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Elogio ao Tinder

Esse não é um texto genérico sobre uma novidade moderna. É um texto diretamente dedicado àqueles que estão em terapias de grupo anônimas, tristes com algumas constatações em seus relacionamentos frustrados ou que nem mesmo vieram a se concretizar.

”Agora com os apps de sexo, os homens não querem mais compromisso” é algo mais ou menos comum de se ouvir desde que esse tipo de aplicativo chegou no Brasil. Já pensei assim também, mas mudei a opinião reacionária por outra bem mais otimista.

Muita choradeira de conhecidas em salas de mútua ajuda, Whatsapp e Facebook. Artigos da Marta Medeiros e Danuza Leão. Uma enxurrada de textos magoados em blogs só confirmam aquele pensamento como meio generalizado.

Os homens agora – e somente agora – não honram seus compromissos afetivos? Acho difícil acreditar nisso.

Em dias de informação, educação, leis de proteção à mulher, feminismo, apelos de artistas, queimação de filme em redes sociais… os índices de estupro/assédio/violência contra as mulheres são/continuam assustadores. Traição vira até besteira diante do resto. A maioria desses alvos são justamente namoradas, esposas e filhas. Imagine exigir o tal do respeito em relação a uma mulher (ainda) desconhecida!

Sim, existem homens maravilhosos e dignos de muito amor. Mas são poucos, em geral.

Não é possível que antes de toda essa rede de proteção formal à mulher (que foi necessária ser feita e é burlada como se não existisse) a maioria dos homens eram ”maravilhosos para casar ou se relacionar”. Sabemos que desde nunca.

”Ah, mas antes todo mundo casava cedo e ficava casado”. Pois é… e com que qualidade de vida? A custa de quanta dor, segredos e mágoas? Isso valendo para eles e elas.

Hoje, mais ou menos, quando um homem não quer namorar ou casar com uma mulher e ela acaba ficando solteira por mais tempo que o desejado, a vida continua disponível para ela e ela continua disponível para a vida: vai se formar, vai trabalhar, vai comprar o próprio carro, vai dirigir à noite, vai viajar, vai falar inglês espanhol e alemão, vai investir seu próprio dinheiro, vai pagar seu plano de saúde, vai se pós-graduar, vai fazer consertos dentro de sua casa, vai conhecer tanta gente que vai ter um monte de compromissos de passeio e encontros, vai conversar com um terapeuta, vai pra academia e pro baile dançar, vai ter a própria grana para fazer tudo isso e talvez ainda ter um plano de previdência; enfim… se ela permitir que o fato de não estar namorando não se iguale ao fato de não estar vivendo. Porque isso é opcional e a deprimiria profundamente se tornando um problema de saúde emocional complicado de se lidar. De toda forma, ela poderá ser uma futura namorada muito melhor do que poderia ter sido antes; é isso que é importante reconhecer. Casar não impede nada daquelas coisas mas cá pra nós, quantas esposas você conhece em sua vida pessoal vivendo com essa plenitude toda? Poucas, provavelmente menos que os dedos de uma mão. É trágico, mas as mulheres ainda insistem a jogar essas “responsabilidades” sobre os homens, quer eles tenham pedido ou não. E isso, por sua vez, é desrespeitoso da parte delas com eles – guardando as devidas proporções obviamente.

A boa notícia é que é possível pensar que o Tinder & cia, através dos homens, abriu uma oportunidade de revolucionar os relacionamentos afetivos de qualidade emocional com essa ‘novidade’ da recusa em namorar em prol da busca do sexo sem compromisso. Calma, também defendo o casamento e as relações de qualidade. Tudo será explicado. A má notícia é que esse resultado positivo será provavelmente de longuíssimo prazo.

1º Elogio ao Tinder: Menos homens compromissados por obrigação social de ”ter que namorar para parecer sério”, vulgo aparências = Mais qualidade de fato nos relacionamentos que venham a se firmar. #coda

2º Elogio ao Tinder: Menos mulheres se tornando dependentes materiais/emocionais de homens ”para parecerem sérias”, vulgo aparências= Mais qualidade de fato das parceiras que passam a cuidar mais da própria vida (profissional, educacional, social, pessoal) nem que seja por excesso de tempo livre da solteirice expandida. #ea

3° Elogio ao Tinder: Menos relacionamentos de ”bom papel social” deles com menos dependência delas sobre eles = Menos famílias disfuncionais, menos filhos sofridos. Aliás, com melhores famílias, melhores homens e mulheres no futuro, igualmente. #alanon #naranon #alateen

4º Elogio ao Tinder: ”O Tinder está mandando a geração atual para as salas de terapia” = Uma sociedade melhor. Freud estava esperando por isso há pelo menos uns 120 anos. #n/a

5º Elogio ao Tinder: Ficou mais fácil perceber o vício/adicção/dependência em sexo culturalmente estimulado nos homens = Mais terapias, vidas melhores, parcerias melhores. #dasa

6º Elogio ao Tinder: “Ele me iludiu com a chance de um relacionamento e partiu meu coração”. Ficou mais fácil perceber a dependência emocional culturalmente estimulada nas mulheres. = Mais terapias, vidas melhores, parcerias melhores. #mada

Com perplexidade constato que o Tinder – e os homens – estão fazendo pelo avanço das mulheres quase o mesmo que o feminismo faz com mais de um século de sangue, discussões e luta. Melhor esquecer os estranhos mensageiros e louvar os resultados da passagem mais intensa da dependência (global) feminina para uma vida independente e até mesmo interdependente – e serena!

Boa notícia para as mulheres – que dificilmente perceberão os benefícios neste momento turbulento de expectativas frustradas – que se beneficiarão de uma autonomia nova na vida. Quanto aos homens, um novo ciclo em que as mulheres estejam tão plenas de suas próprias vidas que não mais praticamente os cacem às custas de transtornos a outras mulheres, lhes exigirá a contrapartida de melhoria global para merecê-las. E estar sujeitos a serem preteridos por outras ambições pessoais delas. Ele terá de ser – assim como a ela foi culturalmente ensinado ao longo de gerações de modo geral – um parceiro de verdade, um pai de verdade, fiel de fato se assim combinarem, saudável, equilibrado, pacífico; enfim, terá que fazer por merecer e realmente valer a pena para ela escolhê-lo para um relacionamento sexo-afetivo saudável! Um (futuro) ciclo virtuoso completo.

Final feliz aos relacionamentos entre pessoas – homens e mulheres – serenos e seguros. Raros na vida, ainda. #soporhoje

NA OPINIÃO DO BILL 3, Dor e progresso, “Alguns anos atrás eu costumava ter pena de todas as pessoas que sofriam. Agora somente tenho pena daquelas que sofrem por ignorância, que não entendem o propósito e a utilidade definitiva da dor”. / “Certa vez alguém disse que a dor é a pedra de toque do progresso espiritual. Nós, AAs, podemos concordar com isso, pois sabemos que as dores decorrentes do alcoolismo tiveram que vir antes da sobriedade, assim como o desequilíbrio emocional vem antes da serenidade”.

A espiral da recuperação – Parte 1

NA OPINIÃO DO BILL 1, Mudança de personalidade, “Com freqüência se tem dito a respeito de A.A., que somente estamos interessados no alcoolismo*. Isso não é verdade. Temos que vencer a bebida para continuarmos vivos. Mas quem quer que conheça a personalidade do alcoólico, através do contato mais direto, sabe que nenhum alcoólico verdadeiro pára completamente de beber sem sofrer uma profunda mudança de personalidade”.
*Ou outras adicções e dependências

A recuperação de uma adicção ou processo de dependência, seja ela qual for, é um processo, pois ocorrerá progressivamente, incluindo conquistas e recaídas, aos poucos enquanto o indivíduo aceita ser mudado, se torna capaz de mudar e se finalmente se torna agente de mudança – voluntariamente ou não – dos demais ao seu redor. Porque quando alguém muda, as outras circunstâncias e pessoas próximas a ele também mudarão em algum nível, é certo.

O Programa de Doze Passos inclui para esta finalidade um grande conjunto conceitual e material de uso em suas reuniões e fora delas: os doze passos, conceitos e tradições; lemas e ferramentas de recuperação, adoção de padrinho ou madrinha de recuperação, reuniões constantes e eventos esporádicos, literatura endossada e materiais de uso em sala, prestação de serviço dentro de sala e fora dela, participação em encontros de comitês de organização interna dos grupos e muito mais. Não será algo que praticaremos ou obteremos integralmente em um único dia e nem mesmo, provavelmente, adotaremos tudo; mas quanto o mais permitirmos adotar em nossa recuperação mais nos beneficiaremos. Sendo flexíveis, sem nos sobrecarregar, atingiremos aspectos mais saudáveis e serenos em nossas vidas. Os grupos baseados no anonimato de seus membros costumam ter ou realizar:

  • Os doze passos: A relação de passos de alcoólicos anônimos – célula mãe dos grupos de mútua ajuda – ilustra as etapas a ser realizadas pelos ingressantes no Programa de recuperação baseado no modelo de AA.
  • Os doze conceitos: São doze regras simples que visam manter a prestação de serviços de cada grupo organizada e harmoniosa.
  • As doze tradições: São doze regras de conduta interpessoal e organização interna de grupos anônimos que visam manter o funcionamentos das salas com harmonia, alternância de participantes em sua organização e não-acumulação de poder sobre determinados indivíduos.
  • As doze promessas: São um conjunto de doze afirmações positivas relacionadas à meta de recuperação de determinado grupo anônimo.
  • As doze diretrizes: São orientação ao modo como o grupo se reportará à situações de exposição na mídia, evitando controvérsias e garantindo o anonimato dos envolvidos.
  • Partilha: O ato de falar durante a reunião em uma sala de mútua ajuda. Normalmente começa com “Sou fulano, um participante em busca de recuperação…” e todos respondem juntos “Oi, Fulano!!!”. Ao final, quem partilhou costuma agradecer dizendo “Obrigada por me ouvirem”.
  • Lemas: São pequenas frases, fáceis de memorizar, que os praticantes de irmandades anônimas costumas adotar pessoalmente em seu processo de recuperação ou como metas do grupo durante certo período.
  • Ferramentas de recuperação: Telefones de outros membros do grupo (atualmente incrementados com listas de Whatsapp e grupos de redes sociais) a quem se possa entrar livremente em contato em momentos de crise para buscar orientação e companhia. Adoção de padrinho ou madrinha de recuperação e manter contato com ele ou ela. 
  • Reuniões constantes: Há uma dia e um horário propício em algum Grupo esperando por você. A ida a um Grupo de maneira nenhuma o vincula a ele. É possível ir participando de reunião em reunião até adotar o Grupo com mais afinidade temática e de companheiros. Também é comum a adesão simultânea a mais de um tipo de sala. Por exemplo, frequentar AA e NA, frequentar Nar-Anon e Coda e CCA, etc.
  • Anonimato dos participantes: “Quem você viu aqui, o que você ouviu aqui, ao sair daqui, deixe que fique aqui”
  • Orações: da Serenidade, da Irmandade e do Grupo.
  • Fitas, fichas ou cartões de tempo de adesão ao programa: São pequenas lembranças de vitórias pessoais e de persistência.
  • Eventos esporádicos: Palestras com participantes mais experientes, palestras com profissionais de terapia, finais de semana de eventos de recuperação em hotéis…
  • Literatura endossada: Os livros e apostilas que seu grupo elegeu como representantes de sua proposta de recuperação. Alguns podem ser adquiridos em livrarias comuns e outros são comprados diretamente nas salas durante as reuniões.
  • Materiais de uso em sala: Cartões para leitura durante a reunião, banners e quadros nas paredes, lenços para quem se emociona durante sua partilha, apostila que orienta a coordenação da sala, lanche para a hora do café e outros materiais para organização e realização do encontro.
  • Prestação de serviço dentro de sala: Ajudar a arrumar a sala antes e depois do encontro, fazer e ajudar a servir o café, verificar pendências, avisar temas importantes aos demais participantes para manter a sala em condições de realizar suas reuniões com eficiência entre os presentes. Prestar serviço eventualmente ou ser coordenador, tesoureiro ou representante do grupo junto ao evento de intergrupo.
  • Prestação de serviço dentro de sala fora dela: Visitar como voluntário empresas, eventos, escolas, presídios, hospitais e outros espaços apresentando a proposta de recuperação de sua sala. Faz parte de “levar a mensagem”.
  • Participação em encontros de comitês de organização interna dos grupos: Participar ativamente da gestão do Grupo de sua cidade colaborando para a existência e continuidade do mesmo. Normalmente acontece na forma de uma reunião de intergrupo com cada sala da cidade enviando um representante que relate a situação de sua sala e juntos adquiram materiais de apoio e informações relevantes a serem repassadas no retorno às suas reuniões. Conhecer as Doze Tradições ajuda bastante.


O começo da espiral da recuperação

Eleger um grupo de apoio e começar a frequentá-lo regularmente, conhecer suas propostas e participantes, conhecer os recursos do programa de Doze Passos, tudo isso, enquanto se está vivendo um quadro ainda de mal-estar devido a uma adicção ou dependência não é fácil e requer um esforço para a manutenção das novas práticas e obtenção dos primeiros sinais de alívio e bem-estar. O Programa de recuperação baseado em AA é acessível, mas requer empenho de seus integrantes. Dia após dias, passo a passo, a vida vai mudando em um processo de desenvolvimento que propõe a geração de novas bases para um novo modo de viver.

Melhorar como um processo de curar
A “cura”, seja para qual problema de adicção ou dependência for, não vem quando pedimos, mas chega durante o tempo a que entregamos o nosso processo de curar. Talvez trocar “cura”  por “melhoria” seja uma melhor visão para o processo. Melhoramos dia após dia, melhoramos compreendendo nossas histórias pessoais, melhoramos junto a outros que também estão melhorando de problemas semelhantes, melhoramos porque passamos a nos autoconhecer.

Falhamos e recaímos bem no meio disso tudo?

A espiral da recuperação – Parte 2

Mas observe a vitória do quanto já melhoramos. A ideia de uma recuperação em espirais ou zigue-zagues ascendentes ou da forma como melhor compreender pessoalmente, de algum modo, estará relacionado à noção de que os progressos estão sujeitos a altos e baixos e que o controle individual não será tão efetivo quanto ao controle pessoal orientado pelos companheiros de programação. Minha visão sobre minha própria recuperação se tornou mais positiva quando elaborei minha própria meta de recuperação e passei a enxergá-la como um gráfico de rendimentos do Bovespa: não importaria observar diversos picos descendentes, eles não significariam prejuízos para mim, eu não iria ficar me recriminando, desde que a grande ascendente sobre a qual se apoiassem continuasse subindo de maneira exponencial em realizações e transformações individuais. Interpretação pessoal, bem pessoal, elabore uma para si também.

E a cada problema superado, não duvide, a vida trará novos. Porém, com uma diferença: os desafios crescerão, pois estaremos vivendo níveis mais conscientes de sentimentos, pensamentos e comportamentos. Não retornaremos a comportamentos antigos para lidar com novas situações cobradas pela sobriedade, mas será que já desenvolvemos a habilidade de tais novas atitudes? Manter uma visão de recuperação como um processo em espiral também incluirá essa mudança progressiva dos desafios que chegarão e dos recursos que abandonaremos ou passaremos a adotar para lidar com os mesmos. São muitos passos nessa nova jornada de (re)construção pessoal. Vale a pena continuar voltando ao Programa!


“NA OPINIÃO DO BILL 331, A grande realidade, “Para o recém-chegado: Entregue-se a Deus, como você O concebe. Admita suas faltas a Ele e a seus semelhantes. Desfaça-se das ruínas de seu passado. Dê livremente aquilo que você receber e junte-se a nós. Estaremos com você na irmandade do espírito e, você certamente se encontrará com alguns de nós, quando trilhar o caminho do destino feliz. Que Deus o abençoe e o proteja! – até lá.”