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Terceiro Passo – Março

Terceiro Passo do programa de recuperação de AA – “3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.

No primeiro passo admitimos nossa impotência perante algo, alguém ou um determinado comportamento. No segundo passo, viemos a acreditar que algo superior a nós mesmos poderia nos ajudar a sair de tal situação. Chegamos ao terceiro passo que nos solicita entregar o cotidiano de nossas vidas a essa nova crença. Bem, isso não seria excessivo? Isso não seria uma religião? Para que tudo isso? Aliás, de que maneira prática seria possível realizar tal feito?

O programa de doze passos tendo os Alcoólicos Anônimos como célula-mãe existe há mais de oitenta anos, em todos os continentes do planeta e gerou uma série de outros grupos anônimos para as mais diversas questões. Se existe uma forma de se “entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus” a única certeza que poderemos ter é que isso foi realizado de milhões de maneiras únicas e diferentes entre si, pois assim é cada ser humano: único e diferente. Considerando isso, podemos imaginar algumas possibilidades, mas serão elas realmente válidas para estancar nossa dor e reposicionar nossas vidas em um compasso positivo? Como um meio de reflexão, há o texto da Apresentação do livro de Robin Norwood “Por que eu, por que isso, por que agora?”

“Por que eu? Por que isso? Por que agora? Qual de nós, em tempos difíceis, não careceu de respostas para estas perguntas? Sondamos nossos corações. Interrogamos a vida. Ficamos zangados com Deus. Queremos qualquer ouvinte compreensivo. Por quê? e a resposta volta na forma de paliativos vagos e gerais que não captam nem ao menos nossa dor e frustração e são vazios, impessoais e até irritantes, como estes:

“O tempo cura tudo”

“Você está decepcionado(a), mas vai superar isso”

“É a vontade de Deus e não está em nós discutir”

“É o destino”

“Essas coisas acontecem”

Provavelmente o conselho mais intolerável que recebemos quando estamos arrasados por alguma dificuldade seja este: “Procure não pensar muito nisso. Ficar assim só vai deixá-lo sentindo-se pior”. São palavras oferecidas por amigos bem-intencionados que se veêm impotentes diante de nossa aflição, mas nos deixam naufragados e agitados nos baixios de algo que deu errado, muito errado.”

Se as coisas vão severamente mal em nossa vida, estamos desnorteados o suficiente para não sermos bons conselheiros de nós mesmos. Nossos familiares e amigos podem ter muito amor e consideração por nós mas precisaremos talvez realizar o esforço em separar o reconhecimento da afeição deles por nós e que eles tentam nos ajudar com conselhos (frases de ditos populares, memes de internet) e recursos (pagar uma viagem; comprar um livro religioso, filosófico, espiritual ou de auto-ajuda; chamar para um chopp ou “sair para ver gente” para esquecer dos problemas) que simplesmente não funcionam no mais mais das vezes.

Por isso é que em Doze Passos encontramos deliberadamente um caminho para entregar nossas vidas conscientemente à vontade de Deus (ou Poder Superior ou Vida ou outro conceito); pois não se trata de ter sido mandado a escolher isso, mas ser isso a opção disponível. E precisamos tanto.

Precisamos estancar nossa dor e reassumir uma vida cotidiana positiva. Precisamos  compreender por que tal evento nos impactou – quando outras tantas pessoas não passam por isso ou se passam não se permitem abalar – da forma única e diferenciada que somos e não segundo um provérbio popular! Precisaremos, quem sabe, trocar o doído “por quê?” por um esperançoso “para quê?” dos revezes que vivemos.  O Deus que concebemos quererá o nosso bem e nos colocaremos à disposição para a chegada desse bem que ainda pode estar por vir mas sem dúvida dependerá de nós para chegar e ser tudo aquilo que contribuirá para o alcance do nosso melhor enquanto indivíduos.

 

“Deus não exige que consigamos. Espera apenas que tentemos!” – Lema de AA

Segundo Passo – Fevereiro

Segundo Passo do programa de recuperação de AA – “2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.”

Uma vez identificado um determinado problema em nossa vida através do processo de admissão do Primeiro Passo do programa de recuperação de alcoólicos anônimos temos um potencial desencadeamento de cura em nossas vidas: talvez um grande problema tenha finalmente vindo à tona de modo a chamar nossa atenção de maneira imediata. Talvez esse problema inicial desencadeie uma quebra de nossa negação interior que permitirá enxergarmos uma série de outros problemas dentro de nós – que de outra maneira ou sendo avisado por outra pessoa – jamais reconheceríamos, jamais admitiríamos, jamais nos curaríamos. Com um grande problema abrindo as portas para a mudança de uma série de outros problemas, algumas de nossa novas expressões de viver pessoais se manifestarão naturalmente. E tais modificações serão captadas no ambiente pelos demais que nos rodeiam, gerando também mudanças em nossos relacionamentos.

Mas, que tipo de mudanças pessoais e interpessoais poderiam ser essas? Certamente não as que nos acostumamos a pedir (especialmente dentro dos processos educacionais religiosos tradicionais no tocante às orações) do tipo que ele ou ela mude, que ganhemos essa ou aquela conquista material, que algo assim nos aconteça ou… Por que não? Por que esses tipos de pedidos “justos” de mudanças, a essa altura do processo, já estaremos aprendendo se tratar de manipulações. E não, não será isso parte de nenhum processo de cura factível ou de alcance de serenidade espiritual.

Novamente, “e porque não?” imagino o leitor se perguntando diante da tela – pois eu também já fiz essa indagação de maneira completamente indignada no começo de minha recuperação em programa de doze passos. Vamos perceber isso bem claramente:

  • Se caio na armadilha de por exemplo, pedir aos céus que fulano magicamente pare de beber (ou outro comportamento que EU considere nocivo); em primeiro lugar fulano parar subitamente com algo que já está acostumado e sem nenhum tipo de conscientização pessoal a chance dessa “mudança” ser breve é muito elevada. Quantos casos em sua vida pessoal você talvez não tenha acompanhado e observado ocorrer exatamente dessa maneira. Quem se decepcionará? Eu!
  • Se caio na armadilha de por exemplo, obrigar fulano a ir à terapia para parar de utilizar substâncias narcóticas (ou outro comportamento que EU considere nocivo); talvez fulano faça isso porque queira ME acalmar ou ME agradar ou ME… Peraí! Isso é fulano se tratando realmente ou utilizando da terapia um argumento para cair em minhas graças – vulgo ME manipular?
  • Não importa a minha idade, se jovem ou amadurecido. Tudo o que sou e as capacidades que possuo provém de minha educação recebida, crenças pessoais adotadas, produtos de mídia e entretenimento que me influenciaram – e falharam. Logo, se meus recursos individuais me indicaram caminhos capazes de me criar problemas como é que seria possível, ao orar, mesmo que fervorosamente, não estar solicitando justamente receber as mesmas circunstância que sempre venho recebendo? Como saber? Basta observar o que venho vivendo! Para novos resultados em minha vida, EU precisaria necessariamente aprender novos pensamentos e a formular novos pedidos. Por isso, muitos adeptos de salas anônimas também associam suas terapias de grupo de mútua ajuda anônimas a terapias cognitivas (ligadas aos processos de aprendizado). Para aqueles que possuem afinidade com textos do tipo “Lei da Atração” agora vemos de que maneira atraímos nós mesmos tudo aquilo de que tentávamos evitar. Sempre “eu”. E como é que esse “eu” aí então se porta de modo tão prepotente a tentar modificar outro alguém conforme sua vontade? Os bons efeitos não conseguirão chegar porque não são assuntos do meu “Eu”, mas do Poder Superior. Humildemente, assumimos nosso PS e libertamos a vida do outro para que o PS também possa ajudá-lo da maneira necessária a ele e que nos é desconhecida. Por amor ao outro é que fazemos isso.
  • Ainda duvida do que foi dito anteriormente? Tudo bem. Se o alvo de tamanha bondade de meus pedidos e orações o tempo todo seria o “outro” porque então rotineiramente estaria “eu” assumindo o papel central de vítima desapontada dos atos alheios? Aliás, nos atentando ao fato de que “persegui” tão corretamente em meus conceitos fulano para “salvá-lo” de si mesmo e agora sou uma “vítima” do descaso de fulano… Eu preciso urgentemente me tratar de meu próprio comportamento de Triângulo de Karpman, concorda? Novamente… EU precisando ME cuidar!

O Programa de Doze Passos além de acessível é muito simples. O que ele nos sugere mesmo? Ele nos traz como segundo passo logo posterior à admissão de nosso problema que “Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”:

  • “Viemos a acreditar” pois é um passo pessoal. Ninguém nos obrigou a acreditar em nada. Igualmente somos impotenteS a obrigar quem quer que seja a acreditar em qualquer coisa. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • “que um Poder Superior a nós mesmos” pois nossa educação, nossas crenças pessoais, nossos produtos de mídia e entretenimento que nos influenciram falharam. Logo, se meus recursos individuais me indicaram caminhos capazes de me criar problemas tão grandes, ao ponto de agora exigir minha rendição, admissão e participação de um programa de recuperação então eu preciso me abrir a algum tipo de conhecimento que ainda me seja novo. Talvez eu precise de Deus como um Poder Superior a partir de agora. Talvez eu precise de algo diferente. Mas, primordialmente, eu preciso estar de mente aberta a reconhecer que preciso me expor a conhecer o novo e a identificar meu próprio processo de cura. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • “poderia devolver-nos à sanidade” é nossa meta. É nossa vida. Uma nova vida. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • No segundo passo baseado em grupos de mútua ajuda anônimos, o “eu” se torna finalmente meu recurso de desenvolvimento pessoal e espiritual e deixa de ser um recurso a culpar aos outros por meus próprios problemas.

“Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”. Mas não seria justamente orando que me comunicarei com meu Poder Superior, Deus, Eu Verdadeiro ou outra concepção de PS? Haveria alguma outra maneira de fazê-lo sendo ajustado ao conceito do segundo passo? A literatura nos sugere alguns pensamentos a respeito:

  • NA OPINIÃO DO BILL 20, Luz proveniente de uma oração, Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras. “Guardamos como um tesouro nossa “Oração da Serenidade”, porque ela nos traz uma nova luz que pode dissipar nosso velho e quase fatal hábito de enganar a nós mesmos. No esplendor dessa oração vemos que a derrota, quando bem aceita, não significa desastre. Sabemos agora que não temos que fugir, nem deveríamos outra vez tentar vencer a adversidade, por meio de um outro poderoso impulso arrasador, que só pode nos trazer problemas difíceis de serem resolvidos. Grapevine de março de 1962″
  • Meditações para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood, 04 de Fevereiro: “Reze pela vontade, pela força e pela coragem de reavaliar honestamente o seu passado – e sua responsabilidade por ele. O espírito ouve suas súplicas para limpar a casa e colabora para trazer à luz as dores engessadas do passado, ajudando-a a se livrar delas conscientemente. Assim que sua vontade de perdoar o passado for realmente verdadeira, você verá um grande avanço de entendimento e a dor daquele passado se desvanecerá”.
  • A Linguagem da Liberdade, Melody Beattie,  30 de Dezembro: “Hoje, me entregarei à construção da fundação, da estrutura de minha vida. Se for hora de desfrutar da colocação dos toques finais, me entregarei a isso, e desfrutarei isso também. Lembrar-me-ei de ser grato ao Poder Superior que é o Mestre Construtor e apenas tem em mente meus melhores interesses, criando e construindo minha vida. Serei grato ao meu Poder Superior pelo cuidado e atenção aos detalhes em construir a fundação – embora eu às vezes ficasse impaciente. Estarei à espera da beleza do produto acabado de Deus.”

E no segundo passo descobrimos… que estamos apenas começando!

“Que comece por mim” – Lema de AA

Prestar Serviço e as Tradições

 

NA OPINIÃO DO BILL 155, Construído por um e por muitos, “Damos graças a nosso Pai Celestial que, através de tantos amigos e através de tantos meios e canais tem nos permitido construir esse maravilhoso edifício do espírito, no qual estamos agora residindo – essa catedral, cujos fundamentos já repousam nos quatro cantos do mundo.

Em sua enorme edificação inscrevemos nossos Doze Passos de recuperação. Nas paredes laterais, os esteios das Tradições de A.A. foram colocados para nos manter em unidade até quando Deus quiser. Ansiosos corações e mãos levantaram o espiral de nossa catedral em seu devido lugar. Esse espiral leva o nome de Serviço. Que ele possa sempre estar apontado em direção a Deus”.

Quando chegamos a uma sala de reunião em que se pratica dos Doze Passos de forma anônima, logo vamos tomando conhecimento dos “Passos” em si. Porém, em dado momento é falado sobre a 7ª Tradição. O que é isso? podemos nos perguntar. Logo após, ouvimos falar sobre a 12ª Tradição? Além de Passos também tem essa Tradição? é um possível pensamento.

Nos Doze Passos conhecemos uma maneira estruturada e sucessiva de se buscar a serenidade espiritual – em nossas vidas, relacionamentos e circunstâncias. As Doze Tradições nos apresentarão uma forma harmoniosa de sustentar os relacionamentos dentro do grupo visando e viabilizando a sobrevivência do próprio grupo. Se os membros de uma irmandade anônima irão prestar serviço voluntariamente é necessário que exista uma diretriz elementar sobre a maneira como essa prestação de serviço se desenvolverá. Afinal, são pessoas de origens diferentes, até então desconhecidas, vivendo algum sofrimento pessoal interagindo por um propósito específico da manutenção funcional do grupo. É preciso uma norma de conduta que simplifique o processo e é para isso que as Tradições foram pensadas.

São elas:

AS DOZE TRADIÇÕES DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS 
 1. Nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; a recuperação individual depende da unidade de A.A.
2. Para nosso propósito de grupo, há somente uma autoridade suprema, um Deus amantíssimo que Se manifesta em nossa consciência grupo. Nossos líderes são apenas servidores de confiança; não governam.
3. O único requisito para ser membro de A.A é o desejo de parar de beber.
4. Cada Grupo deve ser autônomo, salvo em assuntos que digam respeito a outros Grupos ou a A.A. em seu conjunto.
5. Cada Grupo é animado por um único propósito primordial – o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre.
6. Nenhum Grupo de A.A. deverá jamais emprestar o nome de A.A. endossar ou financiar qualquer sociedade ou empreendimento alheio à Irmandade, a fim de que problemas de dinheiro, propriedade e prestígio não nos afastem do nosso objetivo primordial.
7. Todos os Grupos de A.A. deverão ser totalmente autossuficientes, rejeitando quaisquer doações de fora.
8. Alcoólicos Anônimos deverá manter-se sempre não-profissional, embora nossos centros de serviços possam contratar funcionários especializados.
9. A.A. como tal jamais deverá ser organizado podemos, porém, criar juntas ou comitês de serviço diretamente responsáveis perante aqueles a quem prestam serviços.
10. Alcoólicos Anônimos não opina sobre questões que lhe são alheias; portanto, A.A. jamais deverá aparecer em controvérsias públicas.
11. Nossa política de relações públicas baseiam-se na atração em vez da promoção; precisamos sempre manter o anonimato pessoal na imprensa, no rádio e em filmes.
12. O anonimato é o alicerce espiritual de todas as nossas Tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades.
 (Direitos autorais de The A.A. Grapevine, Inc; como publicado em aa.org.br)
Observando a união e continuidade do grupo acima dos interesses individuais. Esclarecendo preferência pela organização interna baseada na prestação de serviço voluntário temporariamente alternado e a tomada de decisão baseada em votações que permitam que o Poder Superior se manifeste. Isentando de regras de admissão e controle de seus membros e assim viabilizando a permanência de seus participantes. Esclarecendo a autonomia dos grupos e seu único papel de prestar mútua ajuda ao participante que ainda sofre. Solicitando doações exclusivamente entre seus membros e – ainda assim – limitadas às possibilidades de cada um. Determinando o anonimato como alicerce espiritual do programa e de conduta geral.
A existência e respeito às Tradições garantem a perpetuação de nosso Programa. As Doze tradições talvez não se assemelhem a uma ferramenta de recuperação, mas são elas o fundamento para que tudo o mais ocorra apropriadamente: para o grupo, para a reunião, para cada um; em todas 24 horas.
“Não é somente a alguns que devemos o notável desenvolvimento de nossa unidade e de nossa capacidade de levar a mensagem de A.A. a todos os lugares. Devemos a muitos; na verdade, é ao trabalho de todos nós que devemos essas maravilhosas bênçãos”.
1 – A.A. Atinge a Maioridade, pág. 209, 2 – Palestra de 1959

O Triângulo de Karpman

“30 de janeiro – Para muitas de nós, o tratamento de recuperação consiste em aprender a fazer exatamente o oposto do que sempre fizemos.” – Meditações Diárias para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood

O programa de recuperação de dependências baseado em Doze Passos é realizado por leigos dispostos a colaborar entre si. É gratuito, exige anonimato de seus participantes e é um local onde evita-se dar conselhos (mais conhecidos como o jargão “dar retorno”). Basicamente, um grupo de mútua ajuda anônima é o avesso do que a psicoterapia normalmente oferta.

Então, porque abordar o Triângulo de Karpman (TK) neste site? Pois a princípio o TK seria de interesse de terapias individuais tradicionais. Vamos deixar essa explicação por conta da autora norte-americana Melody Beattie em seu livro “Codependência Nunca Mais” que faz parte de literaturas endossadas de diversos grupos anônimos.

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Uma representação bastante básica e clássica de como se desenvolve um diálogo típico entre pessoas que – inadvertidamente, é claro – estejam praticando o jogo envolvido no Triângulo de Karpman (perseguidor-salvador-vítima alternadamente) foi bem representada pela psicóloga norte-americana Robin Norwood em seu livro “Mulheres que amam demais” que inspirou a criação da irmandade MADA – Mulheres que Amam Demais Anônimas:

 

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Quanto mais se participa de reuniões de irmandades anônimas e se estuda suas literaturas endossadas mais se destaca o valor de se conhecer e evitar de praticar as representações indicadas no TK. Na verdade, o ato de conversar após se “apertar a tecla stop” da prática do jogo ou TK na vida diária significa que dialogar perde tanta carga de drama e a vida se torna tão mais simples que causa até mesmo um certo estranhamento. Que absurdo! Viver uma vida simples e sem praticar ou sofrer manipulação ser incômodo de se acostumar! É para isso e muito mais que continuamos voltando. O segredo sempre está na próxima reunião.

“É nos relacionamentos que demonstramos nossa recuperação. Cuidar bem de nós mesmos não significa evitar relacionamentos. O objetivo da recuperação é aprender como funcionar nos relacionamentos.” Para Além da Codependência, Melody Beattie.

Primeiro Passo – Janeiro

Primeiro Passo do programa de recuperação de AA – “1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.”

Como citado em outra postagem aqui do site GDP, Fechar um Ciclo, Recomeçar um Ciclo, a ideia de organizar uma parte do processo de recuperação seguindo o calendário – passos correspondentes a cada um dos doze meses do ano, lemas a cada semana, meditações diárias ou seja como for – são estratégias possíveis para a manutenção de uma disciplina espiritual. Cada pessoa, de preferência junto ao seu padrinho ou madrinha de recuperação ou após ouvir espelhos mais experientes em reuniões de irmandades anônimas, irá formular ou adaptar um meio de incorporar o programa de doze passos a sua própria rotina.

O Primeiro Passo nos diz em outras palavras que admitimos nossa derrota: nossas vidas – e talvez em conjunto as vidas  de outras pessoas próximas a nós – se desgovernaram devido a atitudes de nossa parte que agora estão cristalizadas em nós como adicção, depressão ou comportamentos inadequados com os quais não conseguimos lidar ou interromper mais por nós mesmos.

É preciso admitir em que ponto falhamos para que possamos estabelecer um objetivo. Onde falhei será meu foco de recuperação. Talvez, junto ao desenvolvimento do processo de autoconhecimento que se dá início a partir desse passo inicial virão a ser feitas outras admissões de outras questões; pois é muito comum que adicções, sofrimento espiritual e comportamentos compulsivos estejam interligados de variadas formas em cada pessoa. Tudo terá seu devido tempo, mas o importante será estabelecer no primeiro passo uma admissão, um desejo de reverter uma situação.

Bem, talvez tenha sido difícil admitir. Alguns precisam chegar ao fundo do poço e buscar uma ajuda qualquer para não perder ainda mais (um emprego, um casamento, a guarda de um filho, um fio de sanidade). Se o que apareceu como chance de tentar algo foi “esse tal de Anônimos, que seja”. Outros serão empurrados para dentro das salas por familiares (empurrados? Quantos familiares não assistem a primeira reunião em dupla dentro da sala ao lado do futuro ingressante, por garantia de que realmente venha a participar? Muitos!). As mais diferentes razões e circunstâncias podem fazer alguém cruzar a porta fechada com a plaquinha pendurada do lado de fora: “reunião em andamento, deixe os cumprimentos para depois.” Entrar, ficar e continuar voltando.

O trecho final desse passo nos reafirma seu propósito; pois admitimos nossos problemas visando a retomada do rumo saudável de nossos dias. Buscamos de volta nossa esperança através do desejo sincero de mudar aquilo que podemos, ou seja, nós mesmos. E assim, as demais circunstâncias também acabam por mudar como um reflexo ou adaptação aos novos desdobramentos do primeiro passo e a adoção dos outros que viremos a praticar. Mas só depois do primeiro.

Você faz parte um grupo anônimo? Há quantas 24 horas? Você ainda não faz parte mas gostaria de se integrar a um grupo? Busque um endereço. O primeiro passo não será o fim mas o (re)começo de um caminho de positividade e sobriedade. Só por hoje, confie nisso e dê o primeiro de seus muitos passos transformadores que ainda virão.

Meditações para Mulheres que Amam Demais, 7 de Outubro: “Se você acredita ou não em Deus e, caso acredite, se você fala ou não com Ele, ainda assim pode desenvolver sua espiritualidade. Descubra o que lhe traz paz e serenidade e dedique algum tempo, pelo menos meia hora por dia, a essa prática. Tal disciplina pode trazer-lhe, e trará, alívio e conforto.” Robin Norwood

A espiral da recuperação – Parte 2

“Há anos observo as pessoas usarem várias ilustrações para representar a recuperação ou o processo de crescimento … Já vi a recuperação ser retratada como um zigue-zague para cima e para baixo, formando picos cada vez maiores … como uma espiral de fora para dentro em círculos menores até formar um centro de estabilidade … como uma linha se movendo para cima e para baixo, formando círculos repetitivos e ascendentes… O que ainda não vi … é uma figura formada por uma linha reta e ascendente. Porque a recuperação não é assim.” Melody Beattie, Para além da codependência, página 58

No post anterior, A espiral da recuperação – Parte 1, foi explorada ideia de um progresso da serenidade espiritual em espiral. Agora, aquela mesma espiral do processo de desenvolvimento será agora analisada pela perspectiva que lhe confere suas curvas, desvios e inclinações: as recaídas.

Recaída em começo de recuperação: indesejável, imprevisível e certeira
As primeiras vezes que se ouve falar em recaídas em reuniões de grupos de doze passos percebe-se algo de misterioso no ar: alguém pode não estar presente à reunião por que recaiu. Alguém está mais tenso ou deprimido por que reconheceu ter recaído. Há uma certa tensão quase constante entre as pessoas em recair. E o que se trata de “recair”, afinal nos perguntamos em nossas mentes. Recair é um jargão das salas de irmandades anônimas para a reincidência em alguma prática que supostamente estaria sendo superada pela terapia de mútua ajuda.

  • Se um adicto começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua compulsão por certa substância (seja álcool, narcótico, remédio, cigarro, etc) e em certo momento a usa novamente; diz-se que “recaiu”.
  • Se um adicto comportamental começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua compulsão por certas atitudes (seja comportamento sexual compulsivo, jogar, compras, comer em excesso, etc) e em certo momento pratica ou retoma a ativa; diz-se que “recaiu”.
  • Se um dependente emocional começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua interação dependente e compulsiva com determinadas pessoas (seja parceria sexo-afetiva real ou platônica, pais, filhos, outras pessoas) e em certo momento age inadequadamente novamente; talvez na forma de perseguição (física, telefônica ou eletrônica) ou agressividade (violência, assédio, ameaça) ou tentativas desesperadas de salvamento (dar dinheiro, ceder moradia inadequadamente, outros), diz-se que “recaiu”.
  • Se um codependente começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua interação compulsiva com determinadas pessoas cujas atividades lhe são alvo de controle (seja parceria sexo-afetiva real ou platônica, pais, filhos, outras pessoas) e em certo momento age inadequadamente novamente; talvez na forma de perseguição (física, telefônica ou eletrônica) ou agressividade (violência, assédio, ameaça) ou tentativas desesperadas de salvamento (dar dinheiro, ceder moradia inadequadamente, outros), diz-se que “recaiu”.


Recaídas durante a recuperação: porquê?
Ao começar a frequentar um programa de Doze Passos, o indivíduo é surpreendido com muitas novidades em sua vida: o novo compromisso pessoal de ir até ao grupo escolhido em certo dia e horário, a gradual formação de um grupo de conhecidos sobre os quais vai conhecendo aos poucos, as informações novas, a vontade inicial de “mudar”, enfim; o horizonte daquele que adere ao Programa de Anônimos se enche de novidades muito rapidamente. É razoavelmente fácil de sentir melhor em um primeiro momento.

É aí onde reside a confusão. Se sentir melhor não é sinônimo de serenidade assim como estar abstêmio não é sinônimo de sobriedade. Toda essa nova vontade em mudar algum aspecto de si e todas essas novidades da Programação estão chegando e se instalando na vida de alguém que necessariamente ainda estará de algum modo vivendo como estabelecido pela “programação” de seu antigo modo de viver que potencialmente o conduziu à adicção ou dependências:

  • uma história de vida pregressa que ainda está se desenvolvendo da forma como foi estabelecida por diversos fatores não necessariamente benéficos ao sujeito;
  • com uma família ou um relacionamento sexo-afetivo disfuncional que ainda exercerá influência sobre o mesmo;
  • adquirindo produtos de mídia e culturais que o entretém enquanto lhe comunicam as mesmas velhas mensagens comerciais distorcidas de um real modo positivo de viver;
  • se a pessoa não construiu um estrutura material ao longo de sua vida (formação, carreira profissional, moradia, amparo social e financeiro, círculo social e networking, prática de hobbies e lazer, definição ou realização de sonhos, etc) ela pode ainda está à mercê de viver de maneiro errática e desestruturada;
  • Muitos outros fatores, tão relevantes quanto os citados e com relevância suficiente para até agir como “gatilhos” de compulsão.

 

Recaídas em recuperação: existe um Programa para isso!
O Programa de recuperação baseado nos Doze Passos de Alcoólicos Anônimos não é um remédio que compra, não é um evento que se vai em um final de semana e não se concretiza segundo “a vontade do freguês”. Uma boa analogia ao Programa de AA seria compreendê-lo como um aplicativo de computador ou celular. Sabe-se que a adoção estruturada de uma série de instruções descritas segundo um código de programação computacional é capaz de realizar um determinado resultado, como uma aplicativo de celular ou computador. Adotar a programação de anônimos na vida, ao final, é reprogramar a vida estruturalmente para obter como resultado específico serenidade espiritual, física e mental. Costumo estender essa definição também aos campos social, ambiental, financeiro e familiar; pois são aspectos inteiramente interdependentes se repararmos bem.

Enquanto um programador de computador elabora seus conhecimentos para gerar os algorítimos de um código de programação visando obter como resultado as tarefas de um aplicativo; aos poucos ele encontrará situações em que seu conhecimento não será suficiente e precisará aprender algo novo, aos poucos surgirão os bugs (ou falhas de programação) que também irão testar suas habilidades de trabalho individual e em equipe e o aplicativo finalizado realizará funções conforme viabilizado pelos conhecimentos – ou falta de – da parte de seus criadores.

Analogamente, o participante de grupo de mútua ajuda está obtendo novos conhecimentos nas irmandades, para gerar habilidades pessoais objetivando uma nova “programação de vida” visando obter como resultado uma vida serena distante de comportamentos de adicção e dependências. Enquanto isso acontece, aos poucos ele encontrará situações em que seu conhecimento não será suficiente e precisará aprender algo novo afim de se afastar de situações e pessoas ligadas à dependência/adicção, aos poucos ocorrerão recaídas (ou falhas em sua “programação”, literalmente!) que também irão testar suas habilidades de recuperação individual e ao lado de seus companheiros, coordenadores e padrinho/madrinha de grupo de anônimos e sua vida após certo tempo de frequência ao programa será tão diferente do modo de vida anterior conforme viabilizado pelos conhecimentos e adesão às ferramentas de recuperação – ou falta de – de seu integrante.

O importante de tudo isso é a percepção de que ninguém que frequente uma sala de terapia de grupo estará imune a recaídas, mas que elas também não irão ocorrer para todo o sempre. Confie em si e no Programa e os (bons) resultados virão a seu tempo.

“As recaídas acontecem com muitos de nós. Acontecem com pessoas que estão se recuperando há dez meses ou há dez anos. Acontecem não porque somos deficientes ou relaxados, e sim porque são uma parte normal do processo de recuperação.” Melody Beattie, Para além da codependência, página 60.

Até que o casamento…

 

NA OPINIÃO DO BILL 72, Dependência – Doentia ou saudável, “Nada pode ser mais desmoralizador do que uma dependência servil e exagerada de um outro ser humano. Isso muitas vezes significa a exigência de um grau de proteção e amor que ninguém poderia possivelmente satisfazer. Assim sendo, aqueles que esperamos que sejam nossos protetores finalmente fogem e uma vez mais somos deixados sozinhos para nos desenvolver ou nos desintegrar”.

“Antigamente o casamento durava”, dizem alguns.

De fato, antigamente o casamento durava bastante, vidas inteiras até. E permitia, no mais das vezes, muita insalubridade: esposa e marido se agredir verbal e fisicamente. Esposa e marido agredir verbal e fisicamente aos filhos. Esposa (às vezes o marido) agarrando a própria existência ao salário e residência do outro até que a morte os separasse. Ser a extensão humana da condição do outro (esposa do fulano de profissão tal, marido daquela de família influente, etc). Antigamente… nada! Tudo ainda acontece, porém, no século XXI, cada vez menos.

Foi necessária a criação de leis específicas para a proteção contra agressões físicas e verbais de mulheres e crianças no interior de suas próprias famílias. No Brasil, são a Lei Maria da Penha e o Estatuto da Criança e do Adolescente as mais conhecidas. Faz parte da evolução do conjunto da sociedade ocidental. Infelizmente, as formas culturais de violência – normalmente mais discretas como a manipulação emocional e a dependência financeira – continuam a ser valorizadas e exaltadas principalmente nos produtos de mídia como cinema e romances. Mas os tempos são de mudanças e até mesmo essas “escolhas” tem tido suas desvantagens expostas.

Quanto menos os casamentos duram hoje em dia, mais descobrimos o quanto melhoramos enquanto indivíduos de uma maneira bastante generalizada. E é desse jeito que humanidade evolui para melhor em questão de relacionamentos sexo-afetivos. Casamentos passaram a ser postos em segundo lugar porque os indivíduos – homens e mulheres – estão aprendendo pouco a pouco a se colocar em primeiro. A palavra autoestima passou a integrar o vocabulário das pessoas de todas as idades e níveis sociais com cada vez mais frequência. O casamento passou a precisar ser bom para ambos, simultaneamente. É uma novidade na história humana. Uma novidade e tanto!

Nas salas de irmandades anônimas o casamento – quando existe – normalmente está em cheque. Um exemplo é uma pessoa ser adicta em álcool e não entender o porquê do parceiro reclamar tanto. Outro parceiro pode não suportar mais a bebedeira do companheiro e querer se separar. Um terceiro indivíduo começar a tratar seu abuso em substâncias e o companheiro não saber mais como lidar com os comportamentos dessa “nova” pessoa que está cohabitando o mesmo teto. Para cada variação de tipo de irmandade anônima (comida, sexo, gastos, narcóticos, etc) há diferentes formas de sofrimento pressionado os casamentos de seus participantes.

Também há o exemplo da dependência emocional que invisivelmente destrói casamentos. Invisivelmente porque nossa sociedade é tão saturada de modelos culturais negativos de se relacionar sexo-afetivamente que muitos comportamentos absurdos dos dependentes emocionais são até mesmo elogiados e incentivados por familiares e amigos, revistas, sites, televisão. Aprender novas formas de sentir, pensar e se comportar para os dependentes de pessoas é um desafio imenso; pois precisam aprender (e aceitar) que seus supostos “acertos” foram na verdade erros que enfraqueceram a relação. É tão complicado para o dependente emocional mudar quanto é difícil para seus parceiros conviverem por muito tempo e proximidade com os mesmos. É desgastante, sufocante,  chega um momento em que apenas já não dá mais para continuar.

Existe finalmente o exemplo do sofrimento do adicto em si que se faz espelhar em outros sofrimentos para suas companhias íntimas que o cercam em um processo conhecido como codependência. São tipicamente a vergonha, tristeza e as tentativas de controle da situação por parte de cônjuges, filhos, outros parentes. O sofrimento que supostamente pertenceria apenas à intimidade de alguém acaba por ser levado de diferentes formas para a vida social e profissional (agressividade, isolamento, auto sabotagem, bullying escolar, etc). O prejuízo da dependência extrapola a dor pessoal, atravessa famílias e casamentos e alcança a sociedade como um todo.

Mas essa mesma sociedade já aprendeu e evoluiu muito em áreas supostamente difíceis – tecnologicamente, politicamente, economicamente. A instituição do casamento (e da família) também precisará continuar mudando para uma sociedade de fato evoluída e saudável. Para todos, ao mesmo tempo. As salas de terapia de mútua ajuda não são terapia de casal e nem foram feitas para salvar ou separar casamentos. Foram feitas para equilibrar indivíduos espiritualmente visando a serenidade de viver; sejam eles dependentes de substâncias, comportamentos ou de outras pessoas. Mas se a pessoa muda, é certo, esse casamento também irá mudar de alguma maneira.

O casamento não mudará sozinho. Instituições e governos, por si, também não serão capazes de mudar o casamento. São as pessoas, disposta às mudanças e a mudar, que mudarão os casamentos. As irmandades anônimas, agora sim,  podem ajudar. Irmandades foram feitas para ajudar “aqueles que querem e não aqueles que precisam” a se amarem o suficiente mesmo que estejam (ou se tornem) sozinhos a desenvolverem a habilidade de buscar relacionamentos sexo-afetivos emocionalmente saudáveis e satisfatórios como um todo ainda que demande certo tempo. Isso então, é uma verdadeira revolução!

NA OPINIÃO DO BILL 85, A vida não é um beco sem saída, “Quando um homem ou uma mulher tem um despertar espiritual, o mais importante significado disso é que ele se tornou agora capaz de fazer, sentir e acreditar naquilo que ele não poderia antes fazer sozinho, sem ajuda, com seus próprios recursos e força. A ele foi concedida uma dádiva, que leva a um novo estado de consciência e a uma nova vida. A ele foi indicado um caminho, que lhe mostra que está indo em direção a uma meta, que a vida não é um beco sem saída, nem algo a ser suportado ou dominado. Na verdade ele se transformou, porque se agarrou a uma fonte de energia, da qual até agora havia se privado”.