre nós:

  • Pois aprendemos pela observação de nossa situação atual o quanto nossas ações ”conscientes” do passado e presente nos conduziram aos problemas com os quais temos agora que lidar.
  • Pois muitos daqueles que nos aconselharam (família, amigos, conceitos culturais, ditados populares, livros…) não nos conduziram ao sucesso esperado.
  • Pois defeitos de caráter normalmente são muito óbvios quando observados nas outras pessoas – e mais obviamente ainda se não possuímos nenhum tipo de laço com elas – mas totalmente invisíveis em nós mesmos. Lembra-se do Quarto Passo?

No Primeiro Passo admitimos precisar de ajuda para tornar nossas vidas controláveis. No Segundo Passo assumimos em nome de nossa recuperação espiritual  a crença em um PS. No Terceiro Passo declaramos nossa intenção ativa em entregar nossas vidas e vontades a esse PS. No Sexto Passo, assim como no 2º, enfatizamos que as origens de tal necessidade precisam ser renovadas em uma fonte além de nossa compreensão atual ou convencional para que consigamos finalmente obter resultados diferentes (e positivos) de nossas ações em nossa rotina. Precisamos (re)aprender a viver com a ajuda de um PS seja ele qual for.

Essa nova abordagem de buscar orientações ao nosso sentido de viver baseado em serenidade requer muito de nossa aceitação do porquê o Programa de Anônimos ser organizado em diversos passos. Aceitação porque certamente ao longo da vida desejamos muito para nós que nos foi tirado ou nem sequer realizado. Provavelmente estamos sentindo vergonha e com uma grande pressa em reverter nossa realidade atual. Mas assim como o evidenciado pelo 4º Passo de que grandes questões em nossa vida dependeram talvez de décadas de nossas ações ou opções igualmente nossa franca recuperação também dependerá de nossa perseverança em gerar novas ações positivas que se desdobrem no tempo. Algumas pessoas espiritualizadas chamam isso de encerrar o samsara (ciclo de sofrimento) pela interrupção do karma (ações negativas). Faz sentido a analogia.

Tal empreitada irá exigir de nós tempo e perseverança em busca dessa nova vida que ainda não conhecemos mas sabemos que podemos alcançar se nos dedicarmos a isso: o Programa de Anônimos nos prometeu. Os companheiros de recuperação nos contam suas experiências, desafios e sucessos nas partilhas dentro das salas de irmandades a cada reunião frequentada. As literaturas endossadas nos esclarecem. Nós mesmos já passamos por muitos Passos até chegarmos aqui; e temos decidido prosseguir porque tem valido a pena.

Mostramos que estamos juntos com um Poder Superior e esse Poder Superior mostra que está conosco!

Serenidade x Carnaval

Se pode não ser fácil manter a sobriedade no período de festas familiares como as do final de ano (Ação de Graças no exterior, Natal e Réveillon) a chegada do Carnaval exercerá uma certa influência sobre as escolhas daqueles que estão em programas de recuperação baseado em Doze Passos.

Carnaval é o mais longo período de festejos no Brasil, com sua comemoração iniciada semanas antes de sua data oficial e encerrado somente dias após seu término no calendário. É muito tempo para lidar, pois é também é a data com a maior concentração de uso, abuso e incentivo social e cultural ao exagero de alguns comportamentos e substâncias mais influenciadores de humores o possível: álcool, euforia, cigarro, drogas, sexo, gastos; ciúmes, brigas e rompimentos em relacionamentos; sentimentos depressivos de quem não tem “turma”, as tentativas de controle sobre as atitudes dos filhos… uma longa lista. Tudo intenso e com apelo para ainda mais.

Para quem está em recuperação, talvez a sensação seja de se desviar de um verdadeiro “campo minado”. Agrava o fato de nem todas as pessoas estarem em recuperação, o que significa que pessoas com absoluto desconhecimento de suas adicções ou problemas comportamentais estarão se exaltando ainda mais. É muita, muita adrenalina, que proporciona toda a intensidade da festa e igualmente a intensidade de seus possíveis problemas.

Carnaval: as Dúvidas

  • Conseguirei me divertir sem perder o domínio diante do álcool, drogas ou cigarro?
  • Conseguirei me divertir sem perder o domínio de mim diante do ciúme sobre aqueles que me acompanham?
  • Conseguirei me divertir sem comer em excesso ou não me alimentar?
  • Conseguirei me divertir saudavelmente em grupo?
  • Se estou só, manterei o equilíbrio estando em casa ou na rua ou buscando companhia adequada para sair? A alegria dos grupos unidos será alvo de minha admiração – em vez de minha frustração?
  • Conseguirei manter minhas finanças em dia apesar dos festejos?
  • Conseguirei manter minha saúde e autoestima diante de meus comportamentos sexuais?

Carnaval: “Modo de Fuga”

  • Algumas pessoas optam em se refugiar em retiros organizados por suas irmandades anônimas.
  • Outros já preferem retiros religiosos ou de meditação.
  • Há quem fuja do tumulto das ruas viajando para locais sem festejos.
  • Há quem simplesmente se recuse a sair de casa realizando “maratonas” de filmes e séries na tv e internet.

Carnaval: “Tamo junto”

  • Sair na companhia de parceiros de recuperação.
  • Chamar a família e amigos para casa ou aceitar convites.
  • Aproveitar os dias de feriado e fazer maratona de recuperação indo a várias salas eventualmente abertas.

Ferramentas de recuperação vitais nesse período

  • Número do telefone do padrinho ou madrinha acessível.
  • Endereços de salas que funcionem excepcionalmente no período.
  • Participar de pequenos grupos fechados de Facebook ou listas de Whatsapp exclusivas de pessoas em recuperação com quem possa conversar alternadamente com aquelas que conheça pessoalmente e possua afinidade.

Só por hoje, tudo vai dar certo!