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Amor de somar, amor de dividir

Para Além da Codependência, Melody Beattie: “Se estamos infelizes sem um amor, provavelmente também estaremos infelizes se tivermos um. Um relacionamento não começa nossa vida; um relacionamento não se transforma em nossa vida. Um relacionamento é a continuação da vida”.

Amor de Dividir – do que estamos falando?
Amor de dividir é o amor romântico, inventado lá pelo século dezoito. Ainda nos obrigamos a iniciar relacionamentos com aquela mentalidade antiga, porém, vivendo com os dois pés no século vinte e um, não tem como funcionar generalizadamente bem mesmo. Pode haver exceções pontuais quando olhamos à nossa volta, mas não mais do que isso. E na vida de quem tem uma auto-estima bem cuidada, a busca é por relacionamentos com grandes chances de serenidade e prosperidade. Chega a ser ingenuidade observar adultos ampararem o sucesso um relacionamento em frases tolas como:

  • “Preciso de você” ou “Oi, você quer que eu me apaixone por você para que eu lhe entregue a resolução de meus problemas por mim, de tudo aquilo que preciso na vida, mas não não tenho conseguido?”
  • “Sem você não vivo” ou “Olá, você gostaria que eu @ ame loucamente enquanto @ acuso de tudo aquilo que você não fizer bem feito em função dos meus interesses?”
  • … e outros clichês que analisando com calma também não passam de umas arapucas bonitinhas.
  • Releia as “traduções” acima e perceba uma agressividade velada daquel@ quem depende contra @ outr@ na forma de muita expectativa e pouco amor de fato. Uma face do romantismo que pouco se comenta.

Quando estamos curados das enganações românticas o primeiro sinal de saúde emocional são quase todas as músicas de amor se tornarem insuportáveis, pois esse mal nos é transmitido geração após geração principalmente por nossa cultura.

O Amor de Dividir na Prática
Um belo dia ou uma bela noite pegamos toda nossa humanidade cheia de qualidades e falhas disfarçadas em um corpo sensual e boas roupas e escolhemos um alguém na multidão – também cheio de qualidades e falhas disfarçadas em um corpo sensual e boas roupas –  para dividir: o amor, o desejo, a fidelidade, a companhia, o preenchimento do vazio da solidão, as famílias, o fazer e criar filhos, as frustrações de infância, os problemas de cotidiano, as variações de humor, o salário e a comida, as experiências, a coragem (de matar baratas, de assumir decisões, andar na rua à noite), os sonhos, o seguro de vida e o plano de saúde e o de previdência, as viagens, a capacidade intelectual, os projetos profissionais e pessoais, os animais de estimação, a paciência (de dirigir em engarrafamento, aguentar choro de bebê e pirraça de crianças, enfrentar fila em banco), o carro, a vontade de votar na esquerda ou na direita, o imóvel e as posses, a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza…

Na verdade, dividir tudo de tudo em um relacionamento significa muito mais ser iludido por uma falsa solução e ver multiplicar os problemas, pois muito antes que qualquer eventualidade possa ocorrer ambos já iniciam a relação possuindo um conjunto de incompletudes para as quais passam a contar que a outra pessoa resolva para elas. Mas a outra pessoa… talvez só tenha as incompletudes dela a oferecer também.  Torna-se um espaço tão inflacionado de expectativas que acabam se tornando irreais para ambos os lados que assim que o século vinte inventou o acesso em massa ao divórcio essa estatística não parou de crescer em quase todos os países.

O Amor de Dividir e as Mulheres (principalmente)
Amor de dividir, simplificando, é um relacionamento em que ambos são dependentes um do outro e pactuam a permanecer dependentes um do outro: chega a ser maldoso. Fazendo uma analogia disso com a criação dos filhos, até para estes estabelecemos um prazo (18, 21, 25, 30 anos) para que se tornem independentes dos pais provedores e abandonem o ninho como expressão de sua saúde e realização na vida. Mas enquanto isso, de maneira geral, as mulheres ainda EXIGEM ser dependentes integrais de seus homens até que a morte os separem. Resultado disso nos dias em que vivemos: cada vez mais homens preferindo acessar o Tinder e cia e cada vez mais mulheres sozinhas. E ambos se queixando um do outro e fazendo terapia. Elogio ao Tinder. O pretexto do amor não pode mais ser uma cilada para ninguém.

Não é difícil de perceber que quando uma mulher faz de alguém o destinatário de “preciso de você” ou “sem você não vivo” produz para si mesma uma vulnerabilidade enorme. Essa é a outra face do romantismo também pouco “agradável” que os comportamentos românticos acabam permitindo vir à tona. O amor romântico nos entorpece com tantas promessas de felicidade futuras que às vezes fica difícil perceber os problemas que cria em maior número, velocidade e imediatismo. A mulher (geralmente) se diminui aos próprios olhos enquanto engrandece artificialmente o outro dentro de seu psicológico se tornando um alvo cada vez mais conveniente a ataques de violência física e psicológica; afinal ela começa a conversar – consigo em seus pensamentos e diálogos sociais – que “precisa” e “não vive sem” e a cada vez conta a si e aos outros que não é capaz de cuidar de si mesma e gradualmente acaba se permitindo não ser capaz mesmo. “Nossas palavras criam o nosso mundo” é uma declaração que está presente em diversas religiões e crenças – incluindo na Lei da Atração – porque de fato é o que acontece.

[Se você é uma mulher que vive essa realidade, se ajude: disque 180 e vá a uma sala de MADA]

O Amor de Somar
Bem, e quanto ao amor de somar? Acredito que já tenha se auto-explicado: é claro que alguns aspectos da vida serão divididos, mas ambos se entregam à relação como laranjas completas. Ficar na relação é uma opção de puro amor porque ambos poderiam estar fora se assim quisessem. Resumidamente, no amor de somar ambos participam da relação possuindo simultaneamente estruturas para a vida independente enquanto partilham a vida como opção e jamais por “precisar” ou ” ter necessidade”. E por que fariam isso? Por auto-estima, respeito mútuo e amor.

Meditações para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood, 16 de fevereiro: ”Muitas mulheres cometem o erro de procurar um homem com quem possam se relacionar antes de começarem a se relacionar consigo mesmas; elas passam de homem para homem, sem saber o que está faltando. A busca deve iniciar em casa, com seu próprio eu. Ninguém pode nos amar o suficiente para nos completar se não amarmos a nós mesmas, porque, quando procuramos pelo amor nesse enorme vazio, achamos somente mais vazio”.

Elogio ao Tinder

Esse não é um texto genérico sobre uma novidade moderna. É um texto diretamente dedicado àqueles que estão em terapias de grupo anônimas, tristes com algumas constatações em seus relacionamentos frustrados ou que nem mesmo vieram a se concretizar.

”Agora com os apps de sexo, os homens não querem mais compromisso” é algo mais ou menos comum de se ouvir desde que esse tipo de aplicativo chegou no Brasil. Já pensei assim também, mas mudei a opinião reacionária por outra bem mais otimista.

Muita choradeira de conhecidas em salas de mútua ajuda, Whatsapp e Facebook. Artigos da Marta Medeiros e Danuza Leão. Uma enxurrada de textos magoados em blogs só confirmam aquele pensamento como meio generalizado.

Os homens agora – e somente agora – não honram seus compromissos afetivos? Acho difícil acreditar nisso.

Em dias de informação, educação, leis de proteção à mulher, feminismo, apelos de artistas, queimação de filme em redes sociais… os índices de estupro/assédio/violência contra as mulheres são/continuam assustadores. Traição vira até besteira diante do resto. A maioria desses alvos são justamente namoradas, esposas e filhas. Imagine exigir o tal do respeito em relação a uma mulher (ainda) desconhecida!

Sim, existem homens maravilhosos e dignos de muito amor. Mas são poucos, em geral.

Não é possível que antes de toda essa rede de proteção formal à mulher (que foi necessária ser feita e é burlada como se não existisse) a maioria dos homens eram ”maravilhosos para casar ou se relacionar”. Sabemos que desde nunca.

”Ah, mas antes todo mundo casava cedo e ficava casado”. Pois é… e com que qualidade de vida? A custa de quanta dor, segredos e mágoas? Isso valendo para eles e elas.

Hoje, mais ou menos, quando um homem não quer namorar ou casar com uma mulher e ela acaba ficando solteira por mais tempo que o desejado, a vida continua disponível para ela e ela continua disponível para a vida: vai se formar, vai trabalhar, vai comprar o próprio carro, vai dirigir à noite, vai viajar, vai falar inglês espanhol e alemão, vai investir seu próprio dinheiro, vai pagar seu plano de saúde, vai se pós-graduar, vai fazer consertos dentro de sua casa, vai conhecer tanta gente que vai ter um monte de compromissos de passeio e encontros, vai conversar com um terapeuta, vai pra academia e pro baile dançar, vai ter a própria grana para fazer tudo isso e talvez ainda ter um plano de previdência; enfim… se ela permitir que o fato de não estar namorando não se iguale ao fato de não estar vivendo. Porque isso é opcional e a deprimiria profundamente se tornando um problema de saúde emocional complicado de se lidar. De toda forma, ela poderá ser uma futura namorada muito melhor do que poderia ter sido antes; é isso que é importante reconhecer. Casar não impede nada daquelas coisas mas cá pra nós, quantas esposas você conhece em sua vida pessoal vivendo com essa plenitude toda? Poucas, provavelmente menos que os dedos de uma mão. É trágico, mas as mulheres ainda insistem a jogar essas “responsabilidades” sobre os homens, quer eles tenham pedido ou não. E isso, por sua vez, é desrespeitoso da parte delas com eles – guardando as devidas proporções obviamente.

A boa notícia é que é possível pensar que o Tinder & cia, através dos homens, abriu uma oportunidade de revolucionar os relacionamentos afetivos de qualidade emocional com essa ‘novidade’ da recusa em namorar em prol da busca do sexo sem compromisso. Calma, também defendo o casamento e as relações de qualidade. Tudo será explicado. A má notícia é que esse resultado positivo será provavelmente de longuíssimo prazo.

1º Elogio ao Tinder: Menos homens compromissados por obrigação social de ”ter que namorar para parecer sério”, vulgo aparências = Mais qualidade de fato nos relacionamentos que venham a se firmar. #coda

2º Elogio ao Tinder: Menos mulheres se tornando dependentes materiais/emocionais de homens ”para parecerem sérias”, vulgo aparências= Mais qualidade de fato das parceiras que passam a cuidar mais da própria vida (profissional, educacional, social, pessoal) nem que seja por excesso de tempo livre da solteirice expandida. #ea

3° Elogio ao Tinder: Menos relacionamentos de ”bom papel social” deles com menos dependência delas sobre eles = Menos famílias disfuncionais, menos filhos sofridos. Aliás, com melhores famílias, melhores homens e mulheres no futuro, igualmente. #alanon #naranon #alateen

4º Elogio ao Tinder: ”O Tinder está mandando a geração atual para as salas de terapia” = Uma sociedade melhor. Freud estava esperando por isso há pelo menos uns 120 anos. #n/a

5º Elogio ao Tinder: Ficou mais fácil perceber o vício/adicção/dependência em sexo culturalmente estimulado nos homens = Mais terapias, vidas melhores, parcerias melhores. #dasa

6º Elogio ao Tinder: “Ele me iludiu com a chance de um relacionamento e partiu meu coração”. Ficou mais fácil perceber a dependência emocional culturalmente estimulada nas mulheres. = Mais terapias, vidas melhores, parcerias melhores. #mada

Com perplexidade constato que o Tinder – e os homens – estão fazendo pelo avanço das mulheres quase o mesmo que o feminismo faz com mais de um século de sangue, discussões e luta. Melhor esquecer os estranhos mensageiros e louvar os resultados da passagem mais intensa da dependência (global) feminina para uma vida independente e até mesmo interdependente – e serena!

Boa notícia para as mulheres – que dificilmente perceberão os benefícios neste momento turbulento de expectativas frustradas – que se beneficiarão de uma autonomia nova na vida. Quanto aos homens, um novo ciclo em que as mulheres estejam tão plenas de suas próprias vidas que não mais praticamente os cacem às custas de transtornos a outras mulheres, lhes exigirá a contrapartida de melhoria global para merecê-las. E estar sujeitos a serem preteridos por outras ambições pessoais delas. Ele terá de ser – assim como a ela foi culturalmente ensinado ao longo de gerações de modo geral – um parceiro de verdade, um pai de verdade, fiel de fato se assim combinarem, saudável, equilibrado, pacífico; enfim, terá que fazer por merecer e realmente valer a pena para ela escolhê-lo para um relacionamento sexo-afetivo saudável! Um (futuro) ciclo virtuoso completo.

Final feliz aos relacionamentos entre pessoas – homens e mulheres – serenos e seguros. Raros na vida, ainda. #soporhoje

NA OPINIÃO DO BILL 3, Dor e progresso, “Alguns anos atrás eu costumava ter pena de todas as pessoas que sofriam. Agora somente tenho pena daquelas que sofrem por ignorância, que não entendem o propósito e a utilidade definitiva da dor”. / “Certa vez alguém disse que a dor é a pedra de toque do progresso espiritual. Nós, AAs, podemos concordar com isso, pois sabemos que as dores decorrentes do alcoolismo tiveram que vir antes da sobriedade, assim como o desequilíbrio emocional vem antes da serenidade”.

O CoDependente diante do outro

“Sou capaz de ouvir sem dar conselhos”. – Afirmação de CoDependentes Anônimos

Em programas de recuperação baseados em Doze Passos, cada indivíduo que vier a integrar algum de seus inúmeros grupos encontrará um desafio específico. Quer seja se tratando de adictos químicos, comportamentais, codependentes ou outros; não há a ilusão de que as questões de um sejam necessariamente mais fáceis de se “resolver” do que de outros.

Para quem está de fora de um programa como esse, tal impressão se relaciona às vezes em considerar que questões de foro íntimo capazes de levar a consequências legais – tais como prisão ou processo ou mesmo a condenação moral aberta da maioria – sejam necessariamente mais difíceis de lidar do que aqueles que lutam com questões relacionadas às emoções, por exemplo. Quem está nas salas provavelmente conhecerá pelas próprias experiências o quão difícil possa ser a superação de quase todos os quadros mesmo diante de muita disciplina. E disciplina é algo que nem todos dispõem, nem todo mundo gosta, dá trabalho e de fato, exige muito daqueles que se dispõem a dominá-la. Toda e qualquer recuperação toma tempo e esforço, muito mais tempo e esforço do que normalmente se gostaria de admitir.

Neste post será considerado as dificuldades de relacionamentos entre o adicto – seja ele químico ou comportamental ou outro fator gerador de estresse – e seu espelhamento codependente. Quem poderia ser um codependente? Pais, filhos, irmãos (ou outros familiares próximos), os relacionamentos sexo-afetivos (cônjuges, namorados, amantes, etc), amigos íntimos; enfim, se pararmos para pensar bem há MUITO mais pessoas codependentes em escala planetária do que pessoas adictas ou “com problemas” de uma forma geral. Mas, como os adictos geralmente possuem seus problemas catalogados em artigos penais, é tão mais conveniente apontá-los como os grandes causadores de problemas. Se isso for de fato uma verdade, eles nunca o são sozinhos.

Seria possível escrever muito a respeito dos aspectos conflituosos da relação entre codependentes e adictos sem que alguém “de fora” fosse capaz de alcançar o cerne do problema. Na verdade, é o mais comum de se encontrar: excelentes textos da temática codependência e dependência emocional para quem já os estuda e interpreta há bastante tempo, mas um tanto “nebulosos” para quem ainda está começando seus primeiros passos no Programa – ou ainda nem sequer começaram – ou sabem que poderiam se beneficiar de um.

Então o recurso desse post será reproduzir o trecho de um livro chamado “Ame a Realidade” da autora Byron Katie. Esse livro está esgotado e somente consegui meu exemplar através da “busca por raridades” da plataforma de revenda de livros usados Estante Virtual. Tal obra NÃO CONSTITUI LITERATURA ENDOSSADA de grupos anônimos mas apresenta uma passagem interessante sobre o diálogo de duas mães a respeito de suas filhas adictas. De suas 322 páginas, 5 folhas estão reproduzidas aqui. É o mais claro que há para se ilustrar a questão para quem estiver dando seus primeiros passos em conhecer a literatura de codependência.

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“O único comportamento sobre o qual tenho algum controle é sobre o meu mesmo”. – Afirmação de CoDependentes Anônimos

O Triângulo de Karpman

“30 de janeiro – Para muitas de nós, o tratamento de recuperação consiste em aprender a fazer exatamente o oposto do que sempre fizemos.” – Meditações Diárias para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood

O programa de recuperação de dependências baseado em Doze Passos é realizado por leigos dispostos a colaborar entre si. É gratuito, exige anonimato de seus participantes e é um local onde evita-se dar conselhos (mais conhecidos como o jargão “dar retorno”). Basicamente, um grupo de mútua ajuda anônima é o avesso do que a psicoterapia normalmente oferta.

Então, porque abordar o Triângulo de Karpman (TK) neste site? Pois a princípio o TK seria de interesse de terapias individuais tradicionais. Vamos deixar essa explicação por conta da autora norte-americana Melody Beattie em seu livro “Codependência Nunca Mais” que faz parte de literaturas endossadas de diversos grupos anônimos.

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Uma representação bastante básica e clássica de como se desenvolve um diálogo típico entre pessoas que – inadvertidamente, é claro – estejam praticando o jogo envolvido no Triângulo de Karpman (perseguidor-salvador-vítima alternadamente) foi bem representada pela psicóloga norte-americana Robin Norwood em seu livro “Mulheres que amam demais” que inspirou a criação da irmandade MADA – Mulheres que Amam Demais Anônimas:

 

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Quanto mais se participa de reuniões de irmandades anônimas e se estuda suas literaturas endossadas mais se destaca o valor de se conhecer e evitar de praticar as representações indicadas no TK. Na verdade, o ato de conversar após se “apertar a tecla stop” da prática do jogo ou TK na vida diária significa que dialogar perde tanta carga de drama e a vida se torna tão mais simples que causa até mesmo um certo estranhamento. Que absurdo! Viver uma vida simples e sem praticar ou sofrer manipulação ser incômodo de se acostumar! É para isso e muito mais que continuamos voltando. O segredo sempre está na próxima reunião.

“É nos relacionamentos que demonstramos nossa recuperação. Cuidar bem de nós mesmos não significa evitar relacionamentos. O objetivo da recuperação é aprender como funcionar nos relacionamentos.” Para Além da Codependência, Melody Beattie.

Até que o casamento…

 

NA OPINIÃO DO BILL 72, Dependência – Doentia ou saudável, “Nada pode ser mais desmoralizador do que uma dependência servil e exagerada de um outro ser humano. Isso muitas vezes significa a exigência de um grau de proteção e amor que ninguém poderia possivelmente satisfazer. Assim sendo, aqueles que esperamos que sejam nossos protetores finalmente fogem e uma vez mais somos deixados sozinhos para nos desenvolver ou nos desintegrar”.

“Antigamente o casamento durava”, dizem alguns.

De fato, antigamente o casamento durava bastante, vidas inteiras até. E permitia, no mais das vezes, muita insalubridade: esposa e marido se agredir verbal e fisicamente. Esposa e marido agredir verbal e fisicamente aos filhos. Esposa (às vezes o marido) agarrando a própria existência ao salário e residência do outro até que a morte os separasse. Ser a extensão humana da condição do outro (esposa do fulano de profissão tal, marido daquela de família influente, etc). Antigamente… nada! Tudo ainda acontece, porém, no século XXI, cada vez menos.

Foi necessária a criação de leis específicas para a proteção contra agressões físicas e verbais de mulheres e crianças no interior de suas próprias famílias. No Brasil, são a Lei Maria da Penha e o Estatuto da Criança e do Adolescente as mais conhecidas. Faz parte da evolução do conjunto da sociedade ocidental. Infelizmente, as formas culturais de violência – normalmente mais discretas como a manipulação emocional e a dependência financeira – continuam a ser valorizadas e exaltadas principalmente nos produtos de mídia como cinema e romances. Mas os tempos são de mudanças e até mesmo essas “escolhas” tem tido suas desvantagens expostas.

Quanto menos os casamentos duram hoje em dia, mais descobrimos o quanto melhoramos enquanto indivíduos de uma maneira bastante generalizada. E é desse jeito que humanidade evolui para melhor em questão de relacionamentos sexo-afetivos. Casamentos passaram a ser postos em segundo lugar porque os indivíduos – homens e mulheres – estão aprendendo pouco a pouco a se colocar em primeiro. A palavra autoestima passou a integrar o vocabulário das pessoas de todas as idades e níveis sociais com cada vez mais frequência. O casamento passou a precisar ser bom para ambos, simultaneamente. É uma novidade na história humana. Uma novidade e tanto!

Nas salas de irmandades anônimas o casamento – quando existe – normalmente está em cheque. Um exemplo é uma pessoa ser adicta em álcool e não entender o porquê do parceiro reclamar tanto. Outro parceiro pode não suportar mais a bebedeira do companheiro e querer se separar. Um terceiro indivíduo começar a tratar seu abuso em substâncias e o companheiro não saber mais como lidar com os comportamentos dessa “nova” pessoa que está cohabitando o mesmo teto. Para cada variação de tipo de irmandade anônima (comida, sexo, gastos, narcóticos, etc) há diferentes formas de sofrimento pressionado os casamentos de seus participantes.

Também há o exemplo da dependência emocional que invisivelmente destrói casamentos. Invisivelmente porque nossa sociedade é tão saturada de modelos culturais negativos de se relacionar sexo-afetivamente que muitos comportamentos absurdos dos dependentes emocionais são até mesmo elogiados e incentivados por familiares e amigos, revistas, sites, televisão. Aprender novas formas de sentir, pensar e se comportar para os dependentes de pessoas é um desafio imenso; pois precisam aprender (e aceitar) que seus supostos “acertos” foram na verdade erros que enfraqueceram a relação. É tão complicado para o dependente emocional mudar quanto é difícil para seus parceiros conviverem por muito tempo e proximidade com os mesmos. É desgastante, sufocante,  chega um momento em que apenas já não dá mais para continuar.

Existe finalmente o exemplo do sofrimento do adicto em si que se faz espelhar em outros sofrimentos para suas companhias íntimas que o cercam em um processo conhecido como codependência. São tipicamente a vergonha, tristeza e as tentativas de controle da situação por parte de cônjuges, filhos, outros parentes. O sofrimento que supostamente pertenceria apenas à intimidade de alguém acaba por ser levado de diferentes formas para a vida social e profissional (agressividade, isolamento, auto sabotagem, bullying escolar, etc). O prejuízo da dependência extrapola a dor pessoal, atravessa famílias e casamentos e alcança a sociedade como um todo.

Mas essa mesma sociedade já aprendeu e evoluiu muito em áreas supostamente difíceis – tecnologicamente, politicamente, economicamente. A instituição do casamento (e da família) também precisará continuar mudando para uma sociedade de fato evoluída e saudável. Para todos, ao mesmo tempo. As salas de terapia de mútua ajuda não são terapia de casal e nem foram feitas para salvar ou separar casamentos. Foram feitas para equilibrar indivíduos espiritualmente visando a serenidade de viver; sejam eles dependentes de substâncias, comportamentos ou de outras pessoas. Mas se a pessoa muda, é certo, esse casamento também irá mudar de alguma maneira.

O casamento não mudará sozinho. Instituições e governos, por si, também não serão capazes de mudar o casamento. São as pessoas, disposta às mudanças e a mudar, que mudarão os casamentos. As irmandades anônimas, agora sim,  podem ajudar. Irmandades foram feitas para ajudar “aqueles que querem e não aqueles que precisam” a se amarem o suficiente mesmo que estejam (ou se tornem) sozinhos a desenvolverem a habilidade de buscar relacionamentos sexo-afetivos emocionalmente saudáveis e satisfatórios como um todo ainda que demande certo tempo. Isso então, é uma verdadeira revolução!

NA OPINIÃO DO BILL 85, A vida não é um beco sem saída, “Quando um homem ou uma mulher tem um despertar espiritual, o mais importante significado disso é que ele se tornou agora capaz de fazer, sentir e acreditar naquilo que ele não poderia antes fazer sozinho, sem ajuda, com seus próprios recursos e força. A ele foi concedida uma dádiva, que leva a um novo estado de consciência e a uma nova vida. A ele foi indicado um caminho, que lhe mostra que está indo em direção a uma meta, que a vida não é um beco sem saída, nem algo a ser suportado ou dominado. Na verdade ele se transformou, porque se agarrou a uma fonte de energia, da qual até agora havia se privado”.