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Quarto Passo – Abril

Quarto Passo do programa de recuperação de AA – “4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”.

“Pegamos os olhos de outra pessoa e olhamos para nós mesmos. Enxergamos apenas aquilo que estamos trabalhando, como temos sido afetados, o que estamos fazendo, quais são nossas características, e escrevemos num pedaço de papel o que vemos” Melody Beattie, Codependência Nunca Mais, pg 222.

Iniciados os três primeiros passos (admissão, entrega e confiança em um Poder Superior), começasse a vislumbrar a realização do Quarto Passo. São comuns nessa fase reações do tipo:

  • Uns se assustam e simplesmente não o fazem. Diria até que muitos!
  • Outros o fazem correndo logo ao chegar nas salas ”pra ver se resolve logo”.
  • Há quem o faça com o auxílio de um padrinho ou madrinha. Ou um terapeuta.
  • E sempre tem aqueles que ”é claro que irão fazer” – mas, passadas muitas 24 horas, nunca fizeram.

Seja qual for a atitude diante do 4º passo, algo é certo: não é um passo tranquilo para quase todo mundo que segue o programa de doze passos.

  • Nossa cultura não nos estimula a ler, muito menos a escrever. ”Vou fazer redação com essa idade?”
  • Parece que iremos produzir provas contra nós mesmos em momentos delicados da vida em que só queríamos ser amparados.
  • Como colocar décadas de acúmulo de problemas pessoais em um pedaço de papel? Por onde começar?
  • Convence-se de que vai ser demorado de fazer, ”estou sem tempo para isso”… aí, a pessoa lê sobre o 4º passo, partilha sobre o 4º passo, ouve falar do 4° passo sem nunca o fazer de realmente.

O quarto passo desperta tanta controvérsia nas pessoas que é comum que cada irmandade anônima disponha de literatura endossada de auxílio aos seus participantes. Também há publicações independentes de auxílio ao Quarto Passo:

Minha visão é a de que ninguém “faz um quarto passo”. Ao aderirmos de boa vontade ao programa de recuperação de dependências baseado em AA, nos tornamos pessoas que “praticam o quarto passo” assim como se pratica yoga ou caminhada, ou seja, de forma regular.

  • A primeira vez que se escreve um quarto passo podemos ficar extremamente focados no problema do momento –  e não em nós mesmos holisticamente.
  • A primeira vez que se escreve um quarto passo podemos ficar extremamente focados em acusar outras pessoas  –  e não em nós mesmos holisticamente.
  • A prática regular de escrita reflexiva pode ajudar a superar velhas mentiras que nos acostumamos a contar a nosso respeito.
  • A prática regular de escrita reflexiva pode nos estimular a realizar “quartos passos específicos” observando nosso próprio histórico, comportamentos e pensamentos diante de relacionamentos, adicções, no ambiente de trabalho e familiar e outras situações pertinentes.

Leve uma caneta e um caderno a um local tranquilo (em casa sozinh@, biblioteca, parque) e… comece!

“NA OPINIÃO DO BILL 173, As raízes da realidade: “Iniciemos um inventário pessoal, o Quarto Passo. Sem fazer um inventário periódico, um negócio geralmente vai à falência. Fazer um inventário comercial é um processo que consiste em conhecer e enfrentar os fatos. É um esforço para se descobrir a verdade sobre a mercadoria em estoque. Um dos objetivos é revelar os bens danificados ou que não têm condições de serem vendidos, de desfazer-se deles logo, sem pesar. Para que o dono do negócio seja bem-sucedido, ele não pode se enganar a respeito dos valores. Tínhamos que fazer exatamente a mesma coisa com nossas vidas. Tínhamos que fazer um inventário com honestidade”, “Tenho excelentes razões para saber como os momentos de percepção podem construir uma vida inteira de serenidade espiritual. As raízes da realidade, suplantando as ervas daninhas neuróticas, vão promover uma base firme, apesar do furacão das forças que nos destruiriam ou que usaríamos para nos destruir”. 1 – Alcoólicos Anônimos, pág. 78, 2 – Carta de 1949

Serenidade x Carnaval

Se pode não ser fácil manter a sobriedade no período de festas familiares como as do final de ano (Ação de Graças no exterior, Natal e Réveillon) a chegada do Carnaval exercerá uma certa influência sobre as escolhas daqueles que estão em programas de recuperação baseado em Doze Passos.

Carnaval é o mais longo período de festejos no Brasil, com sua comemoração iniciada semanas antes de sua data oficial e encerrado somente dias após seu término no calendário. É muito tempo para lidar, pois é também é a data com a maior concentração de uso, abuso e incentivo social e cultural ao exagero de alguns comportamentos e substâncias mais influenciadores de humores o possível: álcool, euforia, cigarro, drogas, sexo, gastos; ciúmes, brigas e rompimentos em relacionamentos; sentimentos depressivos de quem não tem “turma”, as tentativas de controle sobre as atitudes dos filhos… uma longa lista. Tudo intenso e com apelo para ainda mais.

Para quem está em recuperação, talvez a sensação seja de se desviar de um verdadeiro “campo minado”. Agrava o fato de nem todas as pessoas estarem em recuperação, o que significa que pessoas com absoluto desconhecimento de suas adicções ou problemas comportamentais estarão se exaltando ainda mais. É muita, muita adrenalina, que proporciona toda a intensidade da festa e igualmente a intensidade de seus possíveis problemas.

Carnaval: as Dúvidas

  • Conseguirei me divertir sem perder o domínio diante do álcool, drogas ou cigarro?
  • Conseguirei me divertir sem perder o domínio de mim diante do ciúme sobre aqueles que me acompanham?
  • Conseguirei me divertir sem comer em excesso ou não me alimentar?
  • Conseguirei me divertir saudavelmente em grupo?
  • Se estou só, manterei o equilíbrio estando em casa ou na rua ou buscando companhia adequada para sair? A alegria dos grupos unidos será alvo de minha admiração – em vez de minha frustração?
  • Conseguirei manter minhas finanças em dia apesar dos festejos?
  • Conseguirei manter minha saúde e autoestima diante de meus comportamentos sexuais?

Carnaval: “Modo de Fuga”

  • Algumas pessoas optam em se refugiar em retiros organizados por suas irmandades anônimas.
  • Outros já preferem retiros religiosos ou de meditação.
  • Há quem fuja do tumulto das ruas viajando para locais sem festejos.
  • Há quem simplesmente se recuse a sair de casa realizando “maratonas” de filmes e séries na tv e internet.

Carnaval: “Tamo junto”

  • Sair na companhia de parceiros de recuperação.
  • Chamar a família e amigos para casa ou aceitar convites.
  • Aproveitar os dias de feriado e fazer maratona de recuperação indo a várias salas eventualmente abertas.

Ferramentas de recuperação vitais nesse período

  • Número do telefone do padrinho ou madrinha acessível.
  • Endereços de salas que funcionem excepcionalmente no período.
  • Participar de pequenos grupos fechados de Facebook ou listas de Whatsapp exclusivas de pessoas em recuperação com quem possa conversar alternadamente com aquelas que conheça pessoalmente e possua afinidade.

Só por hoje, tudo vai dar certo!

 

 

Primeiro Passo – Janeiro

Primeiro Passo do programa de recuperação de AA – “1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.”

Como citado em outra postagem aqui do site GDP, Fechar um Ciclo, Recomeçar um Ciclo, a ideia de organizar uma parte do processo de recuperação seguindo o calendário – passos correspondentes a cada um dos doze meses do ano, lemas a cada semana, meditações diárias ou seja como for – são estratégias possíveis para a manutenção de uma disciplina espiritual. Cada pessoa, de preferência junto ao seu padrinho ou madrinha de recuperação ou após ouvir espelhos mais experientes em reuniões de irmandades anônimas, irá formular ou adaptar um meio de incorporar o programa de doze passos a sua própria rotina.

O Primeiro Passo nos diz em outras palavras que admitimos nossa derrota: nossas vidas – e talvez em conjunto as vidas  de outras pessoas próximas a nós – se desgovernaram devido a atitudes de nossa parte que agora estão cristalizadas em nós como adicção, depressão ou comportamentos inadequados com os quais não conseguimos lidar ou interromper mais por nós mesmos.

É preciso admitir em que ponto falhamos para que possamos estabelecer um objetivo. Onde falhei será meu foco de recuperação. Talvez, junto ao desenvolvimento do processo de autoconhecimento que se dá início a partir desse passo inicial virão a ser feitas outras admissões de outras questões; pois é muito comum que adicções, sofrimento espiritual e comportamentos compulsivos estejam interligados de variadas formas em cada pessoa. Tudo terá seu devido tempo, mas o importante será estabelecer no primeiro passo uma admissão, um desejo de reverter uma situação.

Bem, talvez tenha sido difícil admitir. Alguns precisam chegar ao fundo do poço e buscar uma ajuda qualquer para não perder ainda mais (um emprego, um casamento, a guarda de um filho, um fio de sanidade). Se o que apareceu como chance de tentar algo foi “esse tal de Anônimos, que seja”. Outros serão empurrados para dentro das salas por familiares (empurrados? Quantos familiares não assistem a primeira reunião em dupla dentro da sala ao lado do futuro ingressante, por garantia de que realmente venha a participar? Muitos!). As mais diferentes razões e circunstâncias podem fazer alguém cruzar a porta fechada com a plaquinha pendurada do lado de fora: “reunião em andamento, deixe os cumprimentos para depois.” Entrar, ficar e continuar voltando.

O trecho final desse passo nos reafirma seu propósito; pois admitimos nossos problemas visando a retomada do rumo saudável de nossos dias. Buscamos de volta nossa esperança através do desejo sincero de mudar aquilo que podemos, ou seja, nós mesmos. E assim, as demais circunstâncias também acabam por mudar como um reflexo ou adaptação aos novos desdobramentos do primeiro passo e a adoção dos outros que viremos a praticar. Mas só depois do primeiro.

Você faz parte um grupo anônimo? Há quantas 24 horas? Você ainda não faz parte mas gostaria de se integrar a um grupo? Busque um endereço. O primeiro passo não será o fim mas o (re)começo de um caminho de positividade e sobriedade. Só por hoje, confie nisso e dê o primeiro de seus muitos passos transformadores que ainda virão.

Meditações para Mulheres que Amam Demais, 7 de Outubro: “Se você acredita ou não em Deus e, caso acredite, se você fala ou não com Ele, ainda assim pode desenvolver sua espiritualidade. Descubra o que lhe traz paz e serenidade e dedique algum tempo, pelo menos meia hora por dia, a essa prática. Tal disciplina pode trazer-lhe, e trará, alívio e conforto.” Robin Norwood

A espiral da recuperação – Parte 2

“Há anos observo as pessoas usarem várias ilustrações para representar a recuperação ou o processo de crescimento … Já vi a recuperação ser retratada como um zigue-zague para cima e para baixo, formando picos cada vez maiores … como uma espiral de fora para dentro em círculos menores até formar um centro de estabilidade … como uma linha se movendo para cima e para baixo, formando círculos repetitivos e ascendentes… O que ainda não vi … é uma figura formada por uma linha reta e ascendente. Porque a recuperação não é assim.” Melody Beattie, Para além da codependência, página 58

No post anterior, A espiral da recuperação – Parte 1, foi explorada ideia de um progresso da serenidade espiritual em espiral. Agora, aquela mesma espiral do processo de desenvolvimento será agora analisada pela perspectiva que lhe confere suas curvas, desvios e inclinações: as recaídas.

Recaída em começo de recuperação: indesejável, imprevisível e certeira
As primeiras vezes que se ouve falar em recaídas em reuniões de grupos de doze passos percebe-se algo de misterioso no ar: alguém pode não estar presente à reunião por que recaiu. Alguém está mais tenso ou deprimido por que reconheceu ter recaído. Há uma certa tensão quase constante entre as pessoas em recair. E o que se trata de “recair”, afinal nos perguntamos em nossas mentes. Recair é um jargão das salas de irmandades anônimas para a reincidência em alguma prática que supostamente estaria sendo superada pela terapia de mútua ajuda.

  • Se um adicto começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua compulsão por certa substância (seja álcool, narcótico, remédio, cigarro, etc) e em certo momento a usa novamente; diz-se que “recaiu”.
  • Se um adicto comportamental começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua compulsão por certas atitudes (seja comportamento sexual compulsivo, jogar, compras, comer em excesso, etc) e em certo momento pratica ou retoma a ativa; diz-se que “recaiu”.
  • Se um dependente emocional começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua interação dependente e compulsiva com determinadas pessoas (seja parceria sexo-afetiva real ou platônica, pais, filhos, outras pessoas) e em certo momento age inadequadamente novamente; talvez na forma de perseguição (física, telefônica ou eletrônica) ou agressividade (violência, assédio, ameaça) ou tentativas desesperadas de salvamento (dar dinheiro, ceder moradia inadequadamente, outros), diz-se que “recaiu”.
  • Se um codependente começa a frequentar o Programa e a aprender novos recursos para superar sua interação compulsiva com determinadas pessoas cujas atividades lhe são alvo de controle (seja parceria sexo-afetiva real ou platônica, pais, filhos, outras pessoas) e em certo momento age inadequadamente novamente; talvez na forma de perseguição (física, telefônica ou eletrônica) ou agressividade (violência, assédio, ameaça) ou tentativas desesperadas de salvamento (dar dinheiro, ceder moradia inadequadamente, outros), diz-se que “recaiu”.


Recaídas durante a recuperação: porquê?
Ao começar a frequentar um programa de Doze Passos, o indivíduo é surpreendido com muitas novidades em sua vida: o novo compromisso pessoal de ir até ao grupo escolhido em certo dia e horário, a gradual formação de um grupo de conhecidos sobre os quais vai conhecendo aos poucos, as informações novas, a vontade inicial de “mudar”, enfim; o horizonte daquele que adere ao Programa de Anônimos se enche de novidades muito rapidamente. É razoavelmente fácil de sentir melhor em um primeiro momento.

É aí onde reside a confusão. Se sentir melhor não é sinônimo de serenidade assim como estar abstêmio não é sinônimo de sobriedade. Toda essa nova vontade em mudar algum aspecto de si e todas essas novidades da Programação estão chegando e se instalando na vida de alguém que necessariamente ainda estará de algum modo vivendo como estabelecido pela “programação” de seu antigo modo de viver que potencialmente o conduziu à adicção ou dependências:

  • uma história de vida pregressa que ainda está se desenvolvendo da forma como foi estabelecida por diversos fatores não necessariamente benéficos ao sujeito;
  • com uma família ou um relacionamento sexo-afetivo disfuncional que ainda exercerá influência sobre o mesmo;
  • adquirindo produtos de mídia e culturais que o entretém enquanto lhe comunicam as mesmas velhas mensagens comerciais distorcidas de um real modo positivo de viver;
  • se a pessoa não construiu um estrutura material ao longo de sua vida (formação, carreira profissional, moradia, amparo social e financeiro, círculo social e networking, prática de hobbies e lazer, definição ou realização de sonhos, etc) ela pode ainda está à mercê de viver de maneiro errática e desestruturada;
  • Muitos outros fatores, tão relevantes quanto os citados e com relevância suficiente para até agir como “gatilhos” de compulsão.

 

Recaídas em recuperação: existe um Programa para isso!
O Programa de recuperação baseado nos Doze Passos de Alcoólicos Anônimos não é um remédio que compra, não é um evento que se vai em um final de semana e não se concretiza segundo “a vontade do freguês”. Uma boa analogia ao Programa de AA seria compreendê-lo como um aplicativo de computador ou celular. Sabe-se que a adoção estruturada de uma série de instruções descritas segundo um código de programação computacional é capaz de realizar um determinado resultado, como uma aplicativo de celular ou computador. Adotar a programação de anônimos na vida, ao final, é reprogramar a vida estruturalmente para obter como resultado específico serenidade espiritual, física e mental. Costumo estender essa definição também aos campos social, ambiental, financeiro e familiar; pois são aspectos inteiramente interdependentes se repararmos bem.

Enquanto um programador de computador elabora seus conhecimentos para gerar os algorítimos de um código de programação visando obter como resultado as tarefas de um aplicativo; aos poucos ele encontrará situações em que seu conhecimento não será suficiente e precisará aprender algo novo, aos poucos surgirão os bugs (ou falhas de programação) que também irão testar suas habilidades de trabalho individual e em equipe e o aplicativo finalizado realizará funções conforme viabilizado pelos conhecimentos – ou falta de – da parte de seus criadores.

Analogamente, o participante de grupo de mútua ajuda está obtendo novos conhecimentos nas irmandades, para gerar habilidades pessoais objetivando uma nova “programação de vida” visando obter como resultado uma vida serena distante de comportamentos de adicção e dependências. Enquanto isso acontece, aos poucos ele encontrará situações em que seu conhecimento não será suficiente e precisará aprender algo novo afim de se afastar de situações e pessoas ligadas à dependência/adicção, aos poucos ocorrerão recaídas (ou falhas em sua “programação”, literalmente!) que também irão testar suas habilidades de recuperação individual e ao lado de seus companheiros, coordenadores e padrinho/madrinha de grupo de anônimos e sua vida após certo tempo de frequência ao programa será tão diferente do modo de vida anterior conforme viabilizado pelos conhecimentos e adesão às ferramentas de recuperação – ou falta de – de seu integrante.

O importante de tudo isso é a percepção de que ninguém que frequente uma sala de terapia de grupo estará imune a recaídas, mas que elas também não irão ocorrer para todo o sempre. Confie em si e no Programa e os (bons) resultados virão a seu tempo.

“As recaídas acontecem com muitos de nós. Acontecem com pessoas que estão se recuperando há dez meses ou há dez anos. Acontecem não porque somos deficientes ou relaxados, e sim porque são uma parte normal do processo de recuperação.” Melody Beattie, Para além da codependência, página 60.

Ciclos Viciosos

Aqueles que participam ativamente do Programa de Doze Passos possuem a consciência de estar aderindo a um novo modo de sentir, pensar e agir capaz de transformar positivamente seu viver visando a superação de problemas de dependência e emocionais. Em contrapartida, existe a percepçāo de já existir dentro de cada um uma “velha” programação a ser descartada; gerada ao longo da vida pela vivência de traumas, estresses, famílias disfuncionais e outros fatores. Realizar a transcendência de uma programação pela outra constitui um desafio e tanto. Abaixo, algumas das armadilhas – as indesejadas recaídas – que costumam surgir durante cada passo dessa – às vezes longa – jornada chamada recuperação.

Auto sabotagem

A auto sabotagem são os ‘presentes de grego’ de nosso inconsciente em que os azares/circunstâncias/pessoas /sociedade nos deprimirão ao ponto de somente obtermos alívio de uma fonte específica: o vício/compulsão adotado.Não é o acaso que nos conduz à recaída emocional/adicção mas a busca de uma justificativa ‘honesta’ à prática da adicção que nos desgoverna em incidentes conscientemente indesejáveis, porém, inconscientemente planejados por nossas almas.Jamais praticamos nossas adicções por uma razão inesperada mas certo é que semeamos razões suficientes para que a colheita da adicção/compulsão ocorra com alguma regularidade capaz em atender a nossos anseios inconscientes.

Padrões

Exemplo simplificado: qualquer pessoa pode encontrar em textos jornalísticos coisas do tipo: ”Chegue cedo a seus compromissos e assim evitará censuras sociais e perda de confiança.” A pessoa lê. Entende. Quer isso para si. Até pode exigir tal comportamento dos outros.Passam-se anos, décadas, uma vida talvez. E a pessoa é a ‘atrasilda’. Sofre censuras e ninguém confia nela.Melhor seria reposicionar causa e consequência: a pessoa, seja por trauma de infância/família disfuncional/etc não consegue inconscientemente permitir que os outros depositem nela confiança (o que quase sempre acarreta responsabilidades maiores) ou se ver como merecedora de elogios.Conscientemente todos queremos isso: confiança e elogios. Mas somos governados, segundo o próprio pai da psicanálise, por nossos ‘90%’ inconsciente que nos auto sabotarão – no caso desse pequeno exemplo – com atrasos e mais atrasos aos quais culparemos o trânsito, o azar, etc e etc nos fornecendo através dos ”julgamentos e injustiças alheias” todo o afastamento de compromissos sérios e expectativas a nosso respeito aos quais temos pavor e nem sequer podemos nos dar conta.

Histórias Pais e Filhos

Se um pai ou mãe adota um comportamento indevido não é difícil que seus filhos conscientemente o identifiquem. Porém, inconscientemente registra-se o indesejado aprendizado como uma forma automática de agir. Filhos adotam involuntariamente formas alteradas dos comportamentos familiares similares. O que aos seus próprios olhos parece ser opção e identidade própria, outras pessoas rapidamente são capazes de afirmar que ”quem sai aos seus não degenera”. Lembrando a velha canção, ”você diz que seus pais não entendem mas você não entende seus pais”. E nem mesmo a si, em nível profundo.

Dores de Processo

Cada um nasce com algumas bagagens, como a genética, emocional e ambiental. Cada pessoa teria ‘uma dose de dor’ a ser vencida ao longo de sua existência, tão necessária, pessoal e insubstituível como respirar. Saída generalizada? Vícios prazerosos ou de fuga. Porém, o que são as adicções em prazer na vida de uma pessoa sofrida senão um catalisador de piora? Por exemplo, a mesma dose de droga que uma pessoa usa recreativamente conduzirá outro à desgraça e assim sucessivamente em relação a fumar, brigar, se exibir, comer, controlar, adoecer, se alcolizar, amar, se drogar, transar, se entreter, mentir, trabalhar, se exercitar, sofrer, jogar, ajudar, se isolar, comprar e seus inúmeros eteceteras e variações. A ‘adicção de escolha prazerosa ou de fuga’ normalmente não destrói e nem é capaz de matar quem não a utiliza como ‘amortecedor de dores de processo individual’ mas para aqueles que inconscientemente a elegem dessa maneira podem estar fatalmente vulneráveis às mesmas. Poucos nascem, vivem e morrem em satisfação nata. É fácil associar tal pensamento ao ‘Karma’ budista em que tudo o que se faz cria uma consequência negativa em um ciclo contínuo de sofrimento próprio e que impacta as pessoas ao redor. ‘Samsara’. Se dores de processo são quase impossíveis de se curar puramente, gratidão aos vícios que nos levem ao paraíso da paz, superando as dores próprias intransponíveis através dos conflitos adicionais capazes de orientar e purificar. Isso, apenas caso aceitemos que a prática insistente da compulsão prazerosa é igualmente a rota e rotina de nossos infernos e de nossos amados que nos cercam. Em que parte da viagem na estrada de nosso viver o contato com a dor original conduz à pista da dependência de adicção (em que a degradação lenta do ‘veículo’ se acelera continuamente arriscando a vida do condutor, eventuais ‘passageiros’ e dos outros viajantes ao redor) se dirigindo à bifurcação que oferta duas pistas como opções sendo um lado a que manterá a vivência sofrida nas escolhas dependentes ou o outro lado que conduzirá à mudança total? Um propósito de vida seria a placa rodoviária com uma seta apontando para a pista rumo à alegria pessoal? Talvez.Nascemos com dores, elegemos vícios diversos ( ”que não viciam nada” em nossas negações), sejam legais ou ilegais, e assim recebemos a grande chance da vida de nos elevarmos pelo descarte da dor e pelo descarte simultâneo da dependência de tal prática ou prazer. Ou o viver perecerá gradualmente de modo diário, talvez abrupto. Porém, nossos nascimentos e vivências guardam dentro de nossas almas mapinhas semelhantes aos quadradinhos de um jogo de batalha naval. Quem nasça, hipoteticamente, com fragilidades em 3F Drogas + 9B Álcool+ 7D Jogo talvez veja sua vida sair razoavelmente ilesa de opções como Afetos co-dependentes + Brigas + Comilança. Porém, provavelmente sem chances de evolução devido a falta de desafios interiores. Outro, com apenas uma fragilidade em 5C Competir poderá encontrar a ruína na prática obsessiva de algum esporte que cause lesões físicas constantes, absorva seu tempo atenção recursos e exponha seus limites à alguma situação letal. Aí, observamos a segunda ‘pista’ condutora à chance de transformação. É quando encaramos nosso passado e a nós mesmos após certo tempo que temos alguma chance de identificar onde pisamos em falso e de onde saímos ilesos em situações em que outros se perderam.

Auto sabotagem, padrões, história de pais e filhos, dores de processo são os enredos sinceros de um diário do tipo ‘Mentiras que invento para mim’.

OBS Autoria leiga em ‘psis’, mas a cada passo mais experiente em um rumo melhor.

Propósitos de Vida

Em doze passos buscamos um equilíbrio completo: físico, mental e espiritual. Buscamos o bem-estar interior, exterior e com os demais que nos cercam. As atividades que realizamos (ou deixamos de realizar) também passa a ser reavaliada em alguns casos. Podemos passar a exercer nossas atividades com mais paixão, abandoná-las, trocá-las ou iniciar novas tarefas para as quais não havíamos dedicado atenção antes da entrada nas salas de terapia de grupo anônimas.

Por algum tempo, uma missão de vida – ou dharma segundo a cultura indiana – me pareceu bastante complicado e obscuro. Porém, percebi que encontrar uma missão de vida particular dificilmente difere de realizar algum tipo de atividade de cunho coletivo, mesmo quando travestida de alguma sofisticação atual.

Há infinitas formas em se realizar espiritualmente, mas se por fim atende a algum objetivo arraigado da história humana é mais provável de obtenha êxito. O que seria dos códigos de programação das redes sociais se não satisfizessem essa alusão tão necessária quanto primitiva de “estar junto dos nossos”, né? E ao mesmo tempo a alegria que traz o ato de “criar” algo aravés do esforço individual mas que esse algo seja importante coletivamente.

Faz todo sentido, já que vivemos em pequenas organizações sociais por um período histórico muito mais extenso do que o atual. Esse jeito antigo de viver ainda perdura em quase todos os continentes mesmo já no século XXI. Segur uma breve lista e sugestões, pois somos 7 bilhões de serem humanos apenas na atualidade,cada um com sua história e jeito de ser e viver.

Descobrir uma missão pessoal ou simplesmente adotar alguma tarefa como tal, segundo dizem, oferta um estado de fluxo onde a atividade nos absorve com tamanho prazer que chegamos a perder a noção de tempo e nos sentimos energizados por exercê-la (ao invés de esgotados e estressados como costuma acontecer nos trabalhos impostos por ouras razões).

Arte – Elaborar objetos únicos (seja por exclusividade ou uma padronização cultural específica).

Artesanato – criar e produzir seriadamente objetos de padrões tradicionais. Fazer cestaria, brinquedos, objetos e ferramentas.

Cantar – criar canções, cantar sozinho ou em grupo, manter tradições de canto, ensinar a cantar

Cozinhar – sozinho ou em grupo, restaurante ou fornecimento

Competir – jogos, esportes, concursos e campeonatos

Conversar – coaching, ensinar, palestrar

Construir – abrigos, casas coletivas e templos, espaços públicos e de interação social

Criar animais – abrigos para animais desamparados

Cuidar das crianças (abrigar)- cuidadores, orfanatos

Cuidar das crianças (educar)- escola, cursos

Cuidar dos doentes – cuidados paliativos e terapêuticos. Remédios e tratamentos. Ensino da profilaxia

Cuidar dos idosos – Ex: assistência social

Cuidar dos “outros”- Ex: estrangeiros, deficientes, perseguidos políticos/religiosos/sociais

Cultura – São recentes mas envolvem a atenção da criatividade humana: fotografias, quadrinhos, vídeos e desenhos animados

Dançar – organizar festas e ocasiões propícias a unir canções e movimento

Desenhar – em superfícies, em tatuagens e outros objetos

Encenar – Dramatizar histórias com personagens

Esculpir e Modelar – troncos, pedras, gelo, ovos, ossos, conchas, papel, metal, gesso e argila

Escutar – ser terapeuta, conselheiro, amigo, atender no CVV, exercer a empatia

Esportes – Se dedicar, apoiar ou treinar pessoas

Fantasia – Escrever, reproduzir teatralmente, fazer indumentária

Moda – criar estilos ou reproduzir bem estilos consagrados ou criar roupas especiais

Música – criar e tocar instrumentos, criar ritmos

Orar – ensinar sobre as origens da vida e a prestar reverênciais de maneira tradicional

Orientar – arbitar em conflitos, aconselhar visando harmonia, participar da vida política

Plantar – hortas, pomares, jardins, florestas, canteiros, jardins de inverno e terrários

Realizar eventos – reunir pessoas com objetivos ou características em comum

Tecer e estampar – Ex: criar ou produzir as vestes; usando fibras, couros e corantes

Treinar – Ensinar pessoas a realizar tarefas

Com certeza esqueci de alguma coisa… A beleza do que nos faz humanos e únicos é infinita!

O Tempo Revelador

29 de Dezembro Os eventos reveladores da vida podem ou não ser bem-vindos, mas se eles são favoráveis ou não só saberemos com a plenitude do tempo. (Robin Norwood, livro Meditações Diárias para Mulheres que Amam Demais)

É mais ou menos de conhecimento geral que o Programa de Doze Passos se baseia na premissa da Serenidade por 24 horas. Ou, Só Por Hoje. Não é solicitado aos seus participantes a assinatura de um grande contrato ou o acerto de um compromisso pré-determinado de certo tempo. Pede-se apenas a atenção e o controle a um dia de sua vida de cada vez em relação ao motivo que tenha indicado a pessoa a frequentar tal grupo de mútua ajuda. Vitória, encontramos um programa acessível e simples.

“Vitória, como assim? Veja no que irei participar a partir de agora. Que ruim.” – É um pensamento possível nesse primeiro momento.

Dia após dia passamos a visitar reuniões para falarmos sobre nossos desafios pessoais e ouvirmos outras histórias que invariavelmente se assemelham com as nossas próprias em algum aspecto. “O remédio entra pelo ouvido e sai pela boca” nos ensinam. Se existe algo que possivelmente cause embaraço em Salas de irmandade anônimas NÃO são propriamente os relatos que falamos mas o fato que contamos histórias pessoais tão universais, repetitivas, com explicações freudianas conhecidas! Nosso sofrimento nos traiu, descobrimos: aquela dor que ”só” nós mesmos sabíamos o quanto nos dilacerava agora aparece presente com pequenas variações na vida de tantos outros indivíduos desconhecidos. Vitória, o passar do tempo nos revela que nossos segredos talvez não sejam tão sombrios assim.

Falha-se, a famosa recaída. O que se espera de nós? Que reconheçamos a falha, voltemos a frequentar as reuniões e a praticar as ferramentas do Programa do tipo de Grupo ao qual aderimos. As recaídas ainda ocorrerão por certo tempo, mas a espaços temporais cada vez mais crescentes. Vitória, o passar do tempo nos revela nossas próprias mudanças, nos tornando hábeis a nos autoanalisar, tornando nossos comportamentos mais previsíveis a nós mesmos assim nos ofertando a chance de aplicar um livre-arbítrio mais adequado a nossa própria sanidade, interesses e serenidade.

Frequentando reuniões, se conhecendo melhor, aprendendo a interromper os gatilhos da dependência ou comportamentos destrutivos de uma vida equilibrada, uma certa magia (ou seria Lei da Atração? Ou a vontade de um Poder Superior a nós mesmos como cada um o concebe?) começa a encontrar espaço para acontecer. Começamos a identificar companheiros de sala como amigos e criamos (ou recriamos) uma vida social, nos equilibramos emocionalmente, percebemos a chegada de oportunidades na vida e nossa autoestima nos indica como aptos a buscá-las, um círculo virtuoso toma forma e ganha força a nos beneficiar por períodos cada vez mais extensos. Vitória, o Programa de 12 Passos começa a mostrar seus efeitos práticos na vida em geral, extrapolando as Salas.

Finalmente, algumas das frases e textos de reflexão comuns – e um tanto misteriosos – nas salas de mútua ajuda finalmente se tornam compreensíveis: nossos mais insondáveis problemas viabilizaram algumas das mais bonitas soluções de nossas vidas. Nunca ouviu falar nisso ou discorda? Tudo bem, continue voltando para conhecer o segredo que está na próxima reunião. Será na entrega ao tempo que este tipo de vitória exclusiva e pessoal se definirá e manifestará. Permita que o tempo a revele, só por hoje.