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Terceiro Passo – Março

Terceiro Passo do programa de recuperação de AA – “3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.

No primeiro passo admitimos nossa impotência perante algo, alguém ou um determinado comportamento. No segundo passo, viemos a acreditar que algo superior a nós mesmos poderia nos ajudar a sair de tal situação. Chegamos ao terceiro passo que nos solicita entregar o cotidiano de nossas vidas a essa nova crença. Bem, isso não seria excessivo? Isso não seria uma religião? Para que tudo isso? Aliás, de que maneira prática seria possível realizar tal feito?

O programa de doze passos tendo os Alcoólicos Anônimos como célula-mãe existe há mais de oitenta anos, em todos os continentes do planeta e gerou uma série de outros grupos anônimos para as mais diversas questões. Se existe uma forma de se “entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus” a única certeza que poderemos ter é que isso foi realizado de milhões de maneiras únicas e diferentes entre si, pois assim é cada ser humano: único e diferente. Considerando isso, podemos imaginar algumas possibilidades, mas serão elas realmente válidas para estancar nossa dor e reposicionar nossas vidas em um compasso positivo? Como um meio de reflexão, há o texto da Apresentação do livro de Robin Norwood “Por que eu, por que isso, por que agora?”

“Por que eu? Por que isso? Por que agora? Qual de nós, em tempos difíceis, não careceu de respostas para estas perguntas? Sondamos nossos corações. Interrogamos a vida. Ficamos zangados com Deus. Queremos qualquer ouvinte compreensivo. Por quê? e a resposta volta na forma de paliativos vagos e gerais que não captam nem ao menos nossa dor e frustração e são vazios, impessoais e até irritantes, como estes:

“O tempo cura tudo”

“Você está decepcionado(a), mas vai superar isso”

“É a vontade de Deus e não está em nós discutir”

“É o destino”

“Essas coisas acontecem”

Provavelmente o conselho mais intolerável que recebemos quando estamos arrasados por alguma dificuldade seja este: “Procure não pensar muito nisso. Ficar assim só vai deixá-lo sentindo-se pior”. São palavras oferecidas por amigos bem-intencionados que se veêm impotentes diante de nossa aflição, mas nos deixam naufragados e agitados nos baixios de algo que deu errado, muito errado.”

Se as coisas vão severamente mal em nossa vida, estamos desnorteados o suficiente para não sermos bons conselheiros de nós mesmos. Nossos familiares e amigos podem ter muito amor e consideração por nós mas precisaremos talvez realizar o esforço em separar o reconhecimento da afeição deles por nós e que eles tentam nos ajudar com conselhos (frases de ditos populares, memes de internet) e recursos (pagar uma viagem; comprar um livro religioso, filosófico, espiritual ou de auto-ajuda; chamar para um chopp ou “sair para ver gente” para esquecer dos problemas) que simplesmente não funcionam no mais mais das vezes.

Por isso é que em Doze Passos encontramos deliberadamente um caminho para entregar nossas vidas conscientemente à vontade de Deus (ou Poder Superior ou Vida ou outro conceito); pois não se trata de ter sido mandado a escolher isso, mas ser isso a opção disponível. E precisamos tanto.

Precisamos estancar nossa dor e reassumir uma vida cotidiana positiva. Precisamos  compreender por que tal evento nos impactou – quando outras tantas pessoas não passam por isso ou se passam não se permitem abalar – da forma única e diferenciada que somos e não segundo um provérbio popular! Precisaremos, quem sabe, trocar o doído “por quê?” por um esperançoso “para quê?” dos revezes que vivemos.  O Deus que concebemos quererá o nosso bem e nos colocaremos à disposição para a chegada desse bem que ainda pode estar por vir mas sem dúvida dependerá de nós para chegar e ser tudo aquilo que contribuirá para o alcance do nosso melhor enquanto indivíduos.

 

“Deus não exige que consigamos. Espera apenas que tentemos!” – Lema de AA

Segundo Passo – Fevereiro

Segundo Passo do programa de recuperação de AA – “2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.”

Uma vez identificado um determinado problema em nossa vida através do processo de admissão do Primeiro Passo do programa de recuperação de alcoólicos anônimos temos um potencial desencadeamento de cura em nossas vidas: talvez um grande problema tenha finalmente vindo à tona de modo a chamar nossa atenção de maneira imediata. Talvez esse problema inicial desencadeie uma quebra de nossa negação interior que permitirá enxergarmos uma série de outros problemas dentro de nós – que de outra maneira ou sendo avisado por outra pessoa – jamais reconheceríamos, jamais admitiríamos, jamais nos curaríamos. Com um grande problema abrindo as portas para a mudança de uma série de outros problemas, algumas de nossa novas expressões de viver pessoais se manifestarão naturalmente. E tais modificações serão captadas no ambiente pelos demais que nos rodeiam, gerando também mudanças em nossos relacionamentos.

Mas, que tipo de mudanças pessoais e interpessoais poderiam ser essas? Certamente não as que nos acostumamos a pedir (especialmente dentro dos processos educacionais religiosos tradicionais no tocante às orações) do tipo que ele ou ela mude, que ganhemos essa ou aquela conquista material, que algo assim nos aconteça ou… Por que não? Por que esses tipos de pedidos “justos” de mudanças, a essa altura do processo, já estaremos aprendendo se tratar de manipulações. E não, não será isso parte de nenhum processo de cura factível ou de alcance de serenidade espiritual.

Novamente, “e porque não?” imagino o leitor se perguntando diante da tela – pois eu também já fiz essa indagação de maneira completamente indignada no começo de minha recuperação em programa de doze passos. Vamos perceber isso bem claramente:

  • Se caio na armadilha de por exemplo, pedir aos céus que fulano magicamente pare de beber (ou outro comportamento que EU considere nocivo); em primeiro lugar fulano parar subitamente com algo que já está acostumado e sem nenhum tipo de conscientização pessoal a chance dessa “mudança” ser breve é muito elevada. Quantos casos em sua vida pessoal você talvez não tenha acompanhado e observado ocorrer exatamente dessa maneira. Quem se decepcionará? Eu!
  • Se caio na armadilha de por exemplo, obrigar fulano a ir à terapia para parar de utilizar substâncias narcóticas (ou outro comportamento que EU considere nocivo); talvez fulano faça isso porque queira ME acalmar ou ME agradar ou ME… Peraí! Isso é fulano se tratando realmente ou utilizando da terapia um argumento para cair em minhas graças – vulgo ME manipular?
  • Não importa a minha idade, se jovem ou amadurecido. Tudo o que sou e as capacidades que possuo provém de minha educação recebida, crenças pessoais adotadas, produtos de mídia e entretenimento que me influenciaram – e falharam. Logo, se meus recursos individuais me indicaram caminhos capazes de me criar problemas como é que seria possível, ao orar, mesmo que fervorosamente, não estar solicitando justamente receber as mesmas circunstância que sempre venho recebendo? Como saber? Basta observar o que venho vivendo! Para novos resultados em minha vida, EU precisaria necessariamente aprender novos pensamentos e a formular novos pedidos. Por isso, muitos adeptos de salas anônimas também associam suas terapias de grupo de mútua ajuda anônimas a terapias cognitivas (ligadas aos processos de aprendizado). Para aqueles que possuem afinidade com textos do tipo “Lei da Atração” agora vemos de que maneira atraímos nós mesmos tudo aquilo de que tentávamos evitar. Sempre “eu”. E como é que esse “eu” aí então se porta de modo tão prepotente a tentar modificar outro alguém conforme sua vontade? Os bons efeitos não conseguirão chegar porque não são assuntos do meu “Eu”, mas do Poder Superior. Humildemente, assumimos nosso PS e libertamos a vida do outro para que o PS também possa ajudá-lo da maneira necessária a ele e que nos é desconhecida. Por amor ao outro é que fazemos isso.
  • Ainda duvida do que foi dito anteriormente? Tudo bem. Se o alvo de tamanha bondade de meus pedidos e orações o tempo todo seria o “outro” porque então rotineiramente estaria “eu” assumindo o papel central de vítima desapontada dos atos alheios? Aliás, nos atentando ao fato de que “persegui” tão corretamente em meus conceitos fulano para “salvá-lo” de si mesmo e agora sou uma “vítima” do descaso de fulano… Eu preciso urgentemente me tratar de meu próprio comportamento de Triângulo de Karpman, concorda? Novamente… EU precisando ME cuidar!

O Programa de Doze Passos além de acessível é muito simples. O que ele nos sugere mesmo? Ele nos traz como segundo passo logo posterior à admissão de nosso problema que “Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”:

  • “Viemos a acreditar” pois é um passo pessoal. Ninguém nos obrigou a acreditar em nada. Igualmente somos impotenteS a obrigar quem quer que seja a acreditar em qualquer coisa. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • “que um Poder Superior a nós mesmos” pois nossa educação, nossas crenças pessoais, nossos produtos de mídia e entretenimento que nos influenciram falharam. Logo, se meus recursos individuais me indicaram caminhos capazes de me criar problemas tão grandes, ao ponto de agora exigir minha rendição, admissão e participação de um programa de recuperação então eu preciso me abrir a algum tipo de conhecimento que ainda me seja novo. Talvez eu precise de Deus como um Poder Superior a partir de agora. Talvez eu precise de algo diferente. Mas, primordialmente, eu preciso estar de mente aberta a reconhecer que preciso me expor a conhecer o novo e a identificar meu próprio processo de cura. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • “poderia devolver-nos à sanidade” é nossa meta. É nossa vida. Uma nova vida. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • No segundo passo baseado em grupos de mútua ajuda anônimos, o “eu” se torna finalmente meu recurso de desenvolvimento pessoal e espiritual e deixa de ser um recurso a culpar aos outros por meus próprios problemas.

“Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”. Mas não seria justamente orando que me comunicarei com meu Poder Superior, Deus, Eu Verdadeiro ou outra concepção de PS? Haveria alguma outra maneira de fazê-lo sendo ajustado ao conceito do segundo passo? A literatura nos sugere alguns pensamentos a respeito:

  • NA OPINIÃO DO BILL 20, Luz proveniente de uma oração, Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras. “Guardamos como um tesouro nossa “Oração da Serenidade”, porque ela nos traz uma nova luz que pode dissipar nosso velho e quase fatal hábito de enganar a nós mesmos. No esplendor dessa oração vemos que a derrota, quando bem aceita, não significa desastre. Sabemos agora que não temos que fugir, nem deveríamos outra vez tentar vencer a adversidade, por meio de um outro poderoso impulso arrasador, que só pode nos trazer problemas difíceis de serem resolvidos. Grapevine de março de 1962″
  • Meditações para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood, 04 de Fevereiro: “Reze pela vontade, pela força e pela coragem de reavaliar honestamente o seu passado – e sua responsabilidade por ele. O espírito ouve suas súplicas para limpar a casa e colabora para trazer à luz as dores engessadas do passado, ajudando-a a se livrar delas conscientemente. Assim que sua vontade de perdoar o passado for realmente verdadeira, você verá um grande avanço de entendimento e a dor daquele passado se desvanecerá”.
  • A Linguagem da Liberdade, Melody Beattie,  30 de Dezembro: “Hoje, me entregarei à construção da fundação, da estrutura de minha vida. Se for hora de desfrutar da colocação dos toques finais, me entregarei a isso, e desfrutarei isso também. Lembrar-me-ei de ser grato ao Poder Superior que é o Mestre Construtor e apenas tem em mente meus melhores interesses, criando e construindo minha vida. Serei grato ao meu Poder Superior pelo cuidado e atenção aos detalhes em construir a fundação – embora eu às vezes ficasse impaciente. Estarei à espera da beleza do produto acabado de Deus.”

E no segundo passo descobrimos… que estamos apenas começando!

“Que comece por mim” – Lema de AA