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Segundo Passo – Fevereiro

Segundo Passo do programa de recuperação de AA – “2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.”

Uma vez identificado um determinado problema em nossa vida através do processo de admissão do Primeiro Passo do programa de recuperação de alcoólicos anônimos temos um potencial desencadeamento de cura em nossas vidas: talvez um grande problema tenha finalmente vindo à tona de modo a chamar nossa atenção de maneira imediata. Talvez esse problema inicial desencadeie uma quebra de nossa negação interior que permitirá enxergarmos uma série de outros problemas dentro de nós – que de outra maneira ou sendo avisado por outra pessoa – jamais reconheceríamos, jamais admitiríamos, jamais nos curaríamos. Com um grande problema abrindo as portas para a mudança de uma série de outros problemas, algumas de nossa novas expressões de viver pessoais se manifestarão naturalmente. E tais modificações serão captadas no ambiente pelos demais que nos rodeiam, gerando também mudanças em nossos relacionamentos.

Mas, que tipo de mudanças pessoais e interpessoais poderiam ser essas? Certamente não as que nos acostumamos a pedir (especialmente dentro dos processos educacionais religiosos tradicionais no tocante às orações) do tipo que ele ou ela mude, que ganhemos essa ou aquela conquista material, que algo assim nos aconteça ou… Por que não? Por que esses tipos de pedidos “justos” de mudanças, a essa altura do processo, já estaremos aprendendo se tratar de manipulações. E não, não será isso parte de nenhum processo de cura factível ou de alcance de serenidade espiritual.

Novamente, “e porque não?” imagino o leitor se perguntando diante da tela – pois eu também já fiz essa indagação de maneira completamente indignada no começo de minha recuperação em programa de doze passos. Vamos perceber isso bem claramente:

  • Se caio na armadilha de por exemplo, pedir aos céus que fulano magicamente pare de beber (ou outro comportamento que EU considere nocivo); em primeiro lugar fulano parar subitamente com algo que já está acostumado e sem nenhum tipo de conscientização pessoal a chance dessa “mudança” ser breve é muito elevada. Quantos casos em sua vida pessoal você talvez não tenha acompanhado e observado ocorrer exatamente dessa maneira. Quem se decepcionará? Eu!
  • Se caio na armadilha de por exemplo, obrigar fulano a ir à terapia para parar de utilizar substâncias narcóticas (ou outro comportamento que EU considere nocivo); talvez fulano faça isso porque queira ME acalmar ou ME agradar ou ME… Peraí! Isso é fulano se tratando realmente ou utilizando da terapia um argumento para cair em minhas graças – vulgo ME manipular?
  • Não importa a minha idade, se jovem ou amadurecido. Tudo o que sou e as capacidades que possuo provém de minha educação recebida, crenças pessoais adotadas, produtos de mídia e entretenimento que me influenciaram – e falharam. Logo, se meus recursos individuais me indicaram caminhos capazes de me criar problemas como é que seria possível, ao orar, mesmo que fervorosamente, não estar solicitando justamente receber as mesmas circunstância que sempre venho recebendo? Como saber? Basta observar o que venho vivendo! Para novos resultados em minha vida, EU precisaria necessariamente aprender novos pensamentos e a formular novos pedidos. Por isso, muitos adeptos de salas anônimas também associam suas terapias de grupo de mútua ajuda anônimas a terapias cognitivas (ligadas aos processos de aprendizado). Para aqueles que possuem afinidade com textos do tipo “Lei da Atração” agora vemos de que maneira atraímos nós mesmos tudo aquilo de que tentávamos evitar. Sempre “eu”. E como é que esse “eu” aí então se porta de modo tão prepotente a tentar modificar outro alguém conforme sua vontade? Os bons efeitos não conseguirão chegar porque não são assuntos do meu “Eu”, mas do Poder Superior. Humildemente, assumimos nosso PS e libertamos a vida do outro para que o PS também possa ajudá-lo da maneira necessária a ele e que nos é desconhecida. Por amor ao outro é que fazemos isso.
  • Ainda duvida do que foi dito anteriormente? Tudo bem. Se o alvo de tamanha bondade de meus pedidos e orações o tempo todo seria o “outro” porque então rotineiramente estaria “eu” assumindo o papel central de vítima desapontada dos atos alheios? Aliás, nos atentando ao fato de que “persegui” tão corretamente em meus conceitos fulano para “salvá-lo” de si mesmo e agora sou uma “vítima” do descaso de fulano… Eu preciso urgentemente me tratar de meu próprio comportamento de Triângulo de Karpman, concorda? Novamente… EU precisando ME cuidar!

O Programa de Doze Passos além de acessível é muito simples. O que ele nos sugere mesmo? Ele nos traz como segundo passo logo posterior à admissão de nosso problema que “Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”:

  • “Viemos a acreditar” pois é um passo pessoal. Ninguém nos obrigou a acreditar em nada. Igualmente somos impotenteS a obrigar quem quer que seja a acreditar em qualquer coisa. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • “que um Poder Superior a nós mesmos” pois nossa educação, nossas crenças pessoais, nossos produtos de mídia e entretenimento que nos influenciram falharam. Logo, se meus recursos individuais me indicaram caminhos capazes de me criar problemas tão grandes, ao ponto de agora exigir minha rendição, admissão e participação de um programa de recuperação então eu preciso me abrir a algum tipo de conhecimento que ainda me seja novo. Talvez eu precise de Deus como um Poder Superior a partir de agora. Talvez eu precise de algo diferente. Mas, primordialmente, eu preciso estar de mente aberta a reconhecer que preciso me expor a conhecer o novo e a identificar meu próprio processo de cura. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • “poderia devolver-nos à sanidade” é nossa meta. É nossa vida. Uma nova vida. Ou seja, é uma ação minha e exclusivamente pessoal.
  • No segundo passo baseado em grupos de mútua ajuda anônimos, o “eu” se torna finalmente meu recurso de desenvolvimento pessoal e espiritual e deixa de ser um recurso a culpar aos outros por meus próprios problemas.

“Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”. Mas não seria justamente orando que me comunicarei com meu Poder Superior, Deus, Eu Verdadeiro ou outra concepção de PS? Haveria alguma outra maneira de fazê-lo sendo ajustado ao conceito do segundo passo? A literatura nos sugere alguns pensamentos a respeito:

  • NA OPINIÃO DO BILL 20, Luz proveniente de uma oração, Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras. “Guardamos como um tesouro nossa “Oração da Serenidade”, porque ela nos traz uma nova luz que pode dissipar nosso velho e quase fatal hábito de enganar a nós mesmos. No esplendor dessa oração vemos que a derrota, quando bem aceita, não significa desastre. Sabemos agora que não temos que fugir, nem deveríamos outra vez tentar vencer a adversidade, por meio de um outro poderoso impulso arrasador, que só pode nos trazer problemas difíceis de serem resolvidos. Grapevine de março de 1962″
  • Meditações para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood, 04 de Fevereiro: “Reze pela vontade, pela força e pela coragem de reavaliar honestamente o seu passado – e sua responsabilidade por ele. O espírito ouve suas súplicas para limpar a casa e colabora para trazer à luz as dores engessadas do passado, ajudando-a a se livrar delas conscientemente. Assim que sua vontade de perdoar o passado for realmente verdadeira, você verá um grande avanço de entendimento e a dor daquele passado se desvanecerá”.
  • A Linguagem da Liberdade, Melody Beattie,  30 de Dezembro: “Hoje, me entregarei à construção da fundação, da estrutura de minha vida. Se for hora de desfrutar da colocação dos toques finais, me entregarei a isso, e desfrutarei isso também. Lembrar-me-ei de ser grato ao Poder Superior que é o Mestre Construtor e apenas tem em mente meus melhores interesses, criando e construindo minha vida. Serei grato ao meu Poder Superior pelo cuidado e atenção aos detalhes em construir a fundação – embora eu às vezes ficasse impaciente. Estarei à espera da beleza do produto acabado de Deus.”

E no segundo passo descobrimos… que estamos apenas começando!

“Que comece por mim” – Lema de AA

O CoDependente diante do outro

“Sou capaz de ouvir sem dar conselhos”. – Afirmação de CoDependentes Anônimos

Em programas de recuperação baseados em Doze Passos, cada indivíduo que vier a integrar algum de seus inúmeros grupos encontrará um desafio específico. Quer seja se tratando de adictos químicos, comportamentais, codependentes ou outros; não há a ilusão de que as questões de um sejam necessariamente mais fáceis de se “resolver” do que de outros.

Para quem está de fora de um programa como esse, tal impressão se relaciona às vezes em considerar que questões de foro íntimo capazes de levar a consequências legais – tais como prisão ou processo ou mesmo a condenação moral aberta da maioria – sejam necessariamente mais difíceis de lidar do que aqueles que lutam com questões relacionadas às emoções, por exemplo. Quem está nas salas provavelmente conhecerá pelas próprias experiências o quão difícil possa ser a superação de quase todos os quadros mesmo diante de muita disciplina. E disciplina é algo que nem todos dispõem, nem todo mundo gosta, dá trabalho e de fato, exige muito daqueles que se dispõem a dominá-la. Toda e qualquer recuperação toma tempo e esforço, muito mais tempo e esforço do que normalmente se gostaria de admitir.

Neste post será considerado as dificuldades de relacionamentos entre o adicto – seja ele químico ou comportamental ou outro fator gerador de estresse – e seu espelhamento codependente. Quem poderia ser um codependente? Pais, filhos, irmãos (ou outros familiares próximos), os relacionamentos sexo-afetivos (cônjuges, namorados, amantes, etc), amigos íntimos; enfim, se pararmos para pensar bem há MUITO mais pessoas codependentes em escala planetária do que pessoas adictas ou “com problemas” de uma forma geral. Mas, como os adictos geralmente possuem seus problemas catalogados em artigos penais, é tão mais conveniente apontá-los como os grandes causadores de problemas. Se isso for de fato uma verdade, eles nunca o são sozinhos.

Seria possível escrever muito a respeito dos aspectos conflituosos da relação entre codependentes e adictos sem que alguém “de fora” fosse capaz de alcançar o cerne do problema. Na verdade, é o mais comum de se encontrar: excelentes textos da temática codependência e dependência emocional para quem já os estuda e interpreta há bastante tempo, mas um tanto “nebulosos” para quem ainda está começando seus primeiros passos no Programa – ou ainda nem sequer começaram – ou sabem que poderiam se beneficiar de um.

Então o recurso desse post será reproduzir o trecho de um livro chamado “Ame a Realidade” da autora Byron Katie. Esse livro está esgotado e somente consegui meu exemplar através da “busca por raridades” da plataforma de revenda de livros usados Estante Virtual. Tal obra NÃO CONSTITUI LITERATURA ENDOSSADA de grupos anônimos mas apresenta uma passagem interessante sobre o diálogo de duas mães a respeito de suas filhas adictas. De suas 322 páginas, 5 folhas estão reproduzidas aqui. É o mais claro que há para se ilustrar a questão para quem estiver dando seus primeiros passos em conhecer a literatura de codependência.

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“O único comportamento sobre o qual tenho algum controle é sobre o meu mesmo”. – Afirmação de CoDependentes Anônimos

Serenidade x Carnaval

Se pode não ser fácil manter a sobriedade no período de festas familiares como as do final de ano (Ação de Graças no exterior, Natal e Réveillon) a chegada do Carnaval exercerá uma certa influência sobre as escolhas daqueles que estão em programas de recuperação baseado em Doze Passos.

Carnaval é o mais longo período de festejos no Brasil, com sua comemoração iniciada semanas antes de sua data oficial e encerrado somente dias após seu término no calendário. É muito tempo para lidar, pois é também é a data com a maior concentração de uso, abuso e incentivo social e cultural ao exagero de alguns comportamentos e substâncias mais influenciadores de humores o possível: álcool, euforia, cigarro, drogas, sexo, gastos; ciúmes, brigas e rompimentos em relacionamentos; sentimentos depressivos de quem não tem “turma”, as tentativas de controle sobre as atitudes dos filhos… uma longa lista. Tudo intenso e com apelo para ainda mais.

Para quem está em recuperação, talvez a sensação seja de se desviar de um verdadeiro “campo minado”. Agrava o fato de nem todas as pessoas estarem em recuperação, o que significa que pessoas com absoluto desconhecimento de suas adicções ou problemas comportamentais estarão se exaltando ainda mais. É muita, muita adrenalina, que proporciona toda a intensidade da festa e igualmente a intensidade de seus possíveis problemas.

Carnaval: as Dúvidas

  • Conseguirei me divertir sem perder o domínio diante do álcool, drogas ou cigarro?
  • Conseguirei me divertir sem perder o domínio de mim diante do ciúme sobre aqueles que me acompanham?
  • Conseguirei me divertir sem comer em excesso ou não me alimentar?
  • Conseguirei me divertir saudavelmente em grupo?
  • Se estou só, manterei o equilíbrio estando em casa ou na rua ou buscando companhia adequada para sair? A alegria dos grupos unidos será alvo de minha admiração – em vez de minha frustração?
  • Conseguirei manter minhas finanças em dia apesar dos festejos?
  • Conseguirei manter minha saúde e autoestima diante de meus comportamentos sexuais?

Carnaval: “Modo de Fuga”

  • Algumas pessoas optam em se refugiar em retiros organizados por suas irmandades anônimas.
  • Outros já preferem retiros religiosos ou de meditação.
  • Há quem fuja do tumulto das ruas viajando para locais sem festejos.
  • Há quem simplesmente se recuse a sair de casa realizando “maratonas” de filmes e séries na tv e internet.

Carnaval: “Tamo junto”

  • Sair na companhia de parceiros de recuperação.
  • Chamar a família e amigos para casa ou aceitar convites.
  • Aproveitar os dias de feriado e fazer maratona de recuperação indo a várias salas eventualmente abertas.

Ferramentas de recuperação vitais nesse período

  • Número do telefone do padrinho ou madrinha acessível.
  • Endereços de salas que funcionem excepcionalmente no período.
  • Participar de pequenos grupos fechados de Facebook ou listas de Whatsapp exclusivas de pessoas em recuperação com quem possa conversar alternadamente com aquelas que conheça pessoalmente e possua afinidade.

Só por hoje, tudo vai dar certo!

 

 

Prestar Serviço e os Conceitos

“Bons líderes de serviço, bem como métodos sólidos e adequados para a sua escolha são, em todos os níveis, indispensáveis para o nosso funcionamento e segurança no futuro”.
9º Conceito de AA

Como modelos de conceitos para grupos anônimos brasileiros disponíveis na internet hoje encontramos dois modelos bastante distintos: os Conceitos de Alcoólicos Anônimos que apresenta a complexidade de uma estrutura que expandiu mundialmente de uma forma muito ampla e os Conceitos de MADA RJ que ainda estão em uma fase inicial de elaboração.

Explica-se que essas diferenças, inclusive da maioria das irmandades anônimas nem sequer possuírem uniformemente todo o conjunto de normativas e ferramentas de recuperação, não devem ser confundidas como “desorganização” das mesmas; mas explicadas que alguns grupos são muito mais recentes em relação à célula-mãe que é AA – com seus mais de 80 anos de atuação – e também pelo respeito à 4ª Tradição sobre a autonomia de cada grupo em se auto-organizar a seu tempo e critérios.

Ilustraremos com os Conceitos de MADA RJ por sua simplicidade em relação à definição a respeito da prestação de serviço nos grupos.

OS DOZE CONCEITOS DE MADA
01. Para cumprir o propósito primordial da nossa Irmandade, os Grupos de MADA se juntaram para criar uma estrutura que desenvolve, coordena e mantém serviços por MADA como um todo.
02. A responsabilidade final e autoridade sobre os serviços em MADA permanecem com os Grupos de MADA.
03. Os Grupos de MADA delegam à estrutura de serviço a autoridade necessária para cumprir as responsabilidades a ela atribuídas.
04. A liderança efetiva é altamente valorizada em MADA. As qualidades de liderança devem ser cuidadosamente consideradas ao selecionar servidoras de confiança.
05. Para cada responsabilidade atribuída à estrutura de serviço, deve ser claramente definido um único ponto de decisão e prestação de contas.
06. A consciência coletiva é o meio espiritual, pelo qual convidamos um Deus amantíssimo a influenciar nossas decisões.
07. Todos os membros de um corpo de serviço arcam com responsabilidade substancial pelas decisões deste corpo e devem poder participar plenamente no seu processo de tomada de decisão.
08. A nossa estrutura de serviço depende da integridade e eficiência de nossas comunicações.
09. Todos os elementos da nossa estrutura de serviço têm a responsabilidade de considerar cuidadosamente todos os pontos de vista nos seus processos de tomada de decisão.
10. Qualquer membro de um corpo de serviço pode requerer deste corpo a retratação por ofensa pessoal, sem medo de represália.
11. Os recursos de MADA devem ser usados para promover nosso propósito primordial e devem ser administrados com responsabilidade.
12. De acordo com a natureza espiritual de MADA nossa estrutura deve ser sempre de serviço, nunca de governo.

“Como indivíduos e como irmandade, vamos certamente sofrer se deixarmos toda a tarefa do planejamento para o amanhã, nas mãos da Providência. A verdadeira Providência Divina foi dar a nós, seres humanos, uma considerável capacidade de antevisão e Ela evidentemente espera que a usemos. Naturalmente, podemos muitas vezes cometer erros de cálculo quanto ao futuro, no todo ou em parte, mas o pior é recusar-se a pensar nele.” Doze Conceitos para Serviços Mundiais, pág. 44

O Triângulo de Karpman

“30 de janeiro – Para muitas de nós, o tratamento de recuperação consiste em aprender a fazer exatamente o oposto do que sempre fizemos.” – Meditações Diárias para Mulheres que Amam Demais, Robin Norwood

O programa de recuperação de dependências baseado em Doze Passos é realizado por leigos dispostos a colaborar entre si. É gratuito, exige anonimato de seus participantes e é um local onde evita-se dar conselhos (mais conhecidos como o jargão “dar retorno”). Basicamente, um grupo de mútua ajuda anônima é o avesso do que a psicoterapia normalmente oferta.

Então, porque abordar o Triângulo de Karpman (TK) neste site? Pois a princípio o TK seria de interesse de terapias individuais tradicionais. Vamos deixar essa explicação por conta da autora norte-americana Melody Beattie em seu livro “Codependência Nunca Mais” que faz parte de literaturas endossadas de diversos grupos anônimos.

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Uma representação bastante básica e clássica de como se desenvolve um diálogo típico entre pessoas que – inadvertidamente, é claro – estejam praticando o jogo envolvido no Triângulo de Karpman (perseguidor-salvador-vítima alternadamente) foi bem representada pela psicóloga norte-americana Robin Norwood em seu livro “Mulheres que amam demais” que inspirou a criação da irmandade MADA – Mulheres que Amam Demais Anônimas:

 

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Quanto mais se participa de reuniões de irmandades anônimas e se estuda suas literaturas endossadas mais se destaca o valor de se conhecer e evitar de praticar as representações indicadas no TK. Na verdade, o ato de conversar após se “apertar a tecla stop” da prática do jogo ou TK na vida diária significa que dialogar perde tanta carga de drama e a vida se torna tão mais simples que causa até mesmo um certo estranhamento. Que absurdo! Viver uma vida simples e sem praticar ou sofrer manipulação ser incômodo de se acostumar! É para isso e muito mais que continuamos voltando. O segredo sempre está na próxima reunião.

“É nos relacionamentos que demonstramos nossa recuperação. Cuidar bem de nós mesmos não significa evitar relacionamentos. O objetivo da recuperação é aprender como funcionar nos relacionamentos.” Para Além da Codependência, Melody Beattie.

Prestar Serviço e os Passos

24 de JANEIRO, CONSEGUINDO SE ENVOLVER, É preciso ação e ainda mais ação. “A fé sem obras é morta.”… Nossa única meta é sermos úteis.
Quando participamos de nossa primeira reunião de programa de Doze Passos logo ao final do encontro recebemos nosso primeiro convite de prestação de serviço. ”Ao final da reunião solicitamos que nos ajudem a arrumar a sala.” Quando somos informados de que o anonimato é o alicerce espiritual de nossas atividades, também estamos indiretamente ouvindo um chamado à prestação de serviços em sala; pois sendo as atividades internas dos grupos de mútua ajuda realizadas voluntariamente por seus membros fica mais assegurado de que tudo o que foi dito e ouvido ali que assim permaneça.

E de que se trata exatamente a prestação de serviços dentro de irmandades anônimas? Resumidamente, qualquer atividade que viabilize a existência do grupo e a realização de cada reunião. Desde o ato de pegar uma chave que abra a porta do local ou fazer o café para todos os participantes ou distribuir cartazes em murais de espaços de grande circulação; enfim, são muitas as maneiras de se trabalhar por uma determinada irmandade anônima, sendo as mais comuns:

  • Durante a reunião: Providenciar alimentos e bebidas para a hora do intervalo, coordenar a reunião, atuar como secretário ou tesoureiro, arrumar a sala antes e depois do encontro do grupo, manter uma comunicação com os administradores do local onde a sala estiver instalada. Informar notícias relacionadas ao grupo durante o encontro. Se dispor como “Abordagem” para atender pessoas que inesperadamente apareçam à porta durante a reunião.
  • No intergrupo (ou equivalente): Produção dos materiais utilizados nas reuniões como impressão de materiais em gráficas e elaboração de artigos artesanais para eventos. Participação nos comitês de literatura, de eventos, de internet, de informação ao público, de acessórios e outros. Ir ao evento de Intergrupo como Representante de Grupo (RG).
  • Relacionamentos com outros participantes: Ser madrinha ou padrinho de recuperação de alguém.
  • Divulgação externa: Visitar outros espaços e eventos levando a mensagem do Grupo. Distribuir folhetos e afixar cartazes.

Bem, uma vez que as formas de se prestar serviços voluntariamente dentro de salas anônimas são tantas mas porque o participante iria fazê-lo? Em se tratando dos Doze Passos de AA, cujo foco seria uma maneira estruturada de recuperação de um estado espiritual caótico para uma vida equilibrada e afastada dos problemas que precipitaram a ida até a sala – sejam eles quais forem – a etapa que indica essa prática de prestação de serviço como desejável é o décimo segundo passo.

12º Passo – Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.

A prestação de serviço voluntário em grupos baseados no programa de Alcoólicos Anônimos possui muitas razões que asseguram o sucesso dos resultados das próprias irmandades assim como benefícios que se revertem aos próprios servidores.

  • A prestação de serviço voluntária assegura a existência do próprio grupo de maneira anônima, gratuita e com qualidade.
  • A prestação de serviço voluntária assegura o sucesso de seus resultados por ofertar um espaço em que aquele que se encontra em recuperação possa trabalhar em um espaço reduzido, servindo como um verdadeiro ambiente de treino para queles que se afastaram de – ou não chegaram a atuar em – atividades profissionais ao longo da vida; ocupando seu tempo ocioso e viabilizando que seus sentimentos de capacidade e pertencimento aflorem. Com isso, as salas anônimas contam gratuitamente com prestadores de serviços em processo de equilíbrio espiritual interessados na manutenção plena das mesmas, criando uma atmosfera saudável para todos os envolvidos.
  • A prestação de serviço voluntária assegura benefícios que se revertem aos próprios servidores por permitir o permanente contato ativo entre aqueles que estão começando o programa com participantes mais experientes proporcionando-lhes “espelhos de recuperação”. Em contrapartida, os participantes que já estão há algum tempo praticando o programa de 12 passos se mantém em constante contato com os recém-chegados; o que os relembra como eles próprios agiam e pensavam quando chegaram ao grupo e o que não desejam mais a si.

A prestação de serviço em Doze Passos constitui uma base vital do sucesso e continuidade do Programa; pois os resultados positivos alcançados individualmente são revertidos em benefícios coletivos.

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, p.107 ou p.116, Entendo que o serviço é uma parte vital da recuperação mas muitas vezes imagino, “O que eu posso fazer?” Simplesmente começar com o que tenho hoje. Olho em volta para ver onde há uma necessidade. Os cinzeiros estão cheios? Tenho mãos e pés para limpá-los? Subitamente, estou envolvido! O melhor orador pode fazer o pior café; o membro que é o melhor com os novatos pode ser incapaz de ler; o único disposto a fazer a limpeza pode fazer a maior confusão com a conta do banco – mas, cada uma destas pessoas e trabalhos são essenciais para um Grupo ativo. O milagre do serviço é este: quando uso o que tenho, descubro que há mais disponível para mim do que percebia antes.

Outros Grupos

“Só eu posso, mas não posso sozinho!” – Lema de Narcóticos Anônimos

O Programa de Doze Passos baseado em Alcoólicos Anônimos como célula mãe pode encontrar entusiastas e detratores – mas o fato é que perdura há mais de oito décadas com salas cheias ao redor do mundo. E outros tipos de grupos anônimos permanecem surgindo conforme as questões contemporâneas invadem as vidas dos indivíduos.

Apesar dos esforços em se criar e manter grupos capazes de abranger ao máximo os assuntos relacionados ao motivos causadores de desequilíbrios espirituais e causadores de males como a depressão, isolamento e suicídio – entre muitos outros – é possível perceber que muitos grupos ainda poderiam ser criados como suporte aos mais diferentes grupos sociais. Algumas sugestões seriam:

  • Transgêneros
  • Solitários
  • Uso compulsivo de internet
  • Acumuladores (objetos, animais, etc)
  • Dificuldades de aprendizado
  • Bullying
  • Idosos
  • Mães solteiras
  • Crianças com transtornos de comportamento
  • Deficientes físicos
  • Pessoas afetadas por doenças específicas
  • Vítimas de assédio sexual
  • Fanatismo (político, religioso…)
  • Agressores
  • Refugiados e imigrantes
  • (… alguma sugestão para adicionar?)

Apesar da forte inspiração, também surgem a cada dia novos tipos de grupos que apesar de parecidos por constituírem terapias em grupo, NÃO SÃO BASEADAS em doze passos de AA da maneira tradicional. Por essa mesma razão não estão listados em nosso menu de endereços, mas merecem nota pelo serviço prestado a pessoas com diferentes tipos de dificuldades físicas, mentais e espirituais.

Outros Grupos em Portugal (não anónimos)

Na verdade, seja pela a inexistência de alguns grupos ou seja pelo surgimento de grupos de iniciativa privada, o fato é que existe demanda! E nós podemos sim criar e recriar todos eles – e outros tantos mais – como grupos anônimos de mútua ajuda gratuitos baseados no programa de doze passos de alcoólicos anônimos. Que tal?

“Em A.A. nada se cria. Tudo se copia!” – Lema de Alcoólicos Anônimos