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Ser Mulher e Dependências

Meditações Diárias para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood, 5 de Agosto: “Nossa cultura na verdade encoraja nas mulheres a dependência de relacionamento e reprova aquelas que não pensam, sentem e agem de acordo com esses moldes.”

Oito de março, tornado Dia Internacional da Mulher em memória das operárias mortas em um incêndio durante uma greve no início dos movimentos trabalhistas e feministas. Seria possível repetir muito do que já foi falado desde então. Mas essa é uma página dedicada ao Programa de Doze Passos baseado em Alcoólicos Anônimos enquanto célula-mãe. Se a mídia e os movimentos sociais denunciam que há muito por mudar para a igualdade entre os gêneros no século XXI, quem vive a recuperação das mais diversos tipos de dependências (químicas, comportamentais, emocionais) sabe ainda – também por muitas vezes associar a recuperação à terapia tradicional – que o aspecto da recuperação espiritual pode ser bastante (mais) árduo para as mulheres.

Quando a mulher inicia sua reabilitação, como se internar voluntariamente quando há filhos em casa para criar? Como priorizar a compra de remédios quando seus filhos têm outras demandas também importantes? Como tomar remédio para dormir (contra insônia) se dormir sozinha ou com crianças pequenas sob seus cuidados? Como ir à reuniões de irmandades anônimas – mesmo sendo gratuitas – se não tiver quem cuide de suas crianças para poder sair de casa por pouco mais de 2 horas? Como ir à terapia ou comprar livros ou reuniões de irmandades anônimas – mesmo sendo gratuitas – se não tiver renda própria suficiente para ao menos pagar por um ônibus? Quando as cuidadoras requerem cuidados, quem cuida delas?

1 – Dependências Químicas

1.1 – Alcoólicos Anônimos: Tradicionalmente o grupo reúne homens em sua maioria, mas muitas mulheres também recorrem à AA com histórico de descontrole em relação ao álcool de modo geral devido a traumas infantis (abandono, agressões, abuso sexual e emocional, etc) ou associados a relacionamentos abusivos.

1.2 – Narcóticos Anônimos: Também tradicionalmente tende a reunir mais homens, mas muitas mulheres também recorrem à NA com histórico de abuso em relação às drogas devido geralmente a traumas infantis ou associado a relacionamentos abusivos.

1.3 – Fumantes Anônimos: Impossível não relacionar o vício em nicotina ao glamour estimulado nas mulheres desde jovens por imagens de divas hollywoodianas e mulheres/modelos/personagens socialmente rotuladas como sexys ou misteriosas segurando cigarros.

1.4 – Grupos Familiares Nar-Anon:
1.5 – Grupos familiares Al-Anon:
1.6 – Alateen:
1.7 – Amor Exigente:
Quando os familiares vão mal, não são justamente as mulheres que investigarão opções de tratamentos, coberturas de planos de saúde, descobrirão as salas de mútua ajuda e terão aquela “conversa séria” para que uma recuperação de inicie?

2 – Dependências Comportamentais

2.1 – Comedores Compulsivos Anônimos: Tradicionalmente o grupo reúne mais mulheres, que recorrem à CCA com histórico de descontrole em relação à comida devido a traumas infantis ou porque passaram a utilizar a alimentação compulsiva como um “amortecedor” para relacionamentos (familiares, sexo-afetivos, profissionais, etc) aos quais não conseguem se emancipar.

2.2 – Devedores Anônimos:
2.3 – Jogadores Anônimos:
Ser mulher é para muitas culturalmente desde cedo ser estimulada a escolher profissões de apoio (enfermagem, ensino com crianças, cuidadoras, etc) que muito exigem e pouco retribuem; ou veladamente serem estimuladas a abandonar suas carreiras para priorizar o ambiente doméstico sob títulos pomposos porém ingênuos como os “mãe exclusiva”. Quantas e quantas mulheres não vivem na dependência financeira (pensões, planos de saúde e previdência) e material (imóveis, heranças) deixados por pais ou ex-relacionamentos que alimentam a ideia do trabalho feminino ser desnecessário? O mesmo valendo para a interrupção de estudo por razões de casamento ou gravidez. Isso pode ser um grave fator de complicações diante de eventuais reveses da vida que possam surpreendê-las quando não desenvolveram habilidades essenciais ao trabalho e estão habituadas a viver completamente despreparadas ao autossustento.

3 – Dependências Emocionais

3.1 – Mulheres que Amam Demais Anônimas: Único grupo anônimo exclusivamente feminino no Brasil. As mulheres recorrem à MADA quase sempre com histórico de depressão severa devido a relacionamentos sexo-afetivos abusivos (com homens ou às vezes com outras mulheres).

3.2 – Ciumentos Anônimos
3.3 – Codependentes Emocionais Anônimos
3.4 – Dependentes de Amor e Sexo Anônimos
3.5 – Emocionais Anônimos
3.6 – Introvertidos Anônimos
3.7 – Neuróticos Anônimos
Muitas das vezes ser mulher é praticamente possuir a literatura endossada de tais irmandades como trechos perfeitos da própria autobiografia.

Meditações Diárias para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood, 21 de Abril: “Não é o que dizemos a nossas filhas, mas o modo como nos sentimos e agimos o que fornece as instruções instintivas do que é ser mulher. Embora nossa recuperação da dependência de relacionamento não garanta que elas repetirão nosso exemplo, essa ainda é a melhor maneira de evitar que façam o mesmo. Na verdade, o melhor presente de uma mãe com dependência de relacionamento para sua filha é a própria recuperação progressiva. Não é reconfortante saber que quanto mais cuidamos de nós, mais criamos oportunidade para que todas as pessoas ao nosso redor sejam verdadeiramente saudáveis e felizes?”

O CoDependente diante do outro

“Sou capaz de ouvir sem dar conselhos”. – Afirmação de CoDependentes Anônimos

Em programas de recuperação baseados em Doze Passos, cada indivíduo que vier a integrar algum de seus inúmeros grupos encontrará um desafio específico. Quer seja se tratando de adictos químicos, comportamentais, codependentes ou outros; não há a ilusão de que as questões de um sejam necessariamente mais fáceis de se “resolver” do que de outros.

Para quem está de fora de um programa como esse, tal impressão se relaciona às vezes em considerar que questões de foro íntimo capazes de levar a consequências legais – tais como prisão ou processo ou mesmo a condenação moral aberta da maioria – sejam necessariamente mais difíceis de lidar do que aqueles que lutam com questões relacionadas às emoções, por exemplo. Quem está nas salas provavelmente conhecerá pelas próprias experiências o quão difícil possa ser a superação de quase todos os quadros mesmo diante de muita disciplina. E disciplina é algo que nem todos dispõem, nem todo mundo gosta, dá trabalho e de fato, exige muito daqueles que se dispõem a dominá-la. Toda e qualquer recuperação toma tempo e esforço, muito mais tempo e esforço do que normalmente se gostaria de admitir.

Neste post será considerado as dificuldades de relacionamentos entre o adicto – seja ele químico ou comportamental ou outro fator gerador de estresse – e seu espelhamento codependente. Quem poderia ser um codependente? Pais, filhos, irmãos (ou outros familiares próximos), os relacionamentos sexo-afetivos (cônjuges, namorados, amantes, etc), amigos íntimos; enfim, se pararmos para pensar bem há MUITO mais pessoas codependentes em escala planetária do que pessoas adictas ou “com problemas” de uma forma geral. Mas, como os adictos geralmente possuem seus problemas catalogados em artigos penais, é tão mais conveniente apontá-los como os grandes causadores de problemas. Se isso for de fato uma verdade, eles nunca o são sozinhos.

Seria possível escrever muito a respeito dos aspectos conflituosos da relação entre codependentes e adictos sem que alguém “de fora” fosse capaz de alcançar o cerne do problema. Na verdade, é o mais comum de se encontrar: excelentes textos da temática codependência e dependência emocional para quem já os estuda e interpreta há bastante tempo, mas um tanto “nebulosos” para quem ainda está começando seus primeiros passos no Programa – ou ainda nem sequer começaram – ou sabem que poderiam se beneficiar de um.

Então o recurso desse post será reproduzir o trecho de um livro chamado “Ame a Realidade” da autora Byron Katie. Esse livro está esgotado e somente consegui meu exemplar através da “busca por raridades” da plataforma de revenda de livros usados Estante Virtual. Tal obra NÃO CONSTITUI LITERATURA ENDOSSADA de grupos anônimos mas apresenta uma passagem interessante sobre o diálogo de duas mães a respeito de suas filhas adictas. De suas 322 páginas, 5 folhas estão reproduzidas aqui. É o mais claro que há para se ilustrar a questão para quem estiver dando seus primeiros passos em conhecer a literatura de codependência.

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“O único comportamento sobre o qual tenho algum controle é sobre o meu mesmo”. – Afirmação de CoDependentes Anônimos

Prestar Serviço e os Passos

24 de JANEIRO, CONSEGUINDO SE ENVOLVER, É preciso ação e ainda mais ação. “A fé sem obras é morta.”… Nossa única meta é sermos úteis.
Quando participamos de nossa primeira reunião de programa de Doze Passos logo ao final do encontro recebemos nosso primeiro convite de prestação de serviço. ”Ao final da reunião solicitamos que nos ajudem a arrumar a sala.” Quando somos informados de que o anonimato é o alicerce espiritual de nossas atividades, também estamos indiretamente ouvindo um chamado à prestação de serviços em sala; pois sendo as atividades internas dos grupos de mútua ajuda realizadas voluntariamente por seus membros fica mais assegurado de que tudo o que foi dito e ouvido ali que assim permaneça.

E de que se trata exatamente a prestação de serviços dentro de irmandades anônimas? Resumidamente, qualquer atividade que viabilize a existência do grupo e a realização de cada reunião. Desde o ato de pegar uma chave que abra a porta do local ou fazer o café para todos os participantes ou distribuir cartazes em murais de espaços de grande circulação; enfim, são muitas as maneiras de se trabalhar por uma determinada irmandade anônima, sendo as mais comuns:

  • Durante a reunião: Providenciar alimentos e bebidas para a hora do intervalo, coordenar a reunião, atuar como secretário ou tesoureiro, arrumar a sala antes e depois do encontro do grupo, manter uma comunicação com os administradores do local onde a sala estiver instalada. Informar notícias relacionadas ao grupo durante o encontro. Se dispor como “Abordagem” para atender pessoas que inesperadamente apareçam à porta durante a reunião.
  • No intergrupo (ou equivalente): Produção dos materiais utilizados nas reuniões como impressão de materiais em gráficas e elaboração de artigos artesanais para eventos. Participação nos comitês de literatura, de eventos, de internet, de informação ao público, de acessórios e outros. Ir ao evento de Intergrupo como Representante de Grupo (RG).
  • Relacionamentos com outros participantes: Ser madrinha ou padrinho de recuperação de alguém.
  • Divulgação externa: Visitar outros espaços e eventos levando a mensagem do Grupo. Distribuir folhetos e afixar cartazes.

Bem, uma vez que as formas de se prestar serviços voluntariamente dentro de salas anônimas são tantas mas porque o participante iria fazê-lo? Em se tratando dos Doze Passos de AA, cujo foco seria uma maneira estruturada de recuperação de um estado espiritual caótico para uma vida equilibrada e afastada dos problemas que precipitaram a ida até a sala – sejam eles quais forem – a etapa que indica essa prática de prestação de serviço como desejável é o décimo segundo passo.

12º Passo – Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.

A prestação de serviço voluntário em grupos baseados no programa de Alcoólicos Anônimos possui muitas razões que asseguram o sucesso dos resultados das próprias irmandades assim como benefícios que se revertem aos próprios servidores.

  • A prestação de serviço voluntária assegura a existência do próprio grupo de maneira anônima, gratuita e com qualidade.
  • A prestação de serviço voluntária assegura o sucesso de seus resultados por ofertar um espaço em que aquele que se encontra em recuperação possa trabalhar em um espaço reduzido, servindo como um verdadeiro ambiente de treino para queles que se afastaram de – ou não chegaram a atuar em – atividades profissionais ao longo da vida; ocupando seu tempo ocioso e viabilizando que seus sentimentos de capacidade e pertencimento aflorem. Com isso, as salas anônimas contam gratuitamente com prestadores de serviços em processo de equilíbrio espiritual interessados na manutenção plena das mesmas, criando uma atmosfera saudável para todos os envolvidos.
  • A prestação de serviço voluntária assegura benefícios que se revertem aos próprios servidores por permitir o permanente contato ativo entre aqueles que estão começando o programa com participantes mais experientes proporcionando-lhes “espelhos de recuperação”. Em contrapartida, os participantes que já estão há algum tempo praticando o programa de 12 passos se mantém em constante contato com os recém-chegados; o que os relembra como eles próprios agiam e pensavam quando chegaram ao grupo e o que não desejam mais a si.

A prestação de serviço em Doze Passos constitui uma base vital do sucesso e continuidade do Programa; pois os resultados positivos alcançados individualmente são revertidos em benefícios coletivos.

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, p.107 ou p.116, Entendo que o serviço é uma parte vital da recuperação mas muitas vezes imagino, “O que eu posso fazer?” Simplesmente começar com o que tenho hoje. Olho em volta para ver onde há uma necessidade. Os cinzeiros estão cheios? Tenho mãos e pés para limpá-los? Subitamente, estou envolvido! O melhor orador pode fazer o pior café; o membro que é o melhor com os novatos pode ser incapaz de ler; o único disposto a fazer a limpeza pode fazer a maior confusão com a conta do banco – mas, cada uma destas pessoas e trabalhos são essenciais para um Grupo ativo. O milagre do serviço é este: quando uso o que tenho, descubro que há mais disponível para mim do que percebia antes.

Outros Grupos

“Só eu posso, mas não posso sozinho!” – Lema de Narcóticos Anônimos

O Programa de Doze Passos baseado em Alcoólicos Anônimos como célula mãe pode encontrar entusiastas e detratores – mas o fato é que perdura há mais de oito décadas com salas cheias ao redor do mundo. E outros tipos de grupos anônimos permanecem surgindo conforme as questões contemporâneas invadem as vidas dos indivíduos.

Apesar dos esforços em se criar e manter grupos capazes de abranger ao máximo os assuntos relacionados ao motivos causadores de desequilíbrios espirituais e causadores de males como a depressão, isolamento e suicídio – entre muitos outros – é possível perceber que muitos grupos ainda poderiam ser criados como suporte aos mais diferentes grupos sociais. Algumas sugestões seriam:

  • Transgêneros
  • Solitários
  • Uso compulsivo de internet
  • Acumuladores (objetos, animais, etc)
  • Dificuldades de aprendizado
  • Bullying
  • Idosos
  • Mães solteiras
  • Crianças com transtornos de comportamento
  • Deficientes físicos
  • Pessoas afetadas por doenças específicas
  • Vítimas de assédio sexual
  • Fanatismo (político, religioso…)
  • Agressores
  • Refugiados e imigrantes
  • (… alguma sugestão para adicionar?)

Apesar da forte inspiração, também surgem a cada dia novos tipos de grupos que apesar de parecidos por constituírem terapias em grupo, NÃO SÃO BASEADAS em doze passos de AA da maneira tradicional. Por essa mesma razão não estão listados em nosso menu de endereços, mas merecem nota pelo serviço prestado a pessoas com diferentes tipos de dificuldades físicas, mentais e espirituais.

Outros Grupos em Portugal (não anónimos)

Na verdade, seja pela a inexistência de alguns grupos ou seja pelo surgimento de grupos de iniciativa privada, o fato é que existe demanda! E nós podemos sim criar e recriar todos eles – e outros tantos mais – como grupos anônimos de mútua ajuda gratuitos baseados no programa de doze passos de alcoólicos anônimos. Que tal?

“Em A.A. nada se cria. Tudo se copia!” – Lema de Alcoólicos Anônimos

A espiral da recuperação – Parte 1

NA OPINIÃO DO BILL 1, Mudança de personalidade, “Com freqüência se tem dito a respeito de A.A., que somente estamos interessados no alcoolismo*. Isso não é verdade. Temos que vencer a bebida para continuarmos vivos. Mas quem quer que conheça a personalidade do alcoólico, através do contato mais direto, sabe que nenhum alcoólico verdadeiro pára completamente de beber sem sofrer uma profunda mudança de personalidade”.
*Ou outras adicções e dependências

A recuperação de uma adicção ou processo de dependência, seja ela qual for, é um processo, pois ocorrerá progressivamente, incluindo conquistas e recaídas, aos poucos enquanto o indivíduo aceita ser mudado, se torna capaz de mudar e se finalmente se torna agente de mudança – voluntariamente ou não – dos demais ao seu redor. Porque quando alguém muda, as outras circunstâncias e pessoas próximas a ele também mudarão em algum nível, é certo.

O Programa de Doze Passos inclui para esta finalidade um grande conjunto conceitual e material de uso em suas reuniões e fora delas: os doze passos, conceitos e tradições; lemas e ferramentas de recuperação, adoção de padrinho ou madrinha de recuperação, reuniões constantes e eventos esporádicos, literatura endossada e materiais de uso em sala, prestação de serviço dentro de sala e fora dela, participação em encontros de comitês de organização interna dos grupos e muito mais. Não será algo que praticaremos ou obteremos integralmente em um único dia e nem mesmo, provavelmente, adotaremos tudo; mas quanto o mais permitirmos adotar em nossa recuperação mais nos beneficiaremos. Sendo flexíveis, sem nos sobrecarregar, atingiremos aspectos mais saudáveis e serenos em nossas vidas. Os grupos baseados no anonimato de seus membros costumam ter ou realizar:

  • Os doze passos: A relação de passos de alcoólicos anônimos – célula mãe dos grupos de mútua ajuda – ilustra as etapas a ser realizadas pelos ingressantes no Programa de recuperação baseado no modelo de AA.
  • Os doze conceitos: São doze regras simples que visam manter a prestação de serviços de cada grupo organizada e harmoniosa.
  • As doze tradições: São doze regras de conduta interpessoal e organização interna de grupos anônimos que visam manter o funcionamentos das salas com harmonia, alternância de participantes em sua organização e não-acumulação de poder sobre determinados indivíduos.
  • As doze promessas: São um conjunto de doze afirmações positivas relacionadas à meta de recuperação de determinado grupo anônimo.
  • As doze diretrizes: São orientação ao modo como o grupo se reportará à situações de exposição na mídia, evitando controvérsias e garantindo o anonimato dos envolvidos.
  • Partilha: O ato de falar durante a reunião em uma sala de mútua ajuda. Normalmente começa com “Sou fulano, um participante em busca de recuperação…” e todos respondem juntos “Oi, Fulano!!!”. Ao final, quem partilhou costuma agradecer dizendo “Obrigada por me ouvirem”.
  • Lemas: São pequenas frases, fáceis de memorizar, que os praticantes de irmandades anônimas costumas adotar pessoalmente em seu processo de recuperação ou como metas do grupo durante certo período.
  • Ferramentas de recuperação: Telefones de outros membros do grupo (atualmente incrementados com listas de Whatsapp e grupos de redes sociais) a quem se possa entrar livremente em contato em momentos de crise para buscar orientação e companhia. Adoção de padrinho ou madrinha de recuperação e manter contato com ele ou ela. 
  • Reuniões constantes: Há uma dia e um horário propício em algum Grupo esperando por você. A ida a um Grupo de maneira nenhuma o vincula a ele. É possível ir participando de reunião em reunião até adotar o Grupo com mais afinidade temática e de companheiros. Também é comum a adesão simultânea a mais de um tipo de sala. Por exemplo, frequentar AA e NA, frequentar Nar-Anon e Coda e CCA, etc.
  • Anonimato dos participantes: “Quem você viu aqui, o que você ouviu aqui, ao sair daqui, deixe que fique aqui”
  • Orações: da Serenidade, da Irmandade e do Grupo.
  • Fitas, fichas ou cartões de tempo de adesão ao programa: São pequenas lembranças de vitórias pessoais e de persistência.
  • Eventos esporádicos: Palestras com participantes mais experientes, palestras com profissionais de terapia, finais de semana de eventos de recuperação em hotéis…
  • Literatura endossada: Os livros e apostilas que seu grupo elegeu como representantes de sua proposta de recuperação. Alguns podem ser adquiridos em livrarias comuns e outros são comprados diretamente nas salas durante as reuniões.
  • Materiais de uso em sala: Cartões para leitura durante a reunião, banners e quadros nas paredes, lenços para quem se emociona durante sua partilha, apostila que orienta a coordenação da sala, lanche para a hora do café e outros materiais para organização e realização do encontro.
  • Prestação de serviço dentro de sala: Ajudar a arrumar a sala antes e depois do encontro, fazer e ajudar a servir o café, verificar pendências, avisar temas importantes aos demais participantes para manter a sala em condições de realizar suas reuniões com eficiência entre os presentes. Prestar serviço eventualmente ou ser coordenador, tesoureiro ou representante do grupo junto ao evento de intergrupo.
  • Prestação de serviço dentro de sala fora dela: Visitar como voluntário empresas, eventos, escolas, presídios, hospitais e outros espaços apresentando a proposta de recuperação de sua sala. Faz parte de “levar a mensagem”.
  • Participação em encontros de comitês de organização interna dos grupos: Participar ativamente da gestão do Grupo de sua cidade colaborando para a existência e continuidade do mesmo. Normalmente acontece na forma de uma reunião de intergrupo com cada sala da cidade enviando um representante que relate a situação de sua sala e juntos adquiram materiais de apoio e informações relevantes a serem repassadas no retorno às suas reuniões. Conhecer as Doze Tradições ajuda bastante.


O começo da espiral da recuperação

Eleger um grupo de apoio e começar a frequentá-lo regularmente, conhecer suas propostas e participantes, conhecer os recursos do programa de Doze Passos, tudo isso, enquanto se está vivendo um quadro ainda de mal-estar devido a uma adicção ou dependência não é fácil e requer um esforço para a manutenção das novas práticas e obtenção dos primeiros sinais de alívio e bem-estar. O Programa de recuperação baseado em AA é acessível, mas requer empenho de seus integrantes. Dia após dias, passo a passo, a vida vai mudando em um processo de desenvolvimento que propõe a geração de novas bases para um novo modo de viver.

Melhorar como um processo de curar
A “cura”, seja para qual problema de adicção ou dependência for, não vem quando pedimos, mas chega durante o tempo a que entregamos o nosso processo de curar. Talvez trocar “cura”  por “melhoria” seja uma melhor visão para o processo. Melhoramos dia após dia, melhoramos compreendendo nossas histórias pessoais, melhoramos junto a outros que também estão melhorando de problemas semelhantes, melhoramos porque passamos a nos autoconhecer.

Falhamos e recaímos bem no meio disso tudo?

A espiral da recuperação – Parte 2

Mas observe a vitória do quanto já melhoramos. A ideia de uma recuperação em espirais ou zigue-zagues ascendentes ou da forma como melhor compreender pessoalmente, de algum modo, estará relacionado à noção de que os progressos estão sujeitos a altos e baixos e que o controle individual não será tão efetivo quanto ao controle pessoal orientado pelos companheiros de programação. Minha visão sobre minha própria recuperação se tornou mais positiva quando elaborei minha própria meta de recuperação e passei a enxergá-la como um gráfico de rendimentos do Bovespa: não importaria observar diversos picos descendentes, eles não significariam prejuízos para mim, eu não iria ficar me recriminando, desde que a grande ascendente sobre a qual se apoiassem continuasse subindo de maneira exponencial em realizações e transformações individuais. Interpretação pessoal, bem pessoal, elabore uma para si também.

E a cada problema superado, não duvide, a vida trará novos. Porém, com uma diferença: os desafios crescerão, pois estaremos vivendo níveis mais conscientes de sentimentos, pensamentos e comportamentos. Não retornaremos a comportamentos antigos para lidar com novas situações cobradas pela sobriedade, mas será que já desenvolvemos a habilidade de tais novas atitudes? Manter uma visão de recuperação como um processo em espiral também incluirá essa mudança progressiva dos desafios que chegarão e dos recursos que abandonaremos ou passaremos a adotar para lidar com os mesmos. São muitos passos nessa nova jornada de (re)construção pessoal. Vale a pena continuar voltando ao Programa!


“NA OPINIÃO DO BILL 331, A grande realidade, “Para o recém-chegado: Entregue-se a Deus, como você O concebe. Admita suas faltas a Ele e a seus semelhantes. Desfaça-se das ruínas de seu passado. Dê livremente aquilo que você receber e junte-se a nós. Estaremos com você na irmandade do espírito e, você certamente se encontrará com alguns de nós, quando trilhar o caminho do destino feliz. Que Deus o abençoe e o proteja! – até lá.”

 

Até que o casamento…

 

NA OPINIÃO DO BILL 72, Dependência – Doentia ou saudável, “Nada pode ser mais desmoralizador do que uma dependência servil e exagerada de um outro ser humano. Isso muitas vezes significa a exigência de um grau de proteção e amor que ninguém poderia possivelmente satisfazer. Assim sendo, aqueles que esperamos que sejam nossos protetores finalmente fogem e uma vez mais somos deixados sozinhos para nos desenvolver ou nos desintegrar”.

“Antigamente o casamento durava”, dizem alguns.

De fato, antigamente o casamento durava bastante, vidas inteiras até. E permitia, no mais das vezes, muita insalubridade: esposa e marido se agredir verbal e fisicamente. Esposa e marido agredir verbal e fisicamente aos filhos. Esposa (às vezes o marido) agarrando a própria existência ao salário e residência do outro até que a morte os separasse. Ser a extensão humana da condição do outro (esposa do fulano de profissão tal, marido daquela de família influente, etc). Antigamente… nada! Tudo ainda acontece, porém, no século XXI, cada vez menos.

Foi necessária a criação de leis específicas para a proteção contra agressões físicas e verbais de mulheres e crianças no interior de suas próprias famílias. No Brasil, são a Lei Maria da Penha e o Estatuto da Criança e do Adolescente as mais conhecidas. Faz parte da evolução do conjunto da sociedade ocidental. Infelizmente, as formas culturais de violência – normalmente mais discretas como a manipulação emocional e a dependência financeira – continuam a ser valorizadas e exaltadas principalmente nos produtos de mídia como cinema e romances. Mas os tempos são de mudanças e até mesmo essas “escolhas” tem tido suas desvantagens expostas.

Quanto menos os casamentos duram hoje em dia, mais descobrimos o quanto melhoramos enquanto indivíduos de uma maneira bastante generalizada. E é desse jeito que humanidade evolui para melhor em questão de relacionamentos sexo-afetivos. Casamentos passaram a ser postos em segundo lugar porque os indivíduos – homens e mulheres – estão aprendendo pouco a pouco a se colocar em primeiro. A palavra autoestima passou a integrar o vocabulário das pessoas de todas as idades e níveis sociais com cada vez mais frequência. O casamento passou a precisar ser bom para ambos, simultaneamente. É uma novidade na história humana. Uma novidade e tanto!

Nas salas de irmandades anônimas o casamento – quando existe – normalmente está em cheque. Um exemplo é uma pessoa ser adicta em álcool e não entender o porquê do parceiro reclamar tanto. Outro parceiro pode não suportar mais a bebedeira do companheiro e querer se separar. Um terceiro indivíduo começar a tratar seu abuso em substâncias e o companheiro não saber mais como lidar com os comportamentos dessa “nova” pessoa que está cohabitando o mesmo teto. Para cada variação de tipo de irmandade anônima (comida, sexo, gastos, narcóticos, etc) há diferentes formas de sofrimento pressionado os casamentos de seus participantes.

Também há o exemplo da dependência emocional que invisivelmente destrói casamentos. Invisivelmente porque nossa sociedade é tão saturada de modelos culturais negativos de se relacionar sexo-afetivamente que muitos comportamentos absurdos dos dependentes emocionais são até mesmo elogiados e incentivados por familiares e amigos, revistas, sites, televisão. Aprender novas formas de sentir, pensar e se comportar para os dependentes de pessoas é um desafio imenso; pois precisam aprender (e aceitar) que seus supostos “acertos” foram na verdade erros que enfraqueceram a relação. É tão complicado para o dependente emocional mudar quanto é difícil para seus parceiros conviverem por muito tempo e proximidade com os mesmos. É desgastante, sufocante,  chega um momento em que apenas já não dá mais para continuar.

Existe finalmente o exemplo do sofrimento do adicto em si que se faz espelhar em outros sofrimentos para suas companhias íntimas que o cercam em um processo conhecido como codependência. São tipicamente a vergonha, tristeza e as tentativas de controle da situação por parte de cônjuges, filhos, outros parentes. O sofrimento que supostamente pertenceria apenas à intimidade de alguém acaba por ser levado de diferentes formas para a vida social e profissional (agressividade, isolamento, auto sabotagem, bullying escolar, etc). O prejuízo da dependência extrapola a dor pessoal, atravessa famílias e casamentos e alcança a sociedade como um todo.

Mas essa mesma sociedade já aprendeu e evoluiu muito em áreas supostamente difíceis – tecnologicamente, politicamente, economicamente. A instituição do casamento (e da família) também precisará continuar mudando para uma sociedade de fato evoluída e saudável. Para todos, ao mesmo tempo. As salas de terapia de mútua ajuda não são terapia de casal e nem foram feitas para salvar ou separar casamentos. Foram feitas para equilibrar indivíduos espiritualmente visando a serenidade de viver; sejam eles dependentes de substâncias, comportamentos ou de outras pessoas. Mas se a pessoa muda, é certo, esse casamento também irá mudar de alguma maneira.

O casamento não mudará sozinho. Instituições e governos, por si, também não serão capazes de mudar o casamento. São as pessoas, disposta às mudanças e a mudar, que mudarão os casamentos. As irmandades anônimas, agora sim,  podem ajudar. Irmandades foram feitas para ajudar “aqueles que querem e não aqueles que precisam” a se amarem o suficiente mesmo que estejam (ou se tornem) sozinhos a desenvolverem a habilidade de buscar relacionamentos sexo-afetivos emocionalmente saudáveis e satisfatórios como um todo ainda que demande certo tempo. Isso então, é uma verdadeira revolução!

NA OPINIÃO DO BILL 85, A vida não é um beco sem saída, “Quando um homem ou uma mulher tem um despertar espiritual, o mais importante significado disso é que ele se tornou agora capaz de fazer, sentir e acreditar naquilo que ele não poderia antes fazer sozinho, sem ajuda, com seus próprios recursos e força. A ele foi concedida uma dádiva, que leva a um novo estado de consciência e a uma nova vida. A ele foi indicado um caminho, que lhe mostra que está indo em direção a uma meta, que a vida não é um beco sem saída, nem algo a ser suportado ou dominado. Na verdade ele se transformou, porque se agarrou a uma fonte de energia, da qual até agora havia se privado”.

 

O Tempo Revelador

29 de Dezembro Os eventos reveladores da vida podem ou não ser bem-vindos, mas se eles são favoráveis ou não só saberemos com a plenitude do tempo. (Robin Norwood, livro Meditações Diárias para Mulheres que Amam Demais)

É mais ou menos de conhecimento geral que o Programa de Doze Passos se baseia na premissa da Serenidade por 24 horas. Ou, Só Por Hoje. Não é solicitado aos seus participantes a assinatura de um grande contrato ou o acerto de um compromisso pré-determinado de certo tempo. Pede-se apenas a atenção e o controle a um dia de sua vida de cada vez em relação ao motivo que tenha indicado a pessoa a frequentar tal grupo de mútua ajuda. Vitória, encontramos um programa acessível e simples.

“Vitória, como assim? Veja no que irei participar a partir de agora. Que ruim.” – É um pensamento possível nesse primeiro momento.

Dia após dia passamos a visitar reuniões para falarmos sobre nossos desafios pessoais e ouvirmos outras histórias que invariavelmente se assemelham com as nossas próprias em algum aspecto. “O remédio entra pelo ouvido e sai pela boca” nos ensinam. Se existe algo que possivelmente cause embaraço em Salas de irmandade anônimas NÃO são propriamente os relatos que falamos mas o fato que contamos histórias pessoais tão universais, repetitivas, com explicações freudianas conhecidas! Nosso sofrimento nos traiu, descobrimos: aquela dor que ”só” nós mesmos sabíamos o quanto nos dilacerava agora aparece presente com pequenas variações na vida de tantos outros indivíduos desconhecidos. Vitória, o passar do tempo nos revela que nossos segredos talvez não sejam tão sombrios assim.

Falha-se, a famosa recaída. O que se espera de nós? Que reconheçamos a falha, voltemos a frequentar as reuniões e a praticar as ferramentas do Programa do tipo de Grupo ao qual aderimos. As recaídas ainda ocorrerão por certo tempo, mas a espaços temporais cada vez mais crescentes. Vitória, o passar do tempo nos revela nossas próprias mudanças, nos tornando hábeis a nos autoanalisar, tornando nossos comportamentos mais previsíveis a nós mesmos assim nos ofertando a chance de aplicar um livre-arbítrio mais adequado a nossa própria sanidade, interesses e serenidade.

Frequentando reuniões, se conhecendo melhor, aprendendo a interromper os gatilhos da dependência ou comportamentos destrutivos de uma vida equilibrada, uma certa magia (ou seria Lei da Atração? Ou a vontade de um Poder Superior a nós mesmos como cada um o concebe?) começa a encontrar espaço para acontecer. Começamos a identificar companheiros de sala como amigos e criamos (ou recriamos) uma vida social, nos equilibramos emocionalmente, percebemos a chegada de oportunidades na vida e nossa autoestima nos indica como aptos a buscá-las, um círculo virtuoso toma forma e ganha força a nos beneficiar por períodos cada vez mais extensos. Vitória, o Programa de 12 Passos começa a mostrar seus efeitos práticos na vida em geral, extrapolando as Salas.

Finalmente, algumas das frases e textos de reflexão comuns – e um tanto misteriosos – nas salas de mútua ajuda finalmente se tornam compreensíveis: nossos mais insondáveis problemas viabilizaram algumas das mais bonitas soluções de nossas vidas. Nunca ouviu falar nisso ou discorda? Tudo bem, continue voltando para conhecer o segredo que está na próxima reunião. Será na entrega ao tempo que este tipo de vitória exclusiva e pessoal se definirá e manifestará. Permita que o tempo a revele, só por hoje.